O filho de Wladimir Herzog, Ivo Herzog escreveu uma petição digital visando a destituição de José Maria Marin da direção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Quando deputado estadual paulista Marin cobrou em plenário da Assembléia Legislativa providência aos órgão de repressão da ditadura providências contra o jornalismo da TV Cultura, então dirigido por Herzog, Quinze dias depois o jornalista foi assassinado nas dependências do DOPS.
Da Carta Maior
Nelson Pereira dos Santos, Carlos Lessa e Paulo Cézar Caju aderem à campanha ‘Fora Marin!’
Mais personalidades brasileiras aderem ao abaixo-assinado Fora Marin!. Não restará outra opção à Comissão da Verdade senão convocar o presidente da CBF para depor. Da mesma forma, o ministro do Esporte Aldo Rebelo deverá obrigatoriamente sair do seu mutismo e manifestar-se publicamente.
Raul Milliet Filho
A rejeição da sociedade brasileira a José Maria Marin é de tal ordem que personalidades as mais representativas, carregadas de simbolismo, vêm cada vez mais aderindo ao abaixo-assinado redigido por Ivo Herzog, filho de Vladimir Herzog.
Não restará outra opção à Comissão da Verdade senão convocar o presidente da CBF para depor. Da mesma forma, o Ministro do Esporte Aldo Rebelo deverá obrigatoriamente sair do seu mutismo e manifestar-se publicamente, honrando a história do seu próprio partido, o PC do B.
Nelson Pereira dos Santos, cineasta brasileiro, autor de obras-primas como Vidas Secas, Memórias do Cárcere, Rio, 40 graus, Rio, Zona Norte, Boca de Ouro, O Amuleto de Ogum, A Música segundo Tom Jobim, dentre vários outros filmes, além de membro da Academia Brasileira de Letras, um dos fundadores da Faculdade de Cinema da Universidade Federal Fluminense e da Universidade de Brasília (UnB), não hesitou em subscrever o abaixo-assinado.
Paulo Cézar Caju, craque, dono de um estilo refinado, um dos expoentes do futebol arte, tricampeão mundial pela seleção brasileira (Copa do México, 1970), bicampeão carioca e da Taça Guanabara pelo Botafogo (67/68), Flamengo (72/74) e Fluminense (75/76), bicampeão gaúcho (79/80) e mundial (83) pelo Grêmio. Em seu blog no Jornal da Tarde, tem sido um crítico intransigente da CBF, tendo adotado o lema “defesa do futebol arte e tolerância zero com os brucutus”.
Carlos Lessa, professor titular de Economia da UFRJ, um dos professores fundadores dos cursos de Economia da Universidade de Campinas e da Universidade Federal Fluminense, foi reitor da UFRJ e presidente do BNDES. Lessa é um nacionalista social democrata, defensor intransigente da ética na vida pública, autor dos livros Quinze anos de política econômica; Desenvolvimento capitalista no Brasil: um ensaio sobre a crise; Introdução à Economia: uma abordagem estruturalista (com Antônio Barros de Castro) e O Rio de todos os Brasis (uma reflexão em busca de autoestima).
Defensor apaixonado de suas ideias, Carlos Lessa é torcedor do Olaria e profundo conhecedor do Rio de Janeiro e sua história.
Por fim, o Megafone do Esporte não poderia deixar de fazer uma indagação: sendo o futebol, ao lado do samba, um dos pilares da cultura popular brasileira, da autoestima de nossa população, da identidade nacional, até quando o governo federal irá ignorar o apelo de mais de 53 mil signatários do abaixo-assinado e de personalidades como Nelson Pereira dos Santos, Carlos Lessa, Paulo Cézar Caju, Chico Buarque, Leandro Konder, Chico de Oliveira, Luiz Gonzaga Belluzzo, Afonsinho, Romario, Fernando Gabeira, Chico Alencar, Marcelo Freixo e tantos outros?
A manutenção de José Maria Marin não soa apenas como ironia, conforme bem frisou Zuenir Ventura, mas, acima de tudo, configura-se como um ato de desrespeito aos valores democráticos e ao futebol, que no Brasil é mais do que um esporte, é arte e paixão popular.
Clique aqui para ler mais a respeito e assine Fora Marin!
*Raul Milliet Filho é botafoguense, mestre em História Política pela UERJ e doutor em História Social pela USP.
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Do blog do Juca
José Maria Marin pediu explicações do blog à Justiça.
As quais foram protocoladas hoje para exame do Juiz.
De tão brilhantes, o blogueiro achou que devem ser publicadas.
Exmo. Sr. Juiz de Direito da 29ª. Vara Criminal de São Paulo
Processo nº 0116542-34.2012.8.26.0050 (2029/12)
O jornalista JOSÉ CARLOS AMARAL KFOURI, profissionalmente conhecido como JUCA KFOURI, por seu advogado, nos autos do PEDIDO DE EXPLICAÇÕES movido perante esse r. Juízo por JOSÉ MARIA MARIN, vem, em atenção à notificação recebida, esclarecer o seguinte.
Em virtude de dois escritos publicados no blog do peticionário, hospedado no UOL, o atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ajuizou o presente Pedido de Explicações. A rigor, não há fundamento jurídico para o pedido.
O primeiro escrito apontado na inicial é reprodução literal da convocatória da Articulação Nacional Pela Verdade e Justiça, entidade composta por diversas organizações sociais, com endereço na Internet:
http://pelaverdadeejustica.wordpress.com/. Em anexo, cópia impressa do cartaz do movimento Pela Memória, Verdade e Justiça e da convocatória “Vamos escrachar José Maria Marin!” originalmente publicada (documentos 1 e 2).
