5 de junho de 2026

Não existem novatos na Suprema Corte

publicado originalmente em 18/10/2013

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Durante a sessão do Supremo Tribunal Federal que decidia acerca do acolhimento ou não do recurso de embargos infringentes na AP 470, em dado momento da discussão, o ministro Marco Aurélio, num ato de pura afronta chamou o seu colega Ministro Luis Roberto Barroso de novato.

Pois bem.

O que vem a ser um novato.

Segundo o dicionário, novato é um aprendiz, um ingênuo,alguém recém admitido em uma corporação…

Assim, um novato no Supremo Tribunal Federal,  seria alguém que está aprendendo a decidir os grandes temas do direito perante um colegiado.

Entretanto, no caso, de pronto nos deparamos com uma impossibilidade.

Explico.

Como a tese que foi vencedora foi a de Luis Roberto Barroso, a situação posta,  mostraria  que o referido ministro não se enquadra no conceito, pois, em desacordo com os pressupostos para tanto.

Em contrapartida, poderia ser considerado que o Ministro Marco Aurélio Mello sim é que efetivamente é um novato, e, nesse caso, ao se verificar a trajetória das votações deste no referido tribunal, em que, quase que invariavelmente é vencido de forma acachapante nas votações, em princípio, não se estaria longe de uma possível verdade.

Mas, apesar disso, considero que nenhuma destas opções corresponde a realidade.

É que, não existem novatos no STF.

Ninguém que chegou a tal condição de Ministro do Supremo Tribunal Federal, se enquadra no termo, todos sabem a forma como são decididas as questões, tanto naquelas em que são adotados critérios eminentemente técnicos, quanto nas que o cunho político se faz prevalecer, ou, ainda, nas questões que envolvem temas que se prestam a que se digladie utilizando princípios humanísticos seculares, ou outras em que se esgrimem primorosas técnicas hermenêuticas para interpretar questões sociais de caráter eminentemente prático.

No entanto, admito, existiria outra possibilidade.

A única acepção adequada para a palavra novato, ocorreria no caso do Ministro Marco Aurélio Mello tentar explicar aos novos membros da Corte, que a decisão não era jurídica, mas sim política, e que a fundamentação a ser acolhida tangenciaria a de uma assembléia de bárbaros ou, em outros termos, a decisão a ser tomada devia ser “porque sim” e, após tal argumento irrefutável (pela força coercitiva da maioria), incontinenti, seria rejeitado o recurso.

Mas, pressupor-se que o Ministro  Luis Roberto Barroso não sabia disso, seria apelar para a ingenuidade do emissor, e, nesse quesito, Marco Aurélio, anda à léguas de distância.

Enfim, a única resposta é que Marco Aurélio Mello não esperava que alguém direcionasse a discussão para a área do direito, porque, ao fazer tal gesto, inevitavelmente humilharia, principalmente a ele Marco Aurélio e a Gilmar Mendes, não que este se importe, mas Marco Aurélio, depois de chamar a atenção de todo o Brasil para a sessão, não poderia suportar tamanha falta de tato.

Como alguém poderia cometer tal falta de delicadeza para com seus pares, desnudá-los frente ao Brasil, deixá-lo com cara de tacho, transformar seu ar de superioridade em mera expressão de pânico, similar a de um bichinho de estimação que restou perdido na mudança.

Nesse ponto, tenho que fazer uma pausa e, ainda que eu não mude de opinião, faço uma concessão, talvez,  e somente talvez,  o Ministro Marco Aurélio, realmente, quando colocado frente a tal situação, tenha imediatamente pensado num xingamento, mas num xingamento possível na Corte (local civilizado, ou melhor de discussões civilizadas, ou melhor…, deixa pra lá) e, desse exercício intelectual saiu-se com,  ao invés de um desaforo, com um desafio: disse simplesmente,  novato.

Talvez ninguém tenha notado na hora, mas era apenas uma reação a uma saia justa e, como todos sabem, o Marco Aurélio Mello não fica bem numa saia justa.

