4 de junho de 2026

O apoio dos empresários ao governo e a coalizão rentista, por Bresser-Pereira

Da Folha

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Governo, empresários e rentistas

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

Poderá o governo conquistar o apoio dos empresários e neutralizar a poderosa coalizão liberal?

Nos países mais avançados da Europa, é normal haver a alternância no poder entre partidos conservadores e social-democráticos –uma alternância que sinaliza a boa qualidade da democracia europeia ao mostrar que a classe capitalista é capaz de aceitar um governo que não seja seu representante direto.

Mas o governo social-democrata não pode ser contra a burguesia; ele pode ser eleito sem seu apoio, mas não tem alternativa a não ser governar com ela.

O PT, no poder há quase 11 anos, compreendeu esse fato. Por isso, desde o início do seu governo, Lula procurou estabelecer um pacto desenvolvimentista com os empresários, enquanto a coalizão, formada pela alta e média burguesia rentista e pelos financistas, ficou de fora, e seus economistas, calados.

No último ano, porém, ficou claro que o governo Dilma não lograria apresentar o mesmo desempenho econômico que o de seu antecessor, dada a sobreapreciação cambial que herdou.

Isso levou a coalizão financeiro-rentista a recuperar forças, enquanto seus economistas passaram a “explicar” o baixo crescimento. Ele seria consequência da política industrial, particularmente da política de desonerações, que “confundiria” os empresários e os levaria a não investir. A explicação não fazia sentido, mas ganhou certa credibilidade com a redução no superávit primário e um aumento da inflação.

A presidente e seus ministros mais próximos, por sua vez, apostaram na política industrial de desonerações para compensar a sobreapreciação cambial herdada do governo anterior e fracassaram.

Ignoraram que esse resultado fora alcançado nos anos 1970 graças a tarifas de importação e subsídios à exportação de manufaturados de, em média, 45%. Hoje, depois da OMC, isso é impossível.

Diante do fracasso da política industrial e do baixo crescimento causado pela sobreapreciação cambial de longo prazo existente no Brasil, a burguesia rentista e seus economistas liberais buscaram cooptar para sua causa os empresários, embora seus interesses sejam conflitantes, enquanto a presidente mostra dificuldade em fazer com eles o pacto desenvolvimentista.

Estamos diante de uma queda de braço em torno do empresariado industrial. De um lado, a presidente e o governo como um todo buscam seu apoio; de outro, o sistema financeiro-rentista busca falar em seu nome, como se não existisse conflito entre empresários e rentistas.

Enquanto o governo busca retomar o desenvolvimento, mas não tem suficiente apoio na sociedade para desvalorizar o câmbio, a coalizão financeiro-rentista está determinada a recuperar o nível alto da taxa de juros real –sempre seu objetivo maior.

Para isso, é necessária uma Selic alta e uma inflação baixa, esta associada a um câmbio valorizado. E já está tendo algum êxito. Sem uma política fiscal contracionista, o Banco Central voltou a aumentar os juros, enquanto, preocupado com a inflação, esforça-se para evitar a depreciação cambial determinada pela queda da oferta de dólares.

Como se resolverá esse conflito e esse impasse político? Poderá o governo conquistar o apoio dos empresários e neutralizar a poderosa coalizão liberal?

Isso só será possível se o governo lograr a retomada do desenvolvimento, mas nada indica que isso esteja à vista, porque não conseguiu tirar o país da armadilha rentista de juros altos e câmbio apreciado e, por isso, não logrou consolidar um pacto político desenvolvimentista.

Redação

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8 Comentários
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  1. Assis Ribeiro

    2 de dezembro de 2013 10:26 am

    Bresser desenhou o problemão do PT

    Aí está a prova que uma base de apoio como a existente serve para dar governabilidade dentro do que os poderosos liberais querem.

    O congresso não mudará esse viés protecionista.

    O rentismo aparentemente vencendo, como preconiza Bresser, não possibilitará que o governo avance no desenvolvimento.

  2. Marcelo Mendonça

    2 de dezembro de 2013 11:46 am

    O governo não tem discurso

    O governo não tem discurso atualmente, exceto das bandeiras sociais.

    Seu auge de popularidade foi quando bancou as desonerações (como a da conta de luz) e jogou a Selic no menor nível histórico.

    A classe média mais tradicional (que é bastante reacionária) se contenta com um discurso moralizador e inflação baixa. Também preza por um câmbio valorizado para baratear as viagens internacionais nas férias. Foram justamente esses ingredientes que deram à Dilma uma superpopularidade.

