Sugestão de Nilva de Souza
De O Globo
Estaríamos fadados, para lutar contra a biografia chapa marrom, a viver sob o signo do silêncio?
José Miguel Wisnik
Não é segredo, embora invisível de tão óbvio, que as matérias culturais na imprensa brasileira passaram a se pautar predominantemente, desde um tempo que talvez possa ser datado como o das duas últimas décadas, pelos itens vendagem, comportamento, moda e polêmica de superfície. A mercantilização da cultura é muito mais antiga, está longe de ser só brasileira, mas passou a ser ostensiva e causou um estrago considerável nesse país pouco letrado na média, onde os problemas são medidos com mão pesada na balança de um prato só. Por isso também o imbróglio das biografias é um pacote tão difícil de desembrulhar, e as questões aparentes não são necessariamente as que estão em questão.
Para ir diretamente ao ponto mais invocado da discórdia, sou da opinião de que a produção de biografias não deve ser regulada por um dispositivo de autorização pessoal do biografado ou sua família, como acontece atualmente. Este pode servir tanto para impedir infâmias quanto para travar o processo de conhecimento envolvido no gênero biográfico, e submetê-lo ao arbítrio pessoal dos diretamente implicados. Nada garante, em princípio, que esse arbítrio seja mais justo que o do biógrafo. A figura pública, enquanto pública, passa a fazer parte de uma narrativa coletiva que produzirá versões sobre ela, como sobre sua obra, e a circulação de biografias interessa à cultura, que não deixa de ser uma guerra de versões civilizada — quando o é. O sujeito que se tornou publicamente autor de sua vida torna-se, ao mesmo tempo, e quase na mesma medida, personagem dos outros. O quadro se complica no já citado panorama pautado pelos itens comportamento, moda, polêmica de superfície e vendagem, que afetam as duas partes, biógrafos e biografados, num mundo em que um imaginário individualista fez o gênero biográfico saltar para um plano de destaque no mercado editorial.
Na falta do dispositivo pessoal e prévio de controle da produção de biografias, tem que haver outros. A liberdade é, sim, a consciência do limite. Chico Buarque tocou num problema crucial, ao se perguntar sobre quem responsabiliza o irresponsável que atribui a alguém palavras que ele não disse, entrevistas que ele não deu, que chancelou fontes que não têm crédito e fez tudo isso verossímil. Para aumentar a novela, o exemplo que ele deu foi contestado em parte, numa demonstração em ato das disparidades entre os fatos e as versões, ao mesmo tempo em que ele tem razão no que diz sobre o jornal “Última Hora” (fui colunista em 1975, e sei bem que o jornal de 1974 era radicalmente diferente do de 1970). Independente desse caso concreto, há graus e graus entre a calúnia mais vil e a tendenciosidade incompetente. A primeira é passível de julgamento formal, embora o funcionamento jurídico brasileiro não tenha nem a contundência nem a agilidade correspondentes a essa ordem mercurial dos acontecimentos. A tendenciosidade incompetente teria que passar, por sua vez, pela regulação do próprio sistema cultural, pela sintonia crítica que deveria ser capaz de identificá-la. Algo que se tornou difícil num contexto marcado — volto ao meu refrão — por comportamento, vendagem, polêmica de superfície e moda.
Chegamos finalmente ao tema da privacidade inviolável. Ele oscila entre ser tratado no plano genérico de um princípio ideal ou no plano excessivamente defensivo do tabu (a palavra inviolável, várias vezes invocada, sugere um fechamento hermético que não é da ordem da porosidade real entre a vida pública e a vida privada, especialmente no Brasil, avassalada, é verdade, pela realidade obscena que quer devassar tudo). Ele é certamente o ponto gritante da guerra entre a liberdade de expressão confundida com liberdade de mercado (ponha nisso, para não perder o costume, polêmica de superfície, vendagem, moda e comportamento) e direito à intimidade (essa instância preciosa da vida e cada vez mais rara para todos).