Hoje, com o passar do tempo e o distanciamento que tal fato traz para as discussões, tornando-as mais sóbrias, podemos afirmar, sem medo de erro, não existem novatos no Supremo Tribunal Federal,  mas, existe o Marco Aurélio Mello,  que numa outra oportunidade também, colocado sob pressão, já havia tido tal atitude e xingado, daquela vez todo o povo brasileiro, num tom mais pesado, quando respondeu que a ditadura foi um mal necessário.

Trata-se, portanto, de atitude recorrente.

Uma última consideração.

Definitivamente, Luis Roberto Barroso não agiu com a experiência da Corte (longe disso caracterizar uma pessoa como novato), mas agiu com a dignidade que nós (povo  brasileiro) merecíamos, fundamentalmente um juiz, e por isso, diametralmente oposto a um novato ou mesmo um bárbaro qualquer.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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19 Comentários
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  1. Luciano Prado

    27 de fevereiro de 2014 5:02 pm

    É o novo…

    Marco Aurélio Mello:  “Quero o meu velho Supremo de volta… buá  buá buá”.

  2. emerson57

    27 de fevereiro de 2014 5:09 pm

    comovente

    comovente o voto? ven-ci-do do brabosa.

    foi uma aula-magna de ….

    “jus esperneandi”

  3. RodrigoLD

    27 de fevereiro de 2014 5:23 pm

    LRB vs. JB ou como a Folha perdeu a noção do ridículo

    A fala mansa do constitucionalista e o corpo estremecido do carreirista ilustram bem o abismo existente entre um Barroso e um Barbosa.
    Sinto vergonha alheia quando a Folha chama um doutrinador consagrado de “novato”: que dê opinião no lugar de notícia é uma questão de qualidade e genuflexo, agora apagar o passado e as obras de um dos maiores constitucionalistas do Brasil… é coisa de néscio! Poderiam ter feito uma enquete com os estagiários do jurídico: você já ouviu falar nesse tal de Barroso na faculdade?

    1. Luciano Prado

      27 de fevereiro de 2014 6:27 pm

      O Barbosão é a lei, o herói da Globo

      Ouvi muito o Barbosão nos filmes “B” da TV Justiça com argumentos a base do “braço” e do “grito” que mais pareciam briga de rua.

      Tudo embasado no dieito (com minúscula) que ele imagina existir.

      Não difere muito de um ditardorzinho que pensa que pode editar suas próprias leis.

       

  4. Gardenal

    27 de fevereiro de 2014 5:25 pm

    O STF está precisando de mais

    O STF está precisando de mais “novatos” para subbstituir os “velhacos”.

  5. SILOÉ-RJ

    27 de fevereiro de 2014 5:32 pm

    VITÓRIA GLAMOUROSA

    VITÓRIA GLAMOUROSA!!!

    Pode beijar o ombro, ministro BARROSO.

    Instigar o JB a mostrar as víceras podres por baixo da toga, ainda mais sob HOLOFOTES…

    NÄO TEM PRECO!!!

     

     

     

     

     

     

     

  6. Gardenal

    27 de fevereiro de 2014 5:33 pm

    PLACAR DE HOJE:
    Novatos –  

    PLACAR DE HOJE:

    Novatos –   6X5  – Velhacos

    1. rmoraes

      27 de fevereiro de 2014 6:44 pm

      6×4

      Pois JB não vota.

  7. Gardenal

    27 de fevereiro de 2014 5:42 pm

    STF INFORMA O PLACAR DA

    STF INFORMA O PLACAR DA RODADA: 

    Novatos  6X5  Velhacos

  8. Klaus BF

    27 de fevereiro de 2014 6:18 pm

    Magistratura

    Esses cargos de ministros/desembargadores/procuradores do STF, STJ, TST, STM, MPF, TRF…..formam uma “casta”,isso mesmo, de intocáveis. A maioria se acha mais que nós simples mortais. Usam e abusam de seu poder em benefício próprio em detrimento da celeridade judicial. Todos servidores subordinados aos gabinetes destes devem estar à disposição incondicional deles. Marcam médico para familiares, corrigem provas, elaboram aulas, cuidam da vida particular dos “doutores” como babás. Por isso não resistem a uma câmera, holofotes, colunas sociais, capas de revistas e jornais. 

  9. rmoraes

    27 de fevereiro de 2014 6:42 pm

    Direito e Justiça de mãos dadas?

