3 de julho de 2026

O movimento migratório que vai pressionar a educação pública

Migrando para escolas públicas

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Um fenômeno interessante que tenho observado aqui em Brasília está relacionado à matrícula nas escolas. Pode ser um fenômeno nacional, mas atenho-me ao que conheço aqui no DF.

Tem tudo a ver com as demandas da população por melhores serviços e que tará impacto na eleição de 2014.

Devido ao aumento do custo das mensalidades escolares e o receio da ‘facada’ que virá no início de 2014, percebo muita gente da classe média que está falando de tirar os filhos destas escolas e os matricular na rede pública. Eis aí um belo movimento que provocará uma pressão pela melhoria da qualidade em tais escolas. Muitos são pais já engajados no cotidiano escolar de seus filhos e que levarão esta experiência à vivência nos estabelecimentos públicos.

Pelo que noto, pelo menos em Brasília, o motivador ‘custo’ está também intimamente atrelado ao fator ‘qualidade’: há uma constatação geral, salvo normais exceções, de que a escola privada também já não é um modelo ou um diferencial de bom ensino, boas vivências, segurança e ‘status social’ (sim, muita gente matricula por status).

Escolas particulares vêm sofrendo, no DF, também com a alta rotatividade de profissionais (professores e monitores) e com problemas na qualificação deles.

Observo ainda um certo esgotamento quanto à filosofia que impera em tais estabelecimentos privados: uma formação demasiadamente individualista, uma série de ‘acessórios’ que encarecem a vida escolar (material didático privado e caro e cursos extra-curriculares pagos, por exemplo) e um modelo de convivência baseado no consumo.

Observe-se, ainda, que algumas escolas vêm sendo adquiridas por grupos de educação maiores, empresas mesmo, nivelando ainda mais a prática pedagógica ao status quoindividualista, estabelecendo uma relação de consumo por ‘serviços prestados’ entre pais e a escola e contribuindo, evidentemente, para o fenômeno da mercantilização do ensino e da proletarização dos professores.

Claro, a escola pública possui alguns destes vícios e também outros. Soma-se a isso problemas estruturais de violência (em alguns casos), de problemas nas instalações físicas e de ordem político/ administrativa (greves, contratação de temporários, afastamentos médicos). São problemas que ficarãos mais evidentes e serão mais enfrentados à medida que a classe média fizer uso e demandar por suas soluções.

Afora isto, assim como em outros estadosm, noto que há, por exemplo, no plano-piloto e em cidades satélites como Planaltina, Santa Maria e São Sebastião, escolas públicas consideradas de reconhecida excelência, com forte participação da comunidade e engajamento de seus profissionais e alunos. Claro, em outras cidades-satélites também há, mas cito os exemplos que pude conhecer efetivamente.

Enfim, parece-me um movimento em gestação. Há um fator preponderante nisso tudo: a escoa pública é de graça. São 1.000 reais a menos por mês (é o preço de Brasília). Se forem dois filhos, são 2.000 reais a menos… Dá para viajar mais, para complementar a educação dos filhos com outros cursos e mesmo vivências (cinema, teatro, acampamentos lúdicos etc). Dá para ter mais qualidade de vida.

Bom, é o que tenho percebido. Não sei se realmente todas as pessoas que dizem que vão por os filhos na escola pública o farão efetivamente. Mas é um movimento em gestação, é uma agenda que, como já vi em diversos textos neste blog, está entrando na pauta.

Sincerament: 1000 reais, 2000 reais….

É muito vantajoso se engajar na escola pública dos filhos…

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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8 Comentários
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  1. Assis Ribeiro

    12 de outubro de 2013 12:24 pm

    Excelente

    Alessandro, parabéns pelo post.

    Gostaria de acrescentar que o movimento migratório está se dando, além do alto custo, pela notória melhoria do ensino público, e principalmente pela condição das cotas.

    A elitização do ensino no Brasil, que os governos do PT tentam diminuir, foi concebido para criar o desequilíbrio de acesso ao ensino superior.

    Foi uma armação intencional para privilegiar os filhos das classes mais abastadas, e agora que os últimos governos tenta equilibrar este jogo, eles partem para se “igualar” nas novas condições.

  2. Ed Döer

    12 de outubro de 2013 1:52 pm

    Eu já tinha cogitado tal

    Eu já tinha cogitado tal migração e citado brevemente por aqui quando se discutiu cotas no passado. Mas com motivação diferente das citadas pelo autor do texto.

    A cotas hoje são uma realidade, então não vou entrar na questão do mérito, até por ser favorável ao conceito, apesar de ter alguns poréns com a metodologia adotada pela nova lei que estabeleceu critérios nacionais.

