Na religião, o ser humano é dominado por criações de seu próprio cérebro; analogamente, na produção capitalista, ele é subjugado pelos produtos de suas próprias mãos. Karl Marx
Um homem, branco e alto, cabelos cuidadosamente aparados e penteados, barbeado, usando terno, gravata, sapatos brilhosos e uma pasta executiva nas mãos corre freneticamente nos corredores de um escritório. Dá ordens polidamente embora seja lícito exasperar-se, às vezes, para mostrar sua autoridade. Em seu escritório particular, atende homens de negócio. Na antessala uma bela e eficiente mulher o assessora. Ao lado, uma sala de reuniões, onde o executivo preside reuniões da diretoria. Sua casa? Um brinco! Tudo no devido lugar, graças a uma faxineira eficiente, aparentemente satisfeita e bem tratada pelos patrões. Esta casa possui piscina, jardim (e jardineiro), churrasqueira, vários quartos, sala de jantar, escritório, uma mulher bela e servil, um cachorro (ou gato), filhos bem comportados, bem vestidos, nutridos e asseados.
Quem é ele? A figura central da catequese capitalista! Ele é onipresente, onipotente. Pode ser encontrado em novelas, filmes hollywodianos, outdoors, capas de revistas, etc. Sua imagem contendo, deliberadamente, aspectos profissionais e pessoais mais do que anastomosados, pretende indicar relações de causalidade entre tais dimensões: o trabalho frenético, as cansativas reuniões, a hora-extra, o cuidado com a aparência, o bom desempenho como pai e marido, são elementos que, neste modelo, justificam a confortável vida material de nosso personagem.
Trabalho frenético e “vida confortável” são, portanto, elementos constituintes do estilo de vida apresentado como modelo pela grande indústria da imagem. Parte da classe média, particularmente, a universitária, ainda que não desfrute do padrão de vida material de executivos de multinacionais, magistrados e parlamentares, incorporou o modus operandi desta casta, tornando-se workaholic. Muitos professores da educação básica, estes mais distantes ainda da riqueza material dos classe A, trabalham três turnos, alegando que seria esta a única maneira de sobreviver com os achatados salários da categoria (ainda que a maioria dos colegas atue, no máximo, em dois turnos).
Acadêmicos ou não, a questão é que grande parte do mundo ocidental, incluindo aqueles que são capazes de refletir criticamente, como fez Goldman, sobre as relações entre a consciência e a vida material do trabalhador, avaliam de modo positivo as pessoas “mais esforçadas”, “mais dedicadas”, “mais produtivas”, “mais trabalhadoras”, entre outros adjetivos que qualificam aqueles que introjetaram certo frenesi laboral.
Em oposição, termos como vagabundo (etimologicamente – aquele que vaga), preguiçoso, vadio, lento, improdutivo e ocioso, constituem adjetivos desvalorizados socialmente. Esta é a regra, o pensamento hegemônico. Há, entretanto, quem compreenda tais qualidades de modo distinto, axiologicamente falando.
Vale a pena lembrar que mesmo os gregos antigos pensavam diferentemente, valorizando mais as artes e a literatura, o trabalho intelectual (otium, donde deriva-se “ócio”) do que o trabalho braçal, relegado a pobres, escravos e mulheres. Em tempos recentes, o finado Millôr dizia que “quem se mata de trabalhar merece mesmo morrer” (acredito que não estivesse se referindo aos mais pobres). E no samba composto em sua própria homenagem, a cantora Clementina de Jesus diz “fui feita pra vadiar!”, valorizando um conjunto de ações, designadas, desde os tempos da escravidão (oficial) de “vadiagem”, cuja compreensão é bastante distinta entre brasileiros oriundos de tradições culturais predominantemente africanas e aqueles aculturados segundo viés europeu. Conjunto de ações porque, além daquilo que pode ser considerado “não-fazer” (dormir, descansar), a vadiagem está associada à prática, ao cultivo e transmissão de elementos socioculturais lúdicos e artísticos.
Neste sentido, depoimentos de alguns dos mais importantes sambistas brasileiros, como é o caso do saudoso Candeia, denotam duas distintas visões sobre a vadiagem: a deles próprios, que viam na sua musicalidade e irreverência a expressão máxima da vadiagem, considerando-a, portanto, ação libertadora, criadora e revolucionária e, contrapondo-se a esta visão, aquela que permeava os agentes do estado, preocupados em reprimir tais manifestações, confiscar violões e prender violeiros, sambistas, capoeiristas e toda sorte de vadios, sob a alegação advinda de uma mentalidade colonial, de que era preciso combater os “vícios” trazidos pelos africanos, que poderiam, segundo eles, perturbar a ordem pública.
O (des)humano ocidental contemporâneo acredita que sua crônica falta de tempo e excesso de trabalho são condições inexoráveis, para as quais só lhe resta lamentar. Parte considerável da população (sobretudo a classe média, já que os mais pobres muitas vezes não tem, de fato, muita escolha) não se julga capaz de administrar seus afazeres, julga-se vítima.
Neste universo, nossa relação com o trabalho pode dar-se, ao menos, a partir de duas perspectivas: a) aquela que considera que se deve dedicar a maior parte do tempo ao trabalho, dividindo-se o escasso tempo restante entre os demais elementos cotidianos secundários, como a comunidade, os amigos, a arte, o amor, o sexo, o repouso, a política, a alimentação, a religiosidade, etc. e; b) a que insere o trabalho entre os outros elementos referidos acima, considerados de igual importância, compreendendo, além disso, que este não pode ser avaliado sob um ponto de vista estritamente quantitativo, pois a qualidade daquilo que se produz é frequentemente prejudicada pelo cansaço, pela pressa, pelo excesso.
Uma sociedade mais fraterna, reflexiva, inteligente e sensível somente poderá emergir caso se acolha a sábia mensagem, o novo paradigma educacional, expresso na velha canção de Ratinho e Monarco: “Vai vadiar, vai vadiar, vai vadiar, vai vadiar!!”
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