    Caríssimos L Nassif e amigos,

    A última fala de JB hoje levou-me a uma intrigante reflexão: parece que o magistrado não se move por razões ideológicas; parece que ele viu a oportunidade de  fazer do “mensalão” a obra de sua vida, apondo neste processo o melhor de si. Seu amor-próprio ficou ferido. Lamenta o resultado do embargo dos réus no que se refere à formação de quadrilha de um modo muito peculiar: na verdade faz um auto-elogio, dizendo que tudo havia sido muito bem fundamentado e que o TSF pôs todo o (seu) trabalho a perder. Por seu lado, a maioria do STF dá o sinal de que não aceitará mais sentenças baseadas na excessão. As porteiras estão abertas e JB et caterva devem temer profundamente uma reviravolta no andar da carruagem. A tranfiguração no semblante, os modos exaltados e a clara irritação e inconformidade do Ministro são um indício de que as coisas não vão bem para a Casa-Grande. Em sua fala, GM já antecipava a possibilidade de revisão no proc. 470. O tempo dirá….

    Abs generalizados.

  10. W K

    27 de fevereiro de 2014 6:44 pm

    Uma questão filosófica:

    quando o “novato” deixa de ser novato ? 

     

  11. Isrel Just da Rocha Pita

    27 de fevereiro de 2014 6:53 pm

    Sobre o NOVO

    O NOVATO sabe mais, é elagante, cortez, chomhece o direito mais que os velhos e incompetentes do stf. 

  12. Luciano Prado

    27 de fevereiro de 2014 7:20 pm

    Sobre Fatos e Provas X “exemplos” e “símbolos”

    A OPORTUNA LIÇÃO DE BARROSO

    Ministro lembrou que Justiça trabalha com fatos e provas, em vez de “exemplos” e “símbolos”

    Paulo Moreira Leite – IstoÉ

     

     

     O ministro Luiz Roberto Barroso deu uma aula de justiça, ontem.

     

    Desde o início da ação penal 470 nós ouvimos a tese de que o país precisava de um julgamento exemplar. O argumento é que estávamos diante de uma denúncia histórica, cujo resultado teria um grande efeito simbólico.

    Barroso disse:

    “Antes de ser exemplar e simbólica, a Justiça precisa ser justa, sob pena de não poder ser nem um bom exemplo nem um bom símbolo”.

    É isso mesmo. 

    Sob a presidência de Carlos Ayres Britto, que deu início ao julgamento da AP 470, falava-se tanto no caráter “simbólico” e “exemplar” da decisão que até imaginei que o STF preparava uma mudança de função e endereço.

    Em vez de permanecer na Praça dos Três Poderes, como um dos Poderes da República, com o dever constitucional de zelar pelo cumprimento das leis, pretendia  mudar-se para o divã do psicanalista Carl Jung, e passar a debater o efeito de suas sentenças sobre o inconsciente coletivo do país. Seria uma ótima diversão para todos — menos para os réus e para quem compreende o papel da Justiça na vida de hoomens e mulheres. 

    A prioridade dos exemplar e dos simbolos é assim. Substitui o fato pela versão.

    Há um truque, aqui.

    O papel de elaborar versões, nas sociedades contemporâneas, não é para qualquer um.  Nosso divã de psicanalista coletivo encontra-se nos meios de comunicação, que nos dizem quem são os heróis, os bandidos, o certo e o errado.  Vale o que escrevem, argumentam, explicam. Criam os mitos e, como dizia Jung, os arquétipos. 

    É através dessa opinião publicada – que os ingênuos confundem com opinião publica – que se forma o exemplar e o simbólico. 

    É por isso que nossos psicanalistas estão lá, noite e dia, nos jornais, na TV, para repetir suas histórias. 

    Sem resposta de conteúdo para uma mudança que, se for confirmada no dia de hoje, como tudo indica, representará um avanço do julgamento da AP 470 na direção correta, alerta-se para o risco simbólico, para o exemplar.

    Estranho que até agora ninguém tenha falado no “cultural.”

    Evita-se perguntar por que ocorre uma mudança, quais seus motivos reais.