    No primeiro ano de governo, com a postura inflexível da presidente para com os envolvidos em casos de corrupção, a grande imprensa criou uma imagem dela de gerentona comprometida com a ética. Além disso, naquele período a inflação ainda não batia no teto da meta e o câmbio se encontrava muito apreciado. Esses fatores fizeram a popularidade da Dilma subirem aos céus, contando com a simpatia da classe média e o apoio herdado das classes C e D.

    Entretanto, a imprensa criou uma armadilha. Ao elevar a imagem da presidente a esse status, a própria imprensa guardou pra si o poder de derrubá-la. Quando o governo ganhou a queda de braço com o mercado ao reduzir a Selic e baixar a conta de luz, estava dado o sinal para começar a desconstrução da imagem da Dilma.

    Primeiro, cessaram-se as notícias de corrupção onde a Dilma era apresentada como intolerante com os corruptos. Em seu lugar, entrou o noticiário do mensalão. Segundo, uma enxurrada de notícias sobre o descontrole da inflação. Terceiro, reportagens mostrando o quanto ficou mais caro viajar pra Londres ou comprar Ipad por conta da subida do Real. Resultado: os filhos da classe média pegaram carona no embalo do Passe Livre eforam às ruas quebrar tudo e hostilizar a política.

    A imagem da presidente foi artificialmente criada e com isso pôde ser desconstruída no momento oportuno. O setor financeiro é o maior cliente da grande imprensa. Ao não visualizar essa armadilha, Dilma jogou no lixo todos os avanços primeiro mandato. Voltamos à estaca zero, onde os méritos são muito mais de continuidade do governo Lula, com as políticas sociais. A inovação da Dilma, com a política de desenvolvimento da indústria, foi bloqueada com eficiência.

    A esperança é que ela tenha compreendido melhor esse jogo para, quem sabe, se sair melhor em um eventual segundo round. A ver.

  3. Pedro Antunes

    2 de dezembro de 2013 1:26 pm

    O Bresser é economista de uma nota só

     

    O Bresser é economista de uma nota só. Para ele tudo se resume a apreciação cambial, que embora verdadeira não é o principal determinante dos nossos problemas. O nosso verdadeiro nó é a questão fiscal. Isso é verdade desde a época do malfadado plano Bresser, que fracassou rotundamente entre outras razões pela falta de um ajuste fiscal. Maior que o problema dos rentistas é o problema dos que mamam nas tetas do Estado, que sempre foram politicamente muito mais fortes que os rentistas e perpetuam seus benefícios impedindo uma reforma do Estado brasileiro que retire as amarras que impedem o desenvolvimento do país.

    A performance econômica do governo Dilma é tão medíocre que pode ser comparada ao período FHC. Todos os analistas econômicos sérios e imparciais projetam a necessidade de um ajuste forte nos próximos 18 meses. A questão é se o mercado vai forçar o ajuste no ano que vem, cenário em que a reeleição de Dilma correrá risco, ou se Dilma reeleita fará ela o ajuste para tentar  salvar o segundo mandato. Abaixo as principais inconsistências macroeconômicas que a meu ver autorizam esse tipo de análise:

    1) O atual quadro fiscal é séríssimo e de difícil reversão. Nos níveis atuais de endividamento, taxa de juros e superávit primário, a dívida líquida do setor público volta a crescer rápido e a dívida bruta explode. O mais grave é que entre os políticos não existe o menor consenso de que o quadro precisa ser revertido logo;

    2) A inflação represada já é grande, principalmente nos preços administrados. A pressão da questão fiscal vai forçar o reajuste desses preços de forma que a inflação vai continuar rondando o teto da meta mesmo com o BC elevando os juros;

    3) Os bancos públicos expandiram demais o seu balanço desde 2008 e em tal cenário deveriam reter lucros para aumentar a base de capital e fazer frente a um aumento de inadimplência que em algum momento virá. Ocorre que o Tesouro, pressionado pela questão fiscal, força esses bancos a fazerem polpudas distribuições de dividendos para aumentar artificialmente o superávit primário. Particularmente preocupante é a situação da Caixa devido ao crescimento artificial nos preços dos ativos imobiliários por ela financiados. Quando essa bolha imobiliária estourar a Caixa quebra.  Assim sendo não dá para descartar uma crise bancária no momento em que a inadimplência crescer;

    4) Olhando o quadro do emprego percebe-se que o mercado de trabalho vem perdendo pujança desde 2010. Os dados de outubro último já mostram uma geração negativa de postos de trabalho no mês;