Mas, se procurarmos saber, não vamos acabar achando que a novela em cartaz não está muito referida e subordinada ao segredo do Rei? O Rei sofre de uma amputação que não deve ser nomeada, como a proferição de um vazio insuportável. O silêncio público sobre a falta de que sofre o Rei é um daqueles segredos que todos conhecem. Os súditos do Rei parecem acolher o segredo do Rei, e isso faz parte do pacto íntimo que ele faz com o seu público. O Rei acha que a biografia estragaria tudo, embora o público o amasse ainda mais se ele desse a revelar o segredo que todos sabem. É doloroso, mas é a vida. O Imperador do Quinto Império da Bossa Nova, fechado em seu castelo vertiginoso e desértico, também não autoriza o livro que o consagra. Estaríamos fadados, para lutar contra a biografia chapa marrom, a viver sob o signo do silêncio imposto dos maiores, caucionado pela mais luminosa corte e coorte de músicos que esse país produziu?
Maria Fulô
20 de outubro de 2013 10:18 amContinuo achando esta
Continuo achando esta polêmica inteiramente equivocada… Biografia é ficção, seja autorizada ou não. Querem um bom exemplo? As biografias de Monteiro Lobato. O que existe – tanto quanto eu sei – são as autorizadas e oficiais que o dão na conta de um velhinho nacionalista, líder na implantação da Petrobrás e que amava as criancinhas em seu Sítio do Pica-pau Amarelo. É só isso? Alguma delas dá conta de quem ele realmente era e de suas idéias sobre eugenia? Um racista declarado que, por escrito, em cartas enviadas dos USA onde morou por alguns anos, afirmava que o Brasil necessitava de uma KLU KLUX KLAN para não deixar que a raça negra estragasse de vez o brasileiro? É claro que tanto para o cânone literário brasileiro como para a(s) editora(s) que detém suas obras, mencionar essas coisas é entrar na “vida privada” de alguém que não pode, em hipótese alguma, influenciar na interpretação dos (magníficos) textos que ele nos deixou particularmente os infantis (claro, “O Presidente Negro”, dentro desta ótica, seria um livro apenas pré-monitório…). Em outras palavras, seria como se o livro escrito por Hitler, Mein Kampf, tivesse sua leitura recomendada apenas pelo que está escrito sem levar-se em conta quem o escreveu. Obviamente não estou, nem de longe, tentato comparar Monteiro Lobato à Hitler; mas biografias, de quem quer que seja, não podem ter a aprovação prévia e obrigatória do biografado. Ela só interessa à presevação da mentira, da estória e não da história, pois biografias oficiais e autorizadas tem apenas um inconveniente, ou seja, o que não é dito que, como bem sabemos, sempre assumem o dito pelo não dito.
Sergio Saraiva
20 de outubro de 2013 2:12 pmTentando concordar.
Prezada Maria Fulô, toda obra humana carrega em si a ficção.
Pelo simples fato que nenhum ser humano aprrende a realidade em sua totalidade. O que chamamos de verdade é a nossa verdade. a verdade em que acreditamos. Quanto mais essa verdade for apoiada em dados factuais tanto melhor. Menos auto-engano. Mas como apoiar em dados factuais casos onde os sentimentos pessoais é que são a tônica do acontecimento?
Mesmo os livros história, baseados em fatos são em parte ficção. Se não nos fatos que descrevem, pela interpretação e valoração desses fatos.
Atér aqui somos concordância.
Vamos agora a Monteiro Lobato, em que suas biografias “chapas-branca” que você tanto abomina, que o descreveriam como um herói das letras infantis, impediu você de saber que ele era racista e eugenista em em uma época em que o mundo ocidental e boa parte de sua intelectualidade era racista e eugenista?
Há outras fontes de informação que as biografias.
Se você escrevesse uma biografia “chapa-preta” desancando Monteiro Lobato por racista e eugenista seria mais verdadeira do que as “chapas brancas”, ou traria sua carga de ficção também?
Realmente alguém precisa escrever uma biografia de Monterio Lobato. É uma personagem complexa e em movimento. Vai do jovem janota citadino, racista, eugenista e preconceituoso ( vide seu Jeca Tatu) ao homem maduro, falido e que no fim da vida flertava com o partido comunista.
É a narrativa dessa tragetória e sua contextualização em relação aos momentos vividos que faz importante as biografias ao permitirem que um ser humano aprenda com a tragetória de vida de outro ser humano. Que permite que um homem comum a predenda com a tragetória de vida de um outro homem, porém, esse incomum a ponto de ser biografado.