    Todo esforço consiste em evitar  perguntas incômodas e questóes de fundo.

    Tenta-se fugir da  fraqueza notória nos argumentos da denúncia. Pretende-se ignorar a  insuficiência das provas para colocar um cidadão por dois ou três anos na prisão – como se uma existência humana, se o direito a liberdade e a presunção da inocência, fossem questões menores, que podem ser jogadas para lá ou para cá, ao sabor das convenientes do dia e, especialmente, da noite dos símbolos e exemplos.

    Em vez de estimular a razão, nossos psicanalistas querem estimular o medo, a mais perigosa das emoções do mundo político.

    O que o povo vai pensar? O “povo”. Não o povo, aquele que não é bobo.  

    O nome deste processo é marketing.

    A base desse raciocínio é inconfessável. Tenta-se convencer um país inteiro que sua população não está preparada para assistir a demonstração de que o STF, o “exemplo,” o “símbolo”, também pode errar e, quando isso acontece, este erro deve ser corrigido.

    Querem fazer a educação através do mito e não pela razão.

     Essa pedagogia implica em enxergar a população brasileira como uma aglomeração de homens e mulheres incapazes de compreender seus direitos e lutar por eles. Por isso nem sempre é preciso respeitar a vontade popular nem a soberania dos poderes que emanam do povo.

    Diante de pessoas que não podem tomar decisões por conta própria e necessitam de tutores e mestres para apontar o caminho do certo e do justo, nossos psicanalistas podem mais.  

    Vamos entender de uma vez por todas: quem fala no exemplar e no simbólico está dizendo que a mentira pode ser útil, o erro pode ser necessário, a Justiça pode ser apenas uma aparência – desde que sirva a seus propósitos.

    É este o debate. E, após tantos momentos de treva, parece haver um pouco de luz. 

     

    1. luizmattos

      28 de fevereiro de 2014 12:42 pm

      Sobre Fatos e Provas X “exemplos” e “símbolos” novo

      Excelente análise !!!!

  13. dirval

    27 de fevereiro de 2014 7:42 pm

    gilmar mendes (com minúscula)

    gilmar mendes (com minúscula) está certo. Quando o “2474” (desculpem mas parece o “Expresso 2474”) vier integralmente à tona, seo barbosão não determinar seu “desaparecimento”, o processo do Mentirão do Barbosão será revisto e anulado.

  14. Durvaldisko

    27 de fevereiro de 2014 8:36 pm

    Pelo menos   Barbosa  levará

    Pelo menos   Barbosa  levará para os  restos de seus dias o mérito de  ser reconhecido  e apontado como 

    o  juiz  mensaleiro.Quer honra maior do que esta?

  15. Thiago121

    28 de fevereiro de 2014 1:29 am

    O ministro Marco Aurélio foi

    O ministro Marco Aurélio foi muito infeliz em seu comentário sobre o ministro Luis Roberto Barroso,,chamando-o de novato.Infelizmente ainda em nosso páis nos deparamos com essa intensa disputa e brigas frequentes no supremo tribunal federal. Ao observa-se ainda que o motivo pelo qual o ministro se referiu ao ministro Luis Roberto perbe-se que quem deveria ser chamado de “novato” seria o próprio ministro que fez a crítica ao seu colega, jpa que a tese do ministro Luis Roberto estava coerente e ao observar-se as trajetórias do ministro Marco Aurelio vimos que seu comentário deveria ter servido para si mesmo.Extremamente de mal gosto o comentário devria ter sido ignorado e sim colocado em pauta assuntos mais importantes referentes a atualidade brasileira.Além do comentário nçao ter nexo nenhum, acho exemplar a atitude do ministro Luis Roberto ao deixar o ministro Marco Aurélio em uma saia justa no qual não nem um pouco capaz de sair.

  16. Rossi

    28 de fevereiro de 2014 6:18 am

    O novato no Supremo


    Gostaria de ver o ministro frente a uma das vítimas, ou parente ou amigo, das torturas, inclusive de bebês e grávidas, sequestro, morte, ocultação de cadáver, sustentar a tese de “um mal necessário”. Em determinadas circunstâncias, algumas frases proferidas, de tão absurdas, nos fazem invejar os mudos.

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