    5) Apesar do crescimento da carga tributária o governo não consegue aumentar sua contribuição para os investimentos na economia. Todo o aumento de carga tributária vai para o custeio do governo e o crescimento do investimento público é irrisório. Para agravar a situação ao aumentar impostos o governo reduz a poupança privada, o que vem fazendo com que a contribuição do setor privado para os investimentos também caia. Como sem poupança e investimento não pode haver crescimento sustentável do PIB, não chega a ser surpresa nossa sequência de PIBinhos;

    6) Nossa balança comercial virou e hoje já podemos falar em deficit estrutural mesmo com a desvalorização cambial dos últimos dois anos. O aumento da carga tributária, do custo do trabalho e os custos de logística fazem com que seja mais barato importar qualquer coisa que possa ser importada. No que não pode ser importado temos inflação anual de 9% ao ano;

    7) Nosso déficit em conta corrente, que também é estrutural pela falta de poupança interna, se aproxima perigosamente dos 4% do PIB. É só analisar a história econômica para verificar que quando se chega perto desse nível o mercado acaba forçando uma correção, as vezes abrupta;

    8) Nossa produtividade do trabalho está estagnada já faz anos. Isso acontece por falta de investimentos e também por deficiência crônica na formação de capital humano. Sem crescimento da produtividade do trabalho já não há mais como crescer o PIB de forma sustentada;

    9) O FED americano vai acabar com o QE e subir juros nos próximos 18 meses.

    O mais problemático é que todos esses problemas se realimentam. Se tivessemos apenas duas ou três inconsistências até dava pra ir empurrando com a barriga. Mas com tanta coisa junto na hora que o vento no mercado mudar vamos ter um vendaval.

    1. Lionel Rupaud

      2 de dezembro de 2013 3:28 pm

      Como análise dos anos FHC…

      é um trabalho muito bom.

      Agora sobre nossa situação atual, é um CTR-C/CTR-V dos tucanos e dos economistas de bancos de investimento e hedge funds, o que no fundo é a mesma coisa.

      Se comparamos os gráficos de todos as variáveis macro-econômicas nos 2 períodos 1995-2002 e 2003-2013, os argumentos apresentados não se sustentam.

      Mas O.K. faz parte do trabalho da oposição e dos hedge funds de criar panico, pois é com este panico que eles ganham $$$ (ou eleições o que é a mesma coisa não sr’s do psdb paulista!).

    2. DanielQuireza

      2 de dezembro de 2013 5:18 pm

      Concordo com o 2, o 7 e o

      Concordo com o 2, o 7 e o 8.

      O 9, não temos ingerencia, e ninguem sabe exatamente se e quando acontecerá. Não dá para ficar querendo prever futuro.

      Os demais, creio que esteja exagerando, principalmente na questão das dívidas, a situação brasileira, apesar de ter piorado um pouco, é relativamente muito tranquila.

  4. Juliano Santos

    2 de dezembro de 2013 2:05 pm

    Nassif, esse texto é muito

    Nassif, esse texto é muito esclarecedor sobre quando uma crítica poder ser consistente e bem intencionada, diferente da dos porta-vozes do capital rentista no pig, empenhados em fazer terrorismo economico, puro e simples.

    Parabéns, Bresser

  5. Cunha

    2 de dezembro de 2013 10:00 pm

    Gostaria que alguém

    Gostaria que alguém explicasse os benefícios do plano Bresser e consequentemente a competência dele para fazer análises corretas.

    Não pergunto por picardia, pergunto para aprender, sou ignorante em economia.

  6. Doney

    3 de dezembro de 2013 12:31 pm

    A história se repete

    Esta questão de se fazer desonerações pontuais nunca deram em nada. Basta ver os EUA, que tanto fizeram este tipo de operações durante o mandato Greenspan e o que colheram foi só um déficit enorme em suas contas – o prometido crescimento econômico nunca veio.

    Qualquer política de alguém que se diga de esquerda pressupõe o auxílio direto a população. Esta, aumentando seu poder de compra, impactará positivamente na economia como um todo. A da direita, pressupõe o auxílio ao capital (bancos, empresas, etc.). Estes, crescendo, impactariam positivamente a população.

    Se o Brasil esta melhor do que vários países do mundo, foi porque (sem uma visão de esquerda na mente, mas apenas com uma sensibilidade social mais aflorada), o presidente Lula impementou o bolsa-família e os aumentos significativos do salário mínimo.

    A prova fidagal de que o auxílio direto a população é mais produtivo é esta, enquanto outros países se afundam, o Brasil vive hoje um regime de quase pleno emrego. O contrário já não ocorre. Estas desonerações pontuais só fizeram enriquecer os já abastados. Em outros termos, acentuar nossa já escandalosa desigualdade social. 

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