Por fim, podemos concordar ou não com o biófrafo ou com o biografado ou com ambos. Isso sempre nos tornará mais rico.
É essa riqueza que está nos sendo negada quando nos negam as biografias não autorizadas.
autonomo
20 de outubro de 2013 3:19 pmSo o humor ajuda resolver.
So o humor ajuda resolver. quando se fala de assunto tão serio, apesar do senhor Saraiva achar que não, pois, segundo ele,em comentario acima, se a lei for bem escrita so os “artistas” se ferram.
Uns falam em “bigrafias chapas brancas”.
O seu Saraiva ja menciona as “chapas pretas”.
O Ze Simão afirma que se interessa pelas biografias “chapas quentes”, “com bastante sexo, drogas, traições”.
Sergio Saraiva
20 de outubro de 2013 6:22 pmI can´t get no satisfaction
A dos Rolling Stones seria uma “chapa quente” do tipo “com bastante sexo, drogas e rock n’ roll”. Dentro dela, o capítulo dedicado a Keith Richards seria do tipo “chapa-chapada”.
Maria Fulô
20 de outubro de 2013 3:56 pmPrezado Professor SS (nenhuma
Prezado Professor SS (nenhuma alusão à polícia hitleriana… rsrs…), falou… falou… falou… e no final, apenas concordou apesar da prosa “vaselinada” tentando suavizar os deslizes imperdoáveis cometidos por Monteiro Lobato que muito pouca gente conhece. Mas, claro… e que fique claro… verdade é algo que não existe; mas por interesses que conhecemos bem quais são, sempre fica a sensação de que biografias autorizadas são mais confiáveis do que as não autorizadas. O que é uma tremenda bobagem… Salute!
Sergio Saraiva
20 de outubro de 2013 6:11 pmNão vou enquadra-la na Lei de Proust.
Ex-professor. De química.
Ah, quantas saudades, eu era feliz e sabia.Pena que não ganhasse para comer.
Fique a vontade para brincar com as inicias do meu nome, outros brincam com elas também e com a analogia ao personagem “seo Saraiva”, de quem, você ja deve ter percebido, tenho em comum a característica de possuir “tolerância zero”.
Quanto a Monteiro Lobato, ele é uma persona muito interessante. Já era um janota quanto frequentava a garçoniere de Oswald de Andrade. Esse, um homem sem profissão, sob as ordens de mamãe. Comunista que vivia de rendas.
Monteiro Lobato queria ensinar lições aos homens do campo, a quem tratava por inferores, e faliu tentando tocar uma propriedade rural que recebeu de herança. Faliu em todos seus outros empreendimentos empresariais. Acabou com seu nome associado ao nacionalismo, à campanha do petróleo é nosso e à literatura infantil. Era eugenista, não sei se racista no sentido que temos hoje de racismo. Talvez racista do mesmo tipo de racismo que de Euclides da Cunha e seu “mulato neurastênico do litoral”. Terminou a vida, como eu disse, flertando com o partido comunista.
Alguém assim merece uma biografia não autorizada. Creio que seguindo a vida desse homem e suas contradições poderíamos aprender muito do que era a elite pensante do Brasil na primeira metade do século XX.
autonomo
20 de outubro de 2013 12:01 pmA sociedade brasileira passa
A sociedade brasileira passa por um momento grave.
Esta sendo levada a tomar uma decisão que trará serias implicações para todos.
Não se trata, como esta sendo mostrado, de saciar ou não a curiosidade de alguns quanto ao “segredo” do “Rei”.
Vai muito alem.
Não se restringe apenas a lucrativa bisbilhotice da vida de personagens do show busines, alguns coroados ate com o titulo de “artista”, mesmo não passando de peões de uma industria, como outra qualquer.
Na verdade, grupos economicos editoriais aliados a inocentes curiosos da vida alheia estão lutando por uma causa que atinge a um direito fundamental de todo ser humano, isto é, a garantia a privacidade de suas vidas .
Não pensem os muitos que estão a favor da queda de mais esse direito individual que o prejuizo recaira apenas sobre os “artistas”.
Com o tempo essa grave quebra de valores atingira a todos, norteara os comportamentos sociais.
E triste sera o dia em que ninguem tera mais o direito a sua privacidade.
Ai sim sera o fim da liberdade humana.
