O Queijo
por Felipe Bueno
Carlo Ginzburg nos deixou, ficam os incômodos e os caminhos legados por ele a nós. O detetive original e revolucionário, filho de intelectuais que fizeram frente ao fascismo, herdou deles o compromisso com a verdade e fez dela um farol.
O italiano não foi o primeiro a dar importância à História dos pequenos anônimos e das pequenas coisas, é verdade. Mas ofereceu doses particulares de dedicação e sutileza ao vasculhar documentos e elaborar os caminhos percorridos pelos fatos, séculos atrás, para construir modestamente trajetórias possíveis para o esclarecimento da verdade. Ginzburg foi mais um a nos ajudar a compreender que as poucas grandes coisas são compostas por inúmeras pequenas.
Quem teve a oportunidade de ler O Queijo e Os Vermes conheceu Menocchio, homem comum do cinquecento, que não tinha redes sociais para divulgar suas teses, mas mesmo assim atraiu a atenção da polícia ideológica de então. E, a partir das ideias e atos desse humilde moleiro, Carlo Ginzburg escreveu sobre o pensamento vigente – ou um dos pensamentos vigentes – no norte da Península Itálica do século XVI.
Ginzburg fala de História, mas esta é apenas uma porta. Por ela, nos conduz intencionalmente a outro universo, mais profundo: o da cultura dos humildes e dos sem voz, a silenciosa maioria que, apesar de ignorada, pensa e age, seja quinhentos anos atrás ou agora.
Minucioso e detalhista, paciente e dedicado, professor para historiadores e outras tantas categorias profissionais, dentre as quais certamente podemos incluir o jornalismo, seria Carlo Ginzburg, por todas essas qualidades, um tipo de ser humano em extinção?
A História dirá.
Enquanto isso, de tão óbvio, merece ser repetido o que muitas vezes se falou e ainda se falará neste espaço: enquanto, em tempos de pós-verdade, a revisão mal-intencionada da História leva ao desastre, a dedicação à retirada do pó e dos escombros de seus verdadeiros capítulos é um compromisso com a humanidade e com o registro eterno de seus fatos; é o mais honesto alerta de que seus antigos erros não devem ser cometidos novamente.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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