O segundo texto citado pela peça inicial, sob o título “A má memória de Marin” nada mais é do que uma legítima repercussão da entrevista dada por MARIN ao jornal Folha de S. Paulo.
O inconformismo de MARIN decorre de crítica envolvendo pronunciamento dele, como deputado, no plenário da Assembléia Legislativa de São Paulo, reclamando providências contra o jornalismo da TV Cultura de São Paulo, na época dirigido por Vladimir Herzog. Em anexo, a íntegra da sua fala publicada no Diário Oficial de 7.10.1975 (Documento 3). O colega de MARIN, deputado Wadih Helu, delineava o que seria o viés comunista da emissora, apelidando-a de “A Televisão Vietnan Cultura de São Paulo”, e MARIN, em aparte, pediu:
“É preciso mais do que nunca uma providência, a fim de que a tranqüilidade volte a reinar não só nesta Casa [TV Cultura], mas principalmente nos lares paulistanos”.
Em 25 de outubro Herzog seria assassinado no DOI-CODI, tendo sido forjada pelo regime militar uma versão de suicídio. O episódio é do conhecimento público.
MARIN, em outro pronunciamento relembrado pelo peticionário, proferido em 1976 (Documento 4), volta a falar em “tranqüilidade” quando homenageia o delegado Sérgio Fleury –símbolo da tortura no regime militar e um dos mais violentos policiais da história do Brasil:
“Conhecendo de perto seu caráter, sua vocação de servir, podemos afiançar, sem dúvida alguma, que Sergio Fleury ama sua profissão; que Sergio Fleury a ela se dedica com o maior carinho, sem medir esforços ou sacrifícios, para honrar não só a polícia de São Paulo, mas acima de tudo, seu título de delegado de polícia”.
JOSÉ MARIA MARIN, no Pedido de Explicações, diz que o jornalista “não deixa claro se atribui ao requerente a condição de partícipe da tortura e homicídio que vitimaram o jornalista VLADIMIR HERZOG, ou se o acusa publicamente de apoiar uma barbárie dessa estirpe”.
Nem uma coisa nem outra. O texto não permite nenhuma das duas conclusões. JUCA KFOURI não afirmou a participação de MARIN na tortura e morte de Herzog. Nem tomou conhecimento, por outro lado, de que JOSÉ MARIA MARIN tenha formalmente “apoiado” a “barbárie”. Aliás, não se tem notícia de que alguém tenha “apoiado” o que se fez com Vladimir Herzog.
Em síntese, o que o jornalista mostra é que MARIN, ao longo de sua vida política, esteve do lado errado (pelo menos a partir de um olhar retrospectivo), pedindo “providencia” contra comunistas da TV CULTURA, para a tranqüilidade dos lares paulistanos, saudando as habilidades policiais do Delegado Fleury, etc.
Há um fato concreto e que não será esquecido. MARIN pediu providencia em seu discurso e duas semanas depois Herzog apareceu “suicidado”. Há um vínculo de natureza política entre os dois acontecimentos. É assim que se conta a história de um país. Mesmo que por pobreza de espírito ou por ingênuo sentimento anticomunista, ainda que não tenha sido mencionado o nome do jornalista depois assassinado, ainda que não fosse o desejo de MARIN qualquer ato de violência, não há como fugir da responsabilidade política. Havia uma conjuntura política desfavorável aos chamados inimigos do regime e aquele tipo de discurso servia para fortalecer as forças da repressão e estimular perseguições.
JOSÉ MARIA MARIN é qualificado na peça inicial como “um dos homens mais importantes do mundo”. Com certo exagero, é claro, já que os escândalos da CBF obrigaram Ricardo Teixeira a renunciar e o cargo caiu no seu colo meio sem querer… Mas, de qualquer maneira, o passado de um homem que ocupa hoje a posição de dirigente da Copa do Mundo de 2014, pode sim ser objeto de inquietação, revolta e críticas###, ainda que severas, exageradas ou não, justas ou injustas, não importa. Faz tempo, mas aconteceu: MARIN pediu “mais do que nunca uma providência” e Herzog morreu.
No Brasil há falta de memória. A peça inicial, por exemplo, ao traçar o perfil de MARIN, diz que ele, como governador do Estado, teria sido o “responsável pela extinção do DOPS”. Esqueceu de dizer que não foi por humanismo. É que o convênio existente entre o governo federal e o governo de São Paulo, que autorizava a repressão política pelo DOPS paulista, havia sido rompido em 21 de janeiro. O DOPS não precisava mais existir… O que foi feito foi feito para atender os interesses do submundo do regime militar, para dar sumiço em arquivos da repressão política, poucos dias antes de Franco Montoro, de oposição, assumir o Governo de São Paulo em março de 1983.
A morte de Herzog, a farsa do suicídio e a impunidade dos criminosos deixaram seqüelas em seus amigos e familiares, além, de estimular o movimento dos jovens militantes do tal “escracho”. É um caso não encerrado. A Comissão Nacional da Verdade busca mais informações sobre o episódio. Recentemente, o Poder Judiciário determinou a retificação do registro da causa de sua morte. O discurso de MARIN será sempre lembrado. É parte da sua vida. É parte da vida de Herzog.
Da juntada da presente, pede deferimento.
São Paulo, 18 de fevereiro de 2013.
Luís Francisco da S. Carvalho Fº
OAB/SP #– 63.600
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