O primeiro passo esta sendo dado.
Logo, logo caira tambem a inviolabilidade do lar.
Observo e posso estar enganado que o titular deste blog, Luis Nassif, se coloca a favor do fim desse direito.
É a sua escolha.
Contudo, tal posição não combina com a postura de alguem que foi ao presidente do Supremo Tribunal Federal lutar pelo volta do direito de resposta para os casos de calunias na midia.
Todos nos acabamos de perder o basico direito de resposta quando injuriados por um jornal.
Ate algum tempo atras, tinhamos a possibilidade legal de responder prontamente no mesmo espaço e tempo usado para a ofensa.
Agora temos que “recorrer a justiça”.
Se a justiça fosse rapida como um raio, uma difamação publica é algo profundamente doloroso e impossivel de ser totalmente reparavel.
Mesmo atraves da “grossa indenização” proposta por nosso Joaquim Barbosa.
So quem passou pela triste experiencia da injuria publica conhece o tamanho do estrago.
Com o tempo os apoiadores do direito a bisbilhotagem da vida alheia, perceberão que suas intimidades ficaram igualmente expostas, que o mundo virou um deserto de lares sem porta.
Sergio Saraiva
20 de outubro de 2013 2:28 pmNão corremos o risco de perder o que já não temos.
Prezado,
menos um tiquinho, por favor.
Entre a autoriazação de publicação de biografias não autorizadas e o fim do direito à privacidade, ou além, ao fim da inviolabilidade do domicílio, serem institucionalizados vai uma enorme distância.
Basta definir claramente ou com uma redação aceitável o que é figura pública de interesse jornalistico, histórico ou cultural, para as quais uma biografia não autorizada não seria considerada invasão de privacidade, e pronto, 99% da humanidade estaria ao abrigo de uma norma de proteção de seus dados e fatos pessoais.
Aliás, não consigo pensar em um só motivo pelo qual alguém se daria ao trabalho de biografar-me, com autorização ou não.
Além do que, não me parece que corramos o risco de vermos autoriazado que vasculhem nossa correspondência pessoal, nossas contas bancárias ou espeiem-nos pelas frestas de nossas janelas ou buracos de fechadura. Ainda que Obama já o faça, e não só ele, e nesses casos, não para serem nossos biógrafos.
L. André
20 de outubro de 2013 5:05 pmSQN
“Aliás, não consigo pensar em um só motivo pelo qual alguém se daria ao trabalho de biografar-me, com autorização ou não.”
Um bom motivo seria faze-lo apenas e tão somente para que possamos ver que quem acha “bonitinho” expor a vida “DOS OUTROS” reclamar que a vida da tua familia esta sendo exposta, quando divulgado segredos comprometedores…
Seria legal ver qual seria a vossa reação se algum vizinho (daqueles fofoqueiros) se dispusesse a fazer a tua biografia… Manterias a possição de agora???
Tem um ditado que diz que “o filho DOS OUTROS é que não presta…”
Sergio Saraiva
20 de outubro de 2013 5:33 pmA grama do vizinho é mais verde
L.André, minha vida é tão sem graça que faço declaração de renda pelo modelo simplificado.
Como algum vizinho iria encontrar de mim algum segredo comprometedor?
Só se ele fosse revelar a minha baixa capacidade de lidar com a crítica e com o controverso.
autonomo
20 de outubro de 2013 5:42 pmEu logo imaginei que a sua
Eu logo imaginei que a sua vida deveria mesmo ser “tão sem graça”, para voce se interessar tanto pela dos outros.
Sergio Saraiva
20 de outubro de 2013 6:52 pmOh my sweet love!
Estou apaixonado por você, quero te pedir em casamento.
Juntos sob o edredom, você me contará toda a sua vida.
Seremos tão felizes.
Alceste Pinheiro
20 de outubro de 2013 5:17 pmQuem é quem?
Só queria que me respondessem a uma ou duas perguntas simples: de quem é a vida: do bigrafado ou do biógrafo e das editoras? Quem é propietário da história? Quem traça seu intinerário? Quem elabora o argumento? Quem produz o roteiro? Quem decide o que vai ser contado sobre ela e de que maneira: o biografado ou o biografo e a editora? Aliás, permitam-me outra pergunta: as editoras jamais censuram?