4 de junho de 2026

Neoateísmo ou Fundamentalismo Ateu???

Não sou religioso, nem ateu. Estudei em colégio de padres (o Instituto Abel, Lassalista,  em Niterói) ajudei meu primo, coroinha a tocar muito sino na torre da maravilhosa Basílica de São Fidélis, construída pela missão Francesa. Eu via minha avó, quando eu passava as férias de verão em S. Fidélis, acordar todo dia às 5:00 da manhã pra dar café ao meu avô, e partir para a missa das 06:00, todo santo dia. Sempre li a Bíblia, mas só as partes interessantes, a matança, Sodoma e Gomorra, incesto, as guerras, Sansão, David e Noé eram meus heróis favoritos. Quando chegava aquela parte chata, das genealogias, leis, essas besteiras, eu pulava direto. Quando fiz minha primeira comunhão cheguei a pensar em ser padre.

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Uma coisa sempre me incomodou, entretanto, as contradições da Bíblia. Deus é omnipresente, omnisciente, omnipotente; ele sabe tudo, está em todo lugar e tem poder sobre tudo. Então, por que deixar o mal no mundo? Comecei a formar minha própria opinião sobre o assunto. Antes mesmo de conhecer a estória de Lúcifer eu já desconfiava que deus havia criado o Diabo, e a maldade. Comecei a achar que era sacanagem.


Mais tarde um pouco, no Ginasial (existia isso na época) numa escola laica, com bons professores de História, Filosofia, e outras disciplinas que nos levam à busca do conhecimento pelos próprios meios, me tornei ateu de carteirinha. Não só desprezava as religiões, e a deus, como fazia questão de desrespeitar. Foram os tempos da juventude revolucionária.

Na época, idos dos anos 70, não havia nada que funcionasse 24 horas. Nossas festas de arromba, eram regadas a cachaça e batidas (e arejadas por drogas diversas), já que a cerveja era algo meio fora de nossas condições financeiras. Lá pras tantas, quando acabava a birita, tínhamos que ir de carro até o bar da rodoviária de Niterói, um longo trajeto para nós sedentos. Quantas vezes economizamos o dinheiro arrecadado pra comprar Smirnof, cachaça e cigarros nos abastecendo nas diversas macumbas que encontrávamos pelas encruzilhadas em Niterói. Era a festa! Achávamos charutos, cigarros, cachaça, vinho, e com sorte até champagne. O dinheiro amealhado, era embolsado pelos expedicionários e ninguém na festa precisava saber a origem, herética, de nosso butim.


Minha diversão favorita era chocar testemunhas de Jeová, aquelas que batem na sua porta cedo de manhã, aos sábados. Abria a porta pelado (hoje até virou Meme na internet). Quando acampávamos, já no começo do boom evangélico, as vezes perto de algum ‘templo’ nos cafundós de deus me livre, e éramos acordados pela  gritaria dos fiéis, tentando se fazer ouvir por deus; gritávamos todo tipo de blasfêmia e impropérios, com exaltações a Satanás, Pomba Gira e Exu, era a glória!


Mas isso também não me satisfazia, e não me dava respostas, da mesma forma que a ciência. Comecei a estudar ocultismo, e doutrinas herméticas. Sempre tive fascínio sobre o oculto, já que eu achava, depois de tudo que tinha aprendido, e compreendido, que havia algo debaixo desse angu.


Durante meu processo de psicologia analítica (junguiana) comecei a ter uma noção mais racional do que seja o impulso mistico/religioso do ser humano. Nós, que parecemos ser totalmente despidos de instintos, temos no nosso ADN (DNA em português, seus colonizados) o impulso à religiosidade e ao misticismo, um instinto exclusivo do ser humano, herdado dos primeiros macacos que olharam para o céu e começaram a contar estrelas.


Nos últimos 30 anos, então, estudei astrologia, alquimia, tarot, cabala, quiromancia, astrologia chinesa (a mais impressionante) e várias correntes exotéricas. Tudo entremeado com leituras de Jung, Freud, filosofia, física quântica e história, muita história.


Compreendi que, filosoficamente, e com argumentos insofismáveis, é impossível ao homem provar a existência de deus, ou sua inexistência. Nem todas as doutrinas científicas juntas podem provar a afirmação de que deus não existe, nem todos os dogmas de todas as religiões, mono, ou politeístas, podem comprovar a existência de deus. Afinal tudo é pura crença. A própria ciência é incapaz de provar a si mesma, visto que para poder teorizar (teorizar vem de Teos, deus em grego) há que haver observação. 


A maior premissa da ciência é a observação do fenômeno, sem isso só podemos sofismar. É impossível ao homem, e a qualquer ser vivo inteligente, observar a natureza em sua totalidade, visto a infinitude do universo. Para observarmos um sistema, temos que estar fora dele, ou nossa observação vai ser conspurcada pela nossa posição. O que vemos de uma certa posição pode mudar radicalmente, se estivéssemos em outro lugar a visão seria, com certeza, diferente. Isso sem falar dos experimentos in vitro, que quando expostos à realidade fora das condições ‘ideais de temperatura e pressão’ falham estrondosamente, toda teoria cai por terra.


Por isso me espanto quando esses neoateus, como Richard Dawkins, vem a público, escorados numa única teoria, de uma única disciplina, afirmar categoricamente que deus não existe. Nunca li nada dele, ou de Darwin (que respeito) mas a única vez em que o vi falando e defendendo suas posições, a impressão que tive foi a de um fundamentalista. Alguém totalmente preso aos dogmas de sua crença, incapaz de fazer um exercício de imaginação como o proposto pelo repórter que o entrevistava na FLIP. Ante a pergunta hipotética do repórter “O  que o senhor faria, se ao morrer se encontrasse perante a Deus? O que  o senhor diria? E a resposta do aiatolá da biologia foi: “Not enough evidence” (não há evidências suficientes!) Ora, se o panaca está em frente a deus (como proposto na pergunta) como ele poderia dizer que não há evidencias??? Será que ele duvida dos próprios  olhos?? Se isso não é fundamentalismo ateu, eu não sei o que seja fundamentalismo!

Há mais honestidade nas religiões que dizem que se tem que ter fé. O que é fé? Aquilo em que acreditamos por que queremos, ou precisamos ou nos ensinam a acreditar. No fim, são tudo crenças, e a gente escolhe as nossas de acordo com fatores que não  cabe enumerar aqui. Eu nem isso tenho, minha posição é puramente racional.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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