
Simplício se viu confuso sobre o tema dos impostos, e quis tirar a prova dos nove definitivamente numa entrevista franca com o professor Galileu que lhe parecia muito vacilante entre os prós e os contras. Com atrevimento próprio da idade, cometeu a suprema ousadia de segurar a linha da pipa içada na Praia do Flamengo, puxá-la delicadamente até a areia, segurá-la a uma distância segura do professor Galileu para evitar que a empinasse num novo vôo, e disparou cara a cara:
— Afinal, deve-se ou não pagar o tributo a César, isto é, ao Estado? — inquiriu.
— Há mais de dois mil anos sabemos que se deve dar ao Estado o tributo que cabe ao Estado — afirmou Galileu, quase perdendo a paciência por ter que voltar a um assunto que lhe parecia vencido. — A Fiesp e a Federação do Comércio ainda não aprenderam isso, tendo arrastado algumas dezenas de entidades e consultorias para uma campanha contra os impostos inventada pelo economista Paulo Rabelo de Castro, que deve estar recebendo um bom tributo para comandar o circo.
— O que essa campanha pretende objetivamente?
— Quer pegar carona nas manifestações dos estudantes e recolher um milhão de assinaturas contra os impostos. Espero que nenhum estudante cometa essa besteira…
— O que acontece se os tributos forem rebaixados?
— Os serviços públicos também serão, explicou Galileu, citando o exemplo dos Estados Unidos, cujos impostos e serviços estão sendo espremidos pelo Partido Republicano.
— Mas a redução dos impostos não melhora a competitividade das empresas?
— A melhoria das estradas e dos portos, o investimento em educação e na saúde do trabalhador também melhoram a produtividade das empresas. Gostaria de ver a Fiesp caindo em campo para promover esse tipo de investimento e falar menos em imposto.
— Mas a Fiesp e a Federação do Comércio de São Paulo dizem que querem o bem do povo com a redução da tributação.
— Claro que dizem isso. Elas não só falam pelo povo, mas como sendo o povo. Deveriam ser metidas na cadeia por falsa identidade. São elite e querem um povo domesticado. Esquecem que o serviço público é o principal bem que o povo recebe do Estado.
— Mas o povo paga tributo — voltou Simplício, encharcado da literatura fiespiana.
— Paga menos do que recebe em serviços. Quem deve pagar mais do que recebe é o pessoal da Fiesp e da Federação do Comércio, quando não sonega. Devem pagar mais porque têm o privilégio de fazer fortunas num país organizado pelo Estado, e que coloca a sua disposição gente para ser explorada, infraestrutura, energia elétrica, portos e até um serviço de controle aéreo de rotas de jatinhos e helicópteros nas grandes metrópoles. Tudo isso o Estado dá para os ricos, e ainda assim eles não querem pagar impostos. É demais. Se fosse em outros tempos, eu sairia em campo pregando uma revolução contra os ricos, encerrou Galileu.
Simplício se deu por satisfeito na questão dos impostos. E achou que deveria ter um descanso em João Pessoa, junto a Angeline, para compensar o stress dos últimos dias. Mas para fechar o tema, escreveu na agenda vermelha: “Agora compreendo porque a tal da CPMF, para financiar a saúde, não passou no Congresso anos atrás!”
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