    Para começar, não custa nada recordar que, para quem está na escola pública, ficou mais acessível a universidade pública (e de qualidade), mas ao mesmo tempo, pra quem está na escola privada, a disputa ficou maior. Pois o número absoluto de vagas numa universidade X é menor hoje para quem esteve no ensino privado.

    Pra quem está no “topo da cadeia educacional”, nas escolas mais caras e exclusivas, esse cenário novo pode até ser irrelevante, já que a possibilidade de pagar uma universidade privada (e de qualidade) sempre existiu e está longe de ser um problema financeiro para a família. Tanto que há pais afortunados que presenteiam seus filhos com um carro mesmo quando passa numa universidade privada. Isso pra não falar naqueles que podem simplesmente mandar o filho para o exterior.

    Mas quando vamos olhar para quem está no “fundo” do ensino privado, numa classe média “intermediária” ou baixa, a diferença entre a mensalidade da escola frequentada e da faculdade privada de referência (e não essas novas de qualidade duvidosa que “brotam” na esquina) é considerável. Dependendo do curso que o jovem pretendo seguir, mesmo com uma bolsa parcial de 50% (a renda da família não permite a bolsa integral), ainda assim, bancar a universidade, vai ter um peso maior no orçamento da família que a escola frequentada no passado. Deixando claro que estou considerando a realidade de Porto Alegre/RS. Em outras capitais, o mercado da educação pode ser diferente.

    Diante desse novo cenário, colocar o filho numa escola pública e bancar um cursinho pré-vestibular de forma pernamente, provavelmente vai sair mais barato que pagar a escola privada (além do cursinho), pois mesmo alunos de escolas privadas recorrem aos pré-vestibulares no último ano. E além do custo menor, tal estratégia permitiria que o aluno dispute vagas que não teria acesso, teoricamente, aumentando sua chance de entrar numa universidade pública.

    Além disso, imagino que nem toda escola pública seja igual, tendo o mesmo nível de qualidade. A estrutura pode ser diferente e os professores claramente não são os mesmos de uma escola para outra. Então é possível que tal fenômeno se concentro em escolas mais tradicionais e localizadas em bairros melhores, pois devido o desenvolvimento das cidades, é possível encontrar escolas públicas antigas em bairros de classe média ou alta, que provavelmente são melhores que as encontradas na periferia.

  3. HEZBOLLAH666

    12 de outubro de 2013 2:17 pm

    Há ótimos colégios públicos no DF

    Não obstante sofrerem a concorrência forte de particulares tradicionais – Dom Bosco, Marista, Da Vinci, JK – as escolas públicas do DF colocam gente nas universidades federais a rodo. Setor Leste (a melhor escola pública do DF), Setor Oeste, Caseb, Elefante Branco, CTN são as escolas públicas top de linha até hoje.

  4. Adriano De Bortoli

    12 de outubro de 2013 2:49 pm

    Condições de trabalho dos professores

    Ontem à noite, entre amigos, conversávamos sobre algumas questões que envolvem as escolas aqui em bsb.
    Muito embora as mensalidades em escolas particulares daqui girem em torno dos R$ 1.000,00 a R$ 1.300,00, os salários pagos a professores muitas vezes não alcançam R$ 1.000,00.
    Não seria exagerado afirmar que as escolas privadas prometem uma qualidade que não se comprometem a entregar na medida em que essa qualidade depende substancialmente das condições de trabalho dos professores.
    Enquanto isso, na rede pública o salário inicial dos professores atualmente é de R$ 4.200,00 e passará a R$ 5.400,00 até o final de 2015.
    Se para os pais ou responsáveis o valor da mensalidade é um fator importante na escolha pela escola pública, para os professores é a maior demonstração de que o único ensino de massas viável profissionalmente é o público.

    1. Anarquista Lúcida

      12 de outubro de 2013 5:49 pm

      Sério que o salário em Brasília é esse? Está maior que o federal

      O piso oficial do magistério, que tantos governadores ainda nao querem dar, nem chega a 1500,00… Por 40 horas! 

  5. Luid

    12 de outubro de 2013 6:28 pm

    Alessandro,
    Também percebo o

    Alessandro,

    Também percebo o mesmo que você. Parece que existiram dois movimentos: com a melhoria de renda das famílias nos últimos anos, muitos pais matricularam seus filhos nas redes privadas buscando a tal qualidade de ensino; agora, com a alta nos preços das mensalidades (talvez até por causa da alta demanda), fazem o movimento contrário. Mas este último também deve ser creditado às políticas de cotas para alunos da escola pública em universidades federais. Os pais acabam concluindo que, acompanhando seus filhos na escola pública e pressionando pela qualidade, vão economizar recursos e ainda garantir uma faculdade pública para os filhos via cotas ou bom desempenho no Enem. Parece ser uma boa onda a favor da escola pública que tanto precisa de carinho. De qualquer forma, lanço outra visada para debate no blog: sou professor em MG e não está nada fácil lecionar hoje pois a geração de agora não se engaja no aprendizado; será que os pais também não estão perdendo a paciência com os filhos que não querem saber de estudar mesmo tendo acesso às escolas particulares??  

