Por jns
O índio na fotografia brasileira: incursões sobre a imagem e o meio
Fernando de Tacca
As contradições e confluências entre o meio (fotográfico) e a imagem do índio brasileiro sob uma perspectiva histórica da fotografia brasileira. A imagem do índio nessa fotografia manifesta-se em três momentos distintos. Na fase inicial, no lugar do exótico, contraditório ao sentido moderno da fotografia durante o Segundo Império. Na segunda fase, as fronteiras entre o etnográfico e o nacional se diluem, nos primeiros cinquenta anos do século XX, a exemplo da Comissão Rondon/Seção de Estudos do SPI e do fotojornalismo moderno no Brasil da revista O Cruzeiro. No terceiro momento, as manifestações de uma etnopoética das fotografias de Claudia Andujar fazem meio e imagem se fundirem como lugar etnográfico na arte contemporânea.
Ainda no campo da introdução da fotografia moderna no Brasil, a revista O Cruzeiro foi o principal veículo de comunicação. Nela o fotojornalismo assumiu novas faces, na mediação dos fatos sociais. Jean Manzon formou um grupo de fotógrafos que se tornaram referências e reconfiguraram a narratividade fotográfica no Brasil, também no começo dos anos 1940. Como exemplos, temos as reportagens publicadas como uma espécie de novela, sobre o casamento da índia kalapáloDiacuí com um sertanista. As reportagens ganharam os títulos “Minha noiva é uma índia” (1 nov. 1952), “Kalapalos invadem a ‘cuiabá’ dos arranha-céus” (29 nov. 1952) e “Abandonada pelo branco morreu Diacuí” (22 ago. 1953). A proposta de uma mestiçagem das populações brasileiras é clara, na narrativa dos episódios desse casamento frustrado, pois a índia morreu ao voltar para sua aldeia e a criança foi adotada por uma família branca. Se o casamento não deu certo, a criança seguiu seu rumo na ‘civilidade’ (Costa, 2004).
De outra parte, a revista acompanhou a conhecida Expedição Roncador-Xingu e a pacificação dos índios xavante, também com várias reportagens. Nesse caso atribui-se valor imagético à resistência daquele grupo, na conhecida fotografia em que aparecem atirando flechas em direção ao avião de onde são fotografados por Jean Manzon. Entretanto, no processo de contato acabaram por se render ao grande pássaro, como na foto de José Medeiros, em que um Xavante se abraça às rodas de uma aeronave.


Créditos
O índio na fotografia brasileira: incursões sobre a imagem e o meio
Fernando de Tacca
Professor da Universidade Estadual de Campinas; editor da revista Studium. [email protected]
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