4 de junho de 2026

Tecnologia desenvolvida em Manaus permite interação de pessoas com paralisia total

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Manaus (AM) – Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da FPF Tech (Fundação Paulo Feitoza), em Manaus, pode auxiliar pessoas que sofrem com deficiências locomotoras graves, como pacientes afetados pela ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica). O ActiveIris é uma suíte de acessibilidade que, por meio de uma webcam comum, capta o movimento dos olhos do usuário para integrar diversas funcionalidades, como acesso a redes sociais, celular e navegação na internet, além de permitir comandos para ativar eletroeletrônicos dentro de casa, como televisão, ventiladores e ar-condicionado.

A FPF Tech está apresentando o sistema na sétima edição da Fiam (Feira Internacional da Amazônia), evento realizado pela Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus). O gerente de projetos da fundação, Alexandre Amorim, explica que o sistema é, na verdade, um aperfeiçoamento de um projeto mais antigo, conhecido como Mouse Ocular. Desenvolvido a partir de 1998, pouco depois da criação da FPF, o dispositivo utilizava o mesmo princípio de agora – a captação do movimento dos olhos –, mas limitava-se a movimentar o cursor do mouse e a clicar nos ícones de acordo com as piscadas do usuário.

Na época, o projeto gerou grande repercussão e reconhecimento pela inovação e pela acessibilidade que garantia aos pacientes. Com o passar do tempo, o projeto foi agregando mais funcionalidades até chegar ao que os pesquisadores chamam atualmente de ActiveIris, que explora um segmento conhecido como TA (Tecnologia Assistiva) . O sistema ganhou uma plataforma unificada – chamada de suíte – que pode ser usada facilmente mesmo até por pessoas sem conhecimentos em informática. Na pŕática, é como se fosse um pequeno centro de comando dos principais eletrônicos existentes no ambiente e de recursos interativos, como redes sociais e navegação na web.

Como funciona

A webcam acoplada à suíte capta o movimento dos olhos para movimentar o cursor e o clique do usuário é realizado a partir das piscadas. O rastreamento dos olhos, segundo os pesquisadores, é “robusto, preciso e não intrusivo”. O ActiveIris é considerado não intrusivo por dispensar o contato físico – como havia no modelo inicial do Mouse Ocular, com a necessidade de utilização de eletrodos conectados ao rosto dos usuários, tornando a tecnologia atual mais natural e simples de usar.

A não intrusão da tecnologia desenvolvida em Manaus ainda vai além: ao contrário de outros dispositivos similares existentes, o ActiveIris dispensa a necessidade de um emissor de luz IR (infravermelho) e os equipamentos para fixação da câmera, como capacetes. O método de rastreamento ocular desenvolvido pela FPF Tech utiliza uma webcam comum, de baixo custo, não necessita de iluminação IR e permite um movimento livre da cabeça, já que a câmera não necessita estar acoplada a uma base fixa.

A dispensa do IR tem outro bom motivo: em geral os equipamentos criados para possibilitar interação de pessoas com deficiência – chamados, na sigla em inglês, de Eletronic Aids for Daily Living (EADLs) – têm problemas de funcionamento e comunicação porque os sinais de infravermelho são facilmente bloqueados por obstáculos do próprio ambiente. Outras tecnologias utilizam a rádiofrequência (RF) como alternativa. A fundação também driblou o uso de RF pelo alto consumo de energia, o que inviabilizaria o projeto, que tem o baixo consumo como um dos pontos-chave.

Os pesquisadores, então, adotaram o formato ZigBee – um padrão Open Systems Interconnection (OSI), que define um protocolo de comunicação de uma rede sem fio “com baixa taxa de transferência, baixo consumo e curto alcance”, segundo explica um artigo científico publicado pela instituição e conforme contou, em entrevista ao Jornal GGN,  Pâmela Levy, que faz parte da equipe de desenvolvedores do projeto ActiveIris.

Testes

Os pesquisadores da FPF Tech fizeram diferentes testes para avaliar o desempenho e a funcionalidade da tecnologia de acordo com o uso. Um deles foi a interatividade com redes sociais e utilização do teclado virtual. Para isso, foram realizados testes de usabilidade sem o uso das mãos. Oito voluntários participaram do experimento, divididos em três níveis de experiência (iniciante, intermediário e avançado) no uso de teclados virtuais. Cada usuário foi submetido a um questionário de avaliação ao fim de cada teste.

Em um dos testes, o usuário tinha de realizar uma mesma atividade no Facebook (curtir e comentar postagens) em duas plataformas: no navegador de internet e na suíte do ActiveIris. Cada ação foi cronometrada. Os resultados mostraram que 75% dos usuários se sentiram mais confortáveis ao utilizar o Facebook pela suíte. “Todos os usuários afirmaram que a maior dificuldade encontrada foi efetuar o posicionamento do cursor sobre o link “Curtir” no navegador. Por outro lado, o tamanho dos botões e das áreas clicáveis na interface do ActiveIris facilitou a tarefa”, afirma artigo sobre a tecnologia.

Em comparações com outras plataformas de Tecnologia Assistiva, os pesquisadores chegaram à conclusão que a ActiveIris mostrou-se não intrusiva e de baixo custo. Outra vantagem é a flexibilidade: de tão versátil, a suíte pode ser facilmente usada por pessoas que não possuem problemas de limitação física severa, mas que apresentam algum nível de problema de comunicação e que têm dificuldades em utilizar mouse e teclado comuns.

Melhorias para o amanhã

Apesar dos resultados, os desenvolvedores ainda não estão satisfeitos. Já há planos de acrescentar mais recursos à suíte, como o duplo clique e uso do botão direito do mouse, a função “clicar e arrastar”, implementar outros tipos de teclados virtuais (exemplo: o teclado por varredura, muito utilizado para pessoas que possuem movimento limitado dos olhos) e até mesmo permitir que o ActiveIris possa monitorar os sinais biológicos dos usuários para auxiliar no acompanhamento médico.

Além disso, estão previstas a criação e inserção de ferramentas voltadas para o público infantil e a possibilidade de consultas de informações por meio do próprio dispositivo – como níveis de bateria dos módulos da suíte do equipamento e nível de potência do sinal recebido para orientar a a melhor localização dos módulos de controle, evitando a perda de pacotes de comunicação, o que comprometeria a usabilidade do equipamento. Além disso, o dispositivo será capaz de avaliar as condições do ambiente onde está situado para identificar uma melhor condição de conforto térmico do usuário e autoconfigurar o sistema de ar condicionado.

“Grande parte das soluções de TA não são adaptadas à realidade do nosso país, pois, além do alto custo associado à importação e ao preço do produto, estes aplicativos não possuem suporte à língua portuguesa. Este trabalho propõe a Suíte de Acessibilidade ActiveIris, cujo principal objetivo é proporcionar às pessoas com os mais diversos graus de limitação física nos membros superiores um meio de acesso ao computador através do movimento dos olhos, porém de maneira não intrusiva, fácil utilização e, principalmente, baixo custo”, finaliza artigo sobre o projeto.

O repórter Mário Bentes viajou a convite da Suframa.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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