  6. Beatriz Azevedo

    16 de outubro de 2013 3:47 am

    Precisamos de gente engajada em melhorar a escola pública

    Aqui em São Paulo, algumas famílias de classe média, normalmente aquelas com pais mais engajados socialmente, estão migrando os filhos para a escola pública. Especialmente para as escolas onde se descobre que há um projeto pedágico sério, onde a comunidade como um todo é respeitada, os pais podem participar da dinâmica da escola, e talvez de algumas decisões. Algumas raras destas escolas estão até na mídia.

    Existe o movimento e eu particularmente o considero muito necessário. Precisamos de gente para brigar pela melhoria da qualidade, para exigir mais pelo que se paga em impostos e é revertido para a educação, para se juntar e trabalhar em prol da escola e também para ficar no pé da gestão escolar e dos professores. Não é fácil. Porque tanto na escola pública quanto na particular, a verdade é que não se quer os pais combatendo as falhas que encontram aos borbotões. Seu filho corre o sério risco de ser hostilizado. 

    Pelas minhas pesquisas atrás de uma escola para meu filho e por vários depoimentos de amigos, está evidente que as escolas particulares estão muito ruins mesmo. Arrisco dizer que a maioria dos pais colocam os filhos nas particulares por status, só que é um status advindo de um medo da escola pública, talvez até um horror.  Por uma falsa ideia de que a escola particular é boa e/ou de que como pagadores terão voz nesta relação de consumo com as instituições particulares, os pais ficam com as particulares, mas o que obtêm de volta é um engodo, desde a falta de qualidade do ensino propriamente dito até ao tipo de tratamento que pais e filhos recebem no ambiente escolar, sendo que tenho ouvido da parte de amigos que as escolas têm regras repressoras sem razão de ser, crianças obrigadas a usar uniforme e fazer propaganda involuntária do colégio, pais que não tem voz e que quando tentam conversar são informados que a nível psicopedagógico eles não sabem criar os filhos, além de várias situações de desorganização administrativa tanto na rotina diária, quanto em eventos que ocorrem nas escolas. Seria cômico se não fosse trágico.

    Há um tempo saiu uma reportagem no UOL apontando que muitas escolas particulares na faixa de R$ 600,00 tem infraestrutura deficiente e piores do que as instalações de escolas públicas. E eu pude comprovar isto em várias visitas que fiz . Visitei uma suposta escola bilingue no Butantã em São Paulo que cobra atualmente por volta de R$ 900,00 para educação infantil e mais um pouco para o ensino fundamental I e a escola é em um prédio de 4 andares improvisado, que não foi construído para ser escola, o espaço externo é ínfimo, sem uma árvore sequer ou grama ou uma caixa de terra, apenas uma grama sintética com alguns brinquedos de plástico, onde as crianças derretem no sol escaldante. E o projeto pedagógico? Completamente sem consistência.

    Visitei uma outra também no Butantã que cobra faixa de R$ 600,00 a 900,00 (do infantil ao médio) e que em pleno mês de março, logo após a volta às aulas, estava com a sala de artes fechada, e a pessoa que me mostrava a escola deu uma desculpa de que estava em reforma.

    Há uma escola caríssima (na faixa de R$ 2000,00) , no Parque dos Príncipes em São Paulo, onde o parque infantil, igualmente ao exemplo anterior, se resume à uma área com grama sintética. A escola está em um bairro arborizado porém nas dependências da escola praticamente não há árvores.  

    Já falando das públicas, é fácil constatar que várias estão em terrenos privilegiados, grandes, com verde e que os prédios não passam de 2 andares.  Isso falando da estrutura física. E em relação à pedagogia, ao conteúdo, ao nível de qualificação dos professores? Se as particulares fossem tão boas, seus egressos pontuariam excelentemente no ENEM e ingressariam direto nas melhores faculdades e bem, não é isso que vemos ao longo das últimas 2 décadas.  Muitas particulares apesar de conteudistas não tem projetos e filosofia pedagógica que valham o tudo que se cobra nelas, a saber, matrícula, 12 mensalidades, taxa de material, passeios muito bem pagos, parcerias com cursos de inglês mas que são pagos em separado da mensalidade regular, taxa de uniforme (sou totalmente contra!) e muito mais.

    Então, dentro deste contexto todo, seja porque cansou de pagar, seja pela perspectiva da cota nas universidades federais, seja porque se quer acreditar que é possível melhorar a educação pública básica, esse movimento migratório já estava na hora.

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