4 de junho de 2026

A vitória de Chávez nas eleições regionais

Do Estadão

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A vitória de Chávez

Mesmo hospita­lizado, en­frentando um câncer do qual se dizia curado e lon­ge da Venezuela, o caudilho Hu­go Chávez está desmantelando seus opositores, pavimentando o caminho para a manutenção do regime bolivariano na sua eventual ausência, desfecho que parece cada vez mais prová­vel. As eleições regionais de do­mingo, em que os chavistas ga­nharam nada menos que 20 dos 23 Estados em disputa, mostraram a força do caudilho e, em igual medida, a incapaci­dade da oposição de superar suas divergências e de apresen­tar-se como alternativa viável à “revolução bolivariana”.

Como era inevitável, Chávez explorou seu drama pessoal co­mo um trunfo eleitoral. O vice-presidente Nicolás Maduro, transformado pelo caudilho em seu herdeiro político, pe­diu, em cadeia nacional, que os venezuelanos dessem “um vo­to de amor por um homem que sempre deu tudo pelo povo da Venezuela”. As eleições, como se sabe, são a varinha mágica do chavismo para transformar o regime ditatorial venezuela­no numa “democracia”. Segun­do essa lógica ilusionista, pou­co importa se o Judiciário é controlado pelo governo ou se o Estado está a serviço dos can­didatos oficialistas; pouco im­porta, também, se o dinheiro público é vertido como maná para financiar demagogia travestida de justiça social ou se Chávez é onipresente na TV, por meio de suas transmissões obrigatórias. O que interessa, no discurso bolivariano, é que o chavismo é referendado pe­las urnas, em eleições “lim­pas”, nas quais a imensa maio­ria dos eleitores venezuelanos vota nos candidatos do caudi­lho por “amor” a seu líder, ago­ra apresentado como mártir.

Os resultados da eleição se­rão trombeteados pelos chavis­tas como prova do poder do cau­dilho e da aceitação plena do projeto bolivariano pelos vene­zuelanos. De fato, diante dos nú­meros, parece haver pouca mar­gem de dúvida: afinal, os candi­datos de Chávez capturaram na­da menos que cinco Estados da oposição, entre eles Zulia, o mais rico.

Contudo, há dados que mati­zam a vitória chavista como um triunfo incompleto. Em primei­ro lugar, é preciso levar em con­ta que eleições regionais são pautadas por questões locais, e não nacionais. Alguns candida­tos que fazem parte da oposição a Chávez foram derrotados por­que