4 de junho de 2026

Que posso eu dar ao teu destino?, por Fernando Pessoa

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O número de arranque da revista Granta em Portugal inclui alguns poemas inéditos de Fernando Pessoa – os inéditos parecem não mais terminar, dirão os mais críticos, mas talvez estes aparecimentos ocasionais se devam ao facto de muitos dos papéis escrevinhados serem muito difíceis de decifrar. O poemapossivel publica um desses poemas, datado de 16/10/1929*

ouça aqui o soneto dito por Gonçalo Waddington

Que posso eu dar ao teu destino? Nada.
Nem eu mesmo sou feito para dar.
Encontrei-te na curva de uma estrada
E esqueci-me da curva e do lugar.

Se havias de mandar no meu andar,
Saberias a hora da chegada,
Nem tudo fica, como o chão, na estrada
E não ha mais que ver ou que buscar.

Perfeitamente conhecedor d’isto
O juizo humano em minha companhia
Não descobre a visão de que consisto,

E entre visões, aliás, a gloria passa
Como a ultima saudade que ha no dia
E o ultimo sonho, e a ultima desgraça.

* Se esta data estiver correta (existe a possibilidade de ser ler 6 e não 10 no mês), «(…) isto colocaria o poema em Outubro de 1929, mês em que Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz mantiveram correspondência, se namoraram ao telefone e se encontraram várias vezes».

(in revista “Granta”, n.º 1; transcrição e notas de Jerónimo Pizarro e Carlos Pitella-Leite; ed. Tinta da China, Maio 2013)


Fonte: poema possível – blogue de poesia – 28/05/2013

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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