Do diariodonordeste.com.br
Levi de Freitas
Reportagem especial mostra que políticas públicas fragilizadas dificultam ação mais efetiva para reduzir o problema
Não é preciso ir muito longe. Nas praças, nas calçadas, pedindo dinheiro nos sinais ou dormindo embaixo de alguma árvore. É esse o dia a dia de cerca de 4500 pessoasque, enquanto moradores de rua, são invisíveis para muitos, e amedrontam grande parte da população, que teme os impactos da violência urbana. O cenário se mostra ainda mais preocupante quando se conhece a realidade das casas de acolhimento na Capital, que suportam apenas 70 pessoas por dia. Os números são da Secretaria de Trabalho, Desenvolvimento Social e Combate à Fome (Setra), órgão da Prefeitura de Fortaleza.
Para atender à demanda da população de rua da Capital, a cidade conta apenas com um Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) e uma casa de passagem. Ambos, funcionando somente em horário comercial, são insuficientes para suprir as necessidades de quem não tem um lar. Cálculos mostram, no entanto, que para atender a toda a população de rua estimada em Fortaleza, seriam necessários 64 Centros Pop.
“O problema pra gente é a noite. Fecha o Centro Pop, a gente tem que voltar pra rua. E no fim de semana, não tem banheiro nem nada”, reclamou um morador atendido pelo Centro de Referência, durante visita da reportagem à casa, no Centro da cidade.
De acordo com o secretário titular da Setra, Cláudio Ricardo, há um grave problema na oferta de condições de atendimento para a população de rua. “A demanda tem crescido pelo próprioaumento populacional, a droga, os rompimentos com os vínculos familiares, odesemprego. E com isso, eles acabam caindo na rua, que é o fundo do poço“, afirma Cláudio.
A estimativa do titular da Setra é de cerca de 4500 pessoas nas ruas da Capital, diante de um equipamento que atende apenas cerca de 70 por dia. “Os abrigos são insuficientes, mas estamos tentando ampliar”, afirma, confessando que há uma expectativa positiva, pelo menos, até 2014. “Estamos em processo de reabertura do abrigo noturno, até o fim do ano, pelo menos”, garantiu.
De acordo com a Setra, o perfil de maior incidência na população de rua é o de homens com idade entre 26 e 35 anos, ensino fundamental incompleto, com origem de Fortaleza, com vínculo familiar fragilizado ou rompido, e que não desenvolve nenhum tipo de trabalho/renda. Além disso, as drogas, principalmente o crack, fazem parte do dia a dia de grande parte deles.
Secretaria conhece reclamações, admite dificuldades e afirma que burocracia é maior entrave

Embora os moradores de rua sejam carentes de serviços urgentes, a dificuldade maior na contenção dos problemas relativos à ausência de políticas públicas para a população de rua está na burocracia. A afirmação é do próprio secretário Cláudio Ricardo, que garante buscar dialogar com entidades filantrópicas para tentar minimizar os problemas dos moradores de rua. “Estamos procurando um lugar para mais um abrigo, mas dependemos dos aspectos burocráticos, como avaliação e adequação do imóvel, além de encontrar o espaço físico. Estamos em diálogo com entidades, como a Pastoral da Rua”, afirmou. “É um problema de abordagem complexa, mas é um problema de todo mundo”, sintetizou o secretário.
Promessa é de um novo Centro Pop e de restaurante e banheiros públicos. FOTO: JOSÉ LEOMAR
A Setra também aguarda pela promessa da Prefeitura de Fortaleza da instalação de banheiros erestaurantes populares. O secretário confia em uma parceria envolvendo a pasta e as regionais da Capital. “As principais reclamações dos moradores de rua é a falta de banheiros e de alimentos nos fins de semana e feriados. Estamos estruturando uma política de segurança alimentar. Vamos instalar cozinhas populares e um banco de alimentos. A meta da Prefeitura é construir um restaurante popular por regional. Sobre os banheiros, discutiremos com as regionais a possibilidade de instalação. Vamos agendar uma reunião para discutir”, garantiu o secretário da Setra, Cláudio Ricardo, embora não tenha tratado de prazos.
