5 de junho de 2026

Chavistas protestam para reafirmar voto e apoiar Maduro

Por Maíra Vasconcelos, especial para o blog

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Ontem, desde ás 11 horas, até ás 21 horas, ocorreram três manifestações em apoio ao presidente, no centro de Caracas. 

Ao menos até o dia da posse do presidente Nicolás Maduro (PSUV), marcada para a próxima sexta-feira, 19, em clima apreensivo e de impressões golpistas, chavistas podem ter que continuar a luta para fazer valer seu voto e a democracia. Desde que Maduro foi proclamado presidente pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), na última segunda-feira, seus eleitores estão sendo obrigados á reafirmar o voto, que pelo processo democrático haviam garantido, no dia 14 de abril, diante do não reconhecimento do governo eleito pela oposição. A diferença entre os candidatos foi de 1,77% dos votos.

Ontem, chavistas se reuniram por força de protesto em frente à Assembleia Nacional, nas escadas do Ministério do Poder Popular para Comunicação e Informação e, á noite, nas adjacências da instituição. Também com a presença de algumas autoridades do governo, chavistas entoaram cânticos políticos por Maduro presidente, repudiaram o que consideram ser uma nova tentativa de golpe da oposição, como em 2002, e afirmaram a continuidade da “revolução socialista bolivariana”.

Nos três protestos, manifestantes exigiram investigação e julgamento do opositor Henrique Capriles (MUD), que instou seus apoiadores á exigir a recontagem manual dos votos. Por isso, Capriles é tido pelos chavistas como responsável por ao menos sete mortos e cerca de 60 feridos, em todo o país, durante conflitos, como incêndios e ataques aos postos do Centro Médico de Diagnóstico Integral (CDI), e sedes regionais do partido governista, PSUV. As ofensivas de violência partiram de grupos antichavistas, que alinhados ás palavras de seu líder Capriles, não reconhecem o resultado das eleições. O opositor chegou a convocar para hoje, mas cancelou, uma marcha para que seus seguidores saíssem desde as regionais do CNE em cada cidade, até a sede principal do órgão, no centro de Caracas.

“Investigações já. Prisão ao fascista”. “Temos presidente e se chama Nicolás”. “Chávez presente, Maduro presidente”. “Não voltarão, não voltarão”. “Com Chávez e Maduro, o povo está seguro”. “Pátria, independência e socialismo”. Essas são algumas palavras de ordem repetidas nas manifestações no centro de Caracas.

Alerta de golpe de estado, apoio na figura e legado de Hugo Chávez

Ficou clara a intenção da oposição em criar um clima de desestabilização frente á vitória de Maduro, que aproveitou para agir e tirar proveito nesse período de transição até a posse de fato do presidente, marcada para esta sexta-feira, 19 de abril. Apesar de contar com a possibilidade e em declarações pedir a atenção do país para impedir um novo golpe de estado da oposição, o presidente eleito segue firme e apoiado nas palavras de Hugo Chávez.

Durante o discurso na sede do CNE, quando proclamado presidente, Maduro tinha em mãos o “Plano da Pátria”, programa de governo idealizado por Chávez. Essa e outras alusões diretas ao projeto de continuidade das políticas que guiam a revolução boliviariana, iniciada por Chávez, resumem o conteúdo dos discursos do presidente, neste momento. Além de ser esta a forma de dialogar com o eleitorado que necessita escutar que “Chávez vive e segue a revolução”.

Posicionar-se em público sempre atrelado á figura, ás palavras e ao pensamento de Chávez, é, hoje, para Maduro, indispensável para sustentação e manutenção do “seu” eleitorado. Mas a necessidade de ter que reivindicar Maduro como presidente, e fazer respeitar a democracia e o próprio voto, diante da oposição que não reconhece o resultado das eleições, o eleitorado chavista pode começar assim a ver e incorporar Maduro como presidente.

É uma incógnita ou um exercício de futurologia, tentar saber até quando Chávez seguirá sendo o referente político dessa parcela da população venezuelana, que optou e na teoria já tem outro líder de fato: Nicolás Maduro.

“Chávez vive”

As músicas da campanha eleitoral, os cânticos políticos entoados em público nas manifestações de apoio ao atual presidente, sem exceção, Hugo Chávez está presente em cada palavra e a vitória de Maduro é entregue ao “comandante”.

“Chávez foi o libertador de mentes, aqui, e em muitos países. Não estamos acostumados com Maduro, essa é a primeira verdade, mas se Chávez deixou a ele o seu legado, é nossa obrigação apoiá-lo. Quem não foi votar em Maduro, não respeitou o pensamento e o que foi dito pelo comandante”.

A afirmação é de Leticia Ramirez, dona de casa, convicta de que os votos dos chavistas foram para Hugo Chávez e Maduro tem que mostrar trabalho, como fez “o comandante”.  “Falta muito para Maduro, já que ele não é Chávez. Não é apenas o meu caso, mas estou completamente segura que todos nós votamos pela memória de Chávez, nosso guia. Maduro tem que trabalhar como fez Chávez, e nada mais”.

Em meio aos que apoiavam Maduro, ao ser proclamado presidente pelo CNE, Juan Carlos León, do bairro 23 de Enero, disse que seu voto “foi para a revolução”. Sobre a pouca diferença entre Maduro e o opositor Capriles, León afirmou: “as pessoas tinham dúvidas. Porque Chávez é Chávez, e também muitos confiaram que íamos ganhar com folga de votos, e não compareceram”.

A professora Maria Pereira, que trabalha em uma escola bolivariana, participou do evento de proclamação do presidente, no centro de Caracas, também vinda desde o 23 de Enero, “para vigiar e apoiar, pois há possibilidades de desestabilização”. Ela ressalta a política dos governos de Hugo Chávez, e expõe a necessidade de seguir com Maduro para manter o que “o comandante” concretizou.

“Não votava antes do Chávez. Agora, temos escolas, restaurante popular, farmácia com medicamentos a baixo custo. E isso não pode terminar. A direita não vai manter os médicos cubanos”, disse Pereira.

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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