4 de junho de 2026

A transição republicana nos EUA e a herança de Roosevelt

Concordo muito com esta frase do artigo: “Até partidos de oposição, se quiserem conquistar o poder, terão que se pautar pela nova agenda.”
 
Eles o fazem. 
 
Talvez não haja nada mais emblemático a respeito que a transição, em 1952/1953, de Democratas para Republicanos nos EUA.
 
A partir de 1933 Roosevelt iniciou, com apoio tanto de sindicatos como representantes não-toscos do capital, uma série de reformas que introduziu o ‘welfare state’ nos EUA.
 
Houve o atraso (em relação a outros países desenvolvidos) na área de saúde (o que será parcialmente superado com o Obamacare), mas a desconcentração de renda nos anos 1930 e 1940 foi mais intensa que qualquer movimento do gênero em países em desenvolvimento nos anos 2000. (Muito se perdeu, infelizmente, com o neoliberalismo a partir da Reaganomics, mas a distribuição de renda nos EUA ainda é melhor que na maioria dos países em desenvolvimento.)
 
Houve um redesenho do papel do Estado, com a fixação da política tributária e estabelecimento de inéditas alíquotas de impostos (de renda e de consumo), uma reforma agrária efetiva (até hoje a eficiente agricultura norte-americana é muito mais familiar, ao mesmo tempo que muito mais automatizada, que na maioria dos países), rápida universalização do ensino (o percentual de alunos em escolas privadas nos EUA é menor que no Brasil.)
 
O governo Roosevelt ‘socializou’ os EUA talvez mais rapidamente que os aumentos de carga tributária de 1993 a 2002 no Brasil. O tamanho do Estado e de suas atribuições aumentou inexoravelmente e o setor público norte-americano emprega percentual maior de pessoas que social-democracias como o Japão.
 
Por 20 anos (e o ‘patriotismo’ com a vitória sobre Alemanha, Japão e circunscrição de União Soviética e China ajudaram, claro), os Democratas se reelegeram consecutivamente. Tamanho foi o sucesso de Roosevelt (4 mandatos, o último interrompido por seu falecimento mas seguido de reeleição de seu sucessor, Truman) que levou a uma determinação que apenas uma reeleição de executivo seria considerada (e nos EUA ex-presidentes já reeleitos, como Clinton, não se reapresentam como candidatos mesmo após intervalos.)
 
Mas nada disso impediu a volta dos Republicanos em 1953. Por outro lado, estes não recuaram nem desmontaram praticamente nada de relevante da herança do governo anterior. 
 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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7 Comentários
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  1. morgana profana

    6 de outubro de 2013 10:07 pm

    Está incompleto…

    Titia fez a crítica lá no post que deu origem a este, e refaz aqui…

    A  agenda conservadora não se refaz para “incorporar” temas e pautas dos progressistas, como sinal de amadurecimento, ou de continuidade…

    Esta é uma visão romântica, ou uma tradução seletiva do Gunter do livro da Michele Alexander…

    O estado conservador tem uma aliança com a classe que o domina, e que pretende financiar a acumulação de capital…Não há concessão possível nesta agenda…E não houve nos EEUU, embora a propaganda diga o contrário…

    Ora, a cada ciclo de incorporação de grandes contingentes de excluídos nos EEUU, logo depois, os conservadores implementavam mudanças econômicas, e atingiam as conquistas sociais por uma via oblíqua, opondo explorados (os pobres com empregos, contribuintes e brancos) contra os excluídos (os negros sem empregos)…

    Esta marginalização, via de regra pela criminalização dos setores excluídos, obedeceu no pós-abolição e guerra de secessão, a lógica da estatização da escravidão, dizimando cada passo dado na direção de dotar negros de cidadania (voto e direitos econômicos), que caiu como uma luva no período da depressão.

    Em 52/53, os conservadores (republicanos) reescrevem a lógica da exclusão e do desmonte do welfare state pela mistura de aspectos anti-comunistas, que eram vinculados aos defensores dos direitos civis, e logo depois, na outra onda (Reagan) com o criminalização do “war on drugs”.

    Por óbvio, todas as leis e regras do welfare state foram, formalmente, mantidas, mas na realidade, aqueles que deveriam ter acesso a estes benefícios estavam presos…

    Ainda que consideremos sui generis que o estamento dos direitos civis tenha sido implementado e garantido por Lindon Johnson, é fato que o conjunto de medidas que possibilitariam o rompimento das condições que, a cada época expunham os negros e outros pobres, às intempéries cíclicas do capitalismo ( expansão e retração)…

    É este o desafio imposto aqui no Brasil, e que deve ser encarado pelo governo do PT e aliados, mas que já encontra na “nova direita”(eco-pentencostais e oligarquismo de gestão) uma pretensa “proposta” de “mais e melhor”, mas que na verdade só deseja impedir a radizalização da necessária tarefa distributiva…

    Titia não discute a crença de Gunter e Nassif de que haverá uma nova cara conservadora…”religião” não se discute.