Arte: Felipe Belarmino
Setra busca reintegrar moradores de rua
Um dos maiores desafios para as pessoas que vivem em situação de rua é a reintegração social. Sair “do fundo do poço” descrito pelo secretário e retomar uma vida produtiva, com trabalho, salário, contas pagas, necessita de um acompanhamento. A secretaria garante que conhece as dificuldades e trabalha na intermediação entre as duas condições de vida.
A secretaria auxilia no contato com o Site Nacional de Empregos (Sine). Além disso, afirma Cláudio Ricardo, busca estruturar junto com a Prefeitura uma nova política que amenize o sofrimento da fome. “Trabalhamos na intermediação da mão de obra, casando qualificação com inserção no mercado de trabalho através do Sine”, disse.
E neste meio-campo, entra o Centro Pop, único equipamento oficial do governo para atender aos moradores de rua. O casal Eliane Evangelista, de 43 anos, e Carlos Maurício, 34, creditam ao Centro Pop a responsabilidade de terem hoje onde morar com os filhos. “Somos muito gratos ao Centro Pop. Eles nos procuraram na abordagem na Praça e explicaram as coisas como funcionam. Nos encaminharam para o aluguel social e nos ajudaram a conseguir nossa casa peloMinha Casa Minha Vida“, afirmou Eliane.
Vereador propõe criação de albergue em Fortaleza
O vereador Adelmo Martins (PR) sugeriu à Câmara Municipal de Fortaleza (CMF), por meio do projeto de indicação de nº 119/2013, a criação do Albergue Municipal para o acolhimento de moradores de rua de Fortaleza. Tal objeto, segundo o secretário Cláudio Ricardo, seria “Muito bem vindo”, ao sanar um dos problemas atuais, que é a ausência de um abrigo noturno para os moradores de rua da Capital.
“O Albergue, além da acolhida, procurará ressocialização através de uma parceria pública-privada como a recuperação de documentos, cursos profissionalizantes e encaminhamento para empregos e promover a inclusão social”, explica o parlamentar em sua justificativa.
De acordo com o vereador, a violência da cidade, se ou quando oriunda de algum morador de rua, é na realidade produto do meio ao qual estão inseridos. “A violência a que estão submetidos os torna violentos, agressivos. É papel de todos, não só da Prefeitura, ter preocupação com eles”, opinou.
Casa de Passagem
A Casa de Passagem Elisabete de Almeida Lopes faz parte da Política de Assistência Social na cidade, coordenada pela Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), através da Coordenação de Proteção Social Especial.
Oferece acolhimento temporário, seguro e com privacidade para adultos ou grupos de família que tenham seus direitos violados e estejam em situação de risco social.
Para acessar o serviço, é preciso procurar um dos três Creas Municipais (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) e solicitar atendimento.
A casa fica na Avenida da Universidade, 1885, no bairro Benfica.
Pesquisa mais recente é de 2008
O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) realizou uma pesquisa em 2008 e estipulou a quantidade de 31.922 adultos vivendo em situação de rua em 71 municípiosdo Brasil.
O estudo foi conduzido entre agosto de 2007 e março de 2008 e considerou 48 municípios com mais de 300 mil habitantes e 23 capitais, excetuando Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e São Paulo.
Na pesquisa, foram identificadas pessoas vivendo em calçadas, praças, rodovias, parques, viadutos, postos de gasolina, praias, barcos, túneis, depósitos e prédios abandonados, becos, lixões, ferro-velho ou pernoitando em instituições (albergues, abrigos, casas de passagem e de apoio e igrejas).
O próprio MDS admite que, por conta do recorte feito para a pesquisa, o número de pessoas em situação de rua “é mais elevado” que o apresentado no estudo.
Deixe um comentário