10 de junho de 2026

Precisa de um emprego? Invente-o, por Thomas L. Friedman

Do Uol

Precisa de um emprego? Invente-o

02/04/2013 – 00h01
 

THOMAS L. FRIEDMAN

Quando Tony Wagner, especialista em educação de Harvard, descreve seu trabalho atual ele costuma dizer que é “um tradutor entre duas tribos hostis” – o mundo da educação e o mundo empresarial, as pessoas que ensinam nossos filhos e as pessoas que lhes dão emprego. O argumento de Wagner, descrito em seu livro “Creating Innovators: The Making of Young People Who Will Change the World” (“Criando Inovadores: a Construção dos Jovens que Vão Mudar o Mundo”, em tradução livre), é que os caminhos de nosso ensino fundamental (para alunos de seis a 14 anos), nosso ensino médio (para alunos de 15 a 17 anos) e nosso ensino universitário não estão “acrescentando valor e ensinando as habilidades que importam para o mercado de trabalho” de forma consistente.

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E isso é perigoso, num momento em que há cada vez menos postos de trabalho de nível técnico que paguem altos salários – o tipo de ocupação que sustentou a classe média durante a geração passada. Atualmente, os únicos postos de trabalho que pagam altos salários são aqueles que exigem uma mão de obra altamente qualificada. Hoje em dia, todos os postos de trabalho voltados à classe média estão sendo fechados, sendo transferidos para outros lugares ou sendo temporariamente suspensos a um ritmo mais acelerado do que nunca. Ou seja: essas posições ou exigem mais qualificação ou podem ser desempenhadas por um número maior de pessoas ao redor do mundo ou estão sendo fechadas – traduzindo: estão ficando obsoletas – a um ritmo mais rápido do que nunca. E é por isso que o objetivo da educação atual, afirma Wagner, não deve ser preparar todas as crianças para a faculdade, mas prepará-las para a inovação – ou seja, deixá-las prontas para acrescentar valor a tudo o que fizerem.

Essa é uma tarefa gigantesca. Eu fui atrás de Wagner e pedi que ele me explicasse essa teoria melhor. “Hoje em dia”, ele me disse por e-mail, “como o conhecimento está disponível em todos os dispositivos conectados à internet, o que você sabe importa muito menos do que o que você é capaz de fazer com o que você sabe. A capacidade de inovar – a capacidade de resolver problemas de forma criativa ou de trazer novas possibilidades para a vida – e habilidades como o pensamento crítico, a comunicação e a colaboração são muito mais importantes do que o conhecimento acadêmico. Como um executivo me disse: “Nós podemos ensinar nosso conteúdo aos recém-contratados, e nós temos que fazer isso, pois o conteúdo muda constantemente. Mas nós não podemos lhes ensinar a pensar. E também não podemos ensiná-los a fazer as perguntas certas nem a tomar iniciativas””.

Para a minha geração as coisas foram fáceis. Nós tínhamos que “encontrar” um emprego. Mas, mais do que nunca, os nossos filhos vão ter que “inventar” um emprego. (Felizmente, no mundo de hoje, isso ficou mais fácil e mais barato do que nunca.) É claro que os mais sortudos vão encontrar seu primeiro emprego, mas, considerando-se o ritmo das mudanças atuais, mesmo esses sortudos vão ter que se reinventar, fazer sua auto-reengenharia e re-imaginar esse emprego com muito mais frequência do que seus pais se quiserem avançar na carreira. Se isso é verdade, eu perguntei a Wagner, o que é que os jovens precisam saber hoje em dia?

“Cada jovem vai continuar precisando de conhecimentos básicos, é claro”, disse ele. “Mas eles vão precisar ainda mais de habilidades e motivação. Desses três objetivos educacionais, a motivação é o mais importante. Os jovens que são intrinsecamente motivados – que são curiosos, persistentes e dispostos a assumir riscos – vão conseguir aprender continuamente novos conhecimentos e habilidades. Eles serão capazes de encontrar novas oportunidades ou de criar suas próprias oportunidades – uma inclinação que será cada vez mais importante à medida que muitas carreiras tradicionais desaparecerem”.

Então, qual deve ser o foco da reforma da educação hoje em dia?

“Nós ensinamos matérias e aplicamos provas sobre temas nos quais a maioria dos alunos não têm nenhum interesse e que nunca vão utilizar – ou sobre temas que eles podem encontrar no Google e vão se esquecer assim que a prova tiver acabado”, disse Wagner. “Devido a isso, quanto mais tempo as crianças passarem na escola, menos motivadas elas ficarão. Uma pesquisa recente realizada pelo Instituto Gallup mostrou que o envolvimento dos alunos cai de 80% na quinta série para 40% durante o ensino médio. Mais de um século atrás, nós “reinventamos” a escola de uma única sala de aula e criamos as escolas “fábrica”, direcionadas para a economia industrial. Reinventar as escolas para o século 21 deve ser a nossa maior prioridade. Nós temos que nos concentrar mais em ensinar a habilidade e a vontade de aprender e de fazer a diferença, e em trazer os três ingredientes mais poderosos da motivação intrínseca para a sala de aula: amor ao conhecimento, diversão e propósito”.

O que isso significa para os professores e diretores?

“Os professores”, afirmou ele, “precisam treinar os alunos para que eles alcancem a excelência em seu desempenho, e os diretores devem ser líderes educacionais que criem a cultura de colaboração necessária para a inovação. Mas o que é testado é o que é ensinado e, para isso, precisamos de uma “Prestação de Contas 2.0” (“Accountability 2.0”). Todos os alunos deverão ter boletins digitais que demonstrem as evidências de seu domínio de habilidades como o pensamento crítico e a comunicação, que eles desenvolverão durante o ensino fundamental, o ensino médio e o nível superior. O uso seletivo de testes de alta qualidade, como o College and Work Readiness Assessment (avaliação para detectar o quão preparados estão os alunos para entrar na faculdade e no mercado de trabalho), é importante. Finalmente, os professores deverão ser avaliados de acordo com as evidências de melhoria nos trabalhos de seus alunos ao longo do ano – em vez de por meio de uma nota concedida em um único teste realizado no mês de maio. Nós precisamos de escolas com laboratório, onde os alunos possam tirar seu diploma do ensino médio após obterem uma série de “medalhas de mérito” baseadas em habilidades como o empreendedorismo. E escolas nas quais todos os professores novos façam uma “residência” com os professores mais antigos. Além disso, os padrões de desempenho – e não os padrões de conteúdo – devem se tornar a nova norma em todo o sistema”.

E quem está fazendo isso certo?

“A Finlândia é uma das economias mais inovadoras do mundo”, disse ele, “e é o único país onde os alunos saem do ensino médio prontos para inovar. Lá eles aprendem conceitos e criatividade, mais do que apenas fatos, e podem escolher entre muitas matérias optativas – tudo isso aliado a uma jornada escolar menor, poucos deveres de casa e quase nenhuma prova. Nos Estados Unidos, as 500 escolas de ensino fundamental e de ensino médio filiadas à Deeper Learning Initiative (Iniciativa do Aprendizado mais Profundo), da Fundação Hewlett, e um consórcio de 100 distritos escolares batizado de EdLeader21 estão desenvolvendo novas abordagens para ensinar as habilidades exigidas no século 21. Também há um número crescente de faculdades “reinventadas”, como o Olin College of Engineering, o MIT Media Lab e a “D-school”, da Universidade de Stanford, onde os alunos aprendem a inovar”.

Tradutor: Cláudia Gonçalves

THOMAS L. FRIEDMAN

Colunista de assuntos internacionais do New York Times desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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