    Esta “nova” direita é só um contrabando ideológico…os canibais agora conseguem comer com talheres e não falam de boca cheia, mas continuam a nos desejar para o jantar…

    1. morgana profana

      6 de outubro de 2013 11:40 pm

      perdoem titia.

      Mas este trecho ficou sem sentido (como o resto, rs):

      (…)Ainda que consideremos sui generis que o estamento dos direitos civis tenha sido implementado e garantido por Lindon Johnson, é fato que o conjunto de medidas que possibilitariam o rompimento das condições que, a cada época expunham os negros e outros pobres, às intempéries cíclicas do capitalismo ( expansão e retração) não foram implementadas, ou seja, as causas da desigualdade…

  2. morgana profana

    6 de outubro de 2013 11:37 pm

    PS.

    Falta tio Gunter também dizer que a cada ciclo conservador (ainda que na fachada se digam “pelos pobres”), a nível de desigualdade recrudesce a níveis piores aos dos ciclos keneysianos anteriores, como acontece hoje nos EEUU, quando a concentração de renda e desigualdade atingem o fosso da década de 80 do século XX.

    Esta teoria da “ciência política” gunteriana, titia teme dizer que não vinga…

  3. andrep

    7 de outubro de 2013 12:32 am

     
    O tema é muito grave – esse

     

    O tema é muito grave – esse observar a paisagem e não para onde se está indo de verdade. Gosto de seu estilo Morgana, mas mais  que sua ironia o tema levantado é de extrema gravidade. Creio que a leitura do que representa esse nascimento do “seio de organização de esquerda” edurina é uma paisagem. Não sou tão religioso.

    abç e continue a rever posições contemplativas de janela.

  4. Café Preto

    7 de outubro de 2013 12:42 am

    This comment has been deleted.

    1. Gunter Zibell - SP

      7 de outubro de 2013 6:04 am

      Brontossauros não, é Progressauros.

      [video:http://www.youtube.com/watch?v=nQj3wjK4tZQ%5D

  5. Waldyr Kopezky

    7 de outubro de 2013 4:56 am

    Os republicanos não aprenderam nada

    Caríssimo Gunther, ficaram alguns fios soltos:

    1. A denominada “transição republicana” nos EUA diz respeito a quê – à alternância no cargo ou a um suposto “aprendizado” desse partido (rep.)? Não entendi, mas vou presumir que seja a este último.

    2. Roosevelt se reelegeu não porque teve sucesso na 2ª Guerra Mundial, mas porque antes disso seu New Deal salvou a economia estadunidense do abismo em que estava com a crise de 1929 – e três gestões republicanas anteriores (Warren Harding, Calvin Coolidge e Herbert Hoover, a partir de 1921) não previram ou regraram o mercado que, livre, levou o mundo inteiro ao desastre (como aquela famosa frase diz, “é a economia, estúpido!”).

    3. A predominância (inédita) dos democratas por 5 mandatos consecutivos (prque Truman não concorreu à reeleição, mas foi eleito depois de substituir Roosevelt em seu 4º mandato) é que provocou a lei de limitação de reeleições para somente duas (coisa da maioria republicana das duas casas legislativas, durante o último mandato de Truman – este um incompetente pulsilânime que só não foi pior em avaliação do que o republicano Bush Jr.).

    4. O crescimento da máquina estatal dos EUA ocorre de forma BRUTAL a partir de 18 de setembro de 1947, quando foi aprovado (pelo Truman!) um  Ato de Segurança Nacional (National Security Act) que passava a instituir uma nova força armada e e criava TODA a estrutura moderna de inteligência dos EUA (já falei sobre isso em outro post), estrutura depois denunciada por Eisenhower como o “complexo militar-industrial”, setor “híbrido” (porque presente tanto na esfera governamental quanto no setor privado) visto como o mais poderoso e influente na formulação e condução dos rumos dos EUA que qualquer outro grupo  existente até hoje; aliás, Eisenhower o denuncia (em seu discurso de despedida) mas não o reprimiu, passando a “bola” para o presidente democrata recém-eleito, John Kennedy (e nós sabemos o que deu sua tentativa de limitá-lo…).

    Resumindo: o GOP (Great Old Party) foi responsável no séc. XX pelas gestões dos EUA mais retrógradas, belicistas e corruptas – e só não interromperam os avanços sociais e de inclusão de Roosevelt (a quem odiavam) e Kennedy pelo sucesso destas e pela grande capacidade de mobilização da sociedade de então. Além disso, a falta de apoio dos republicanos junto aos militares (atendidos eternamente por um budget dinossáurico, eterno, indecente e inquestionável, pois inauditável) pesou consideravelmente para que as FA  mantivessem uma postura interna apolítica e indiferente aos extremismos – desde que estes não sufocassem sua ação na Guerra Fria.

    Se é que os republicanos aprenderam algo, isso pode ter ocorrido há pouco menos de 10 anos, quando uma ala mais radical (o Tea Party, o “talibã norte-americano”) passou a controlar a legenda e as atenções de seus eleitores da direita – John McCain, Colin Powell e demais reps moderados aí aprenderam que, ao evocar o radicalismo político e exacerbar o ódio, pode-se acabar flertando perigosamente com o caos e a desordem.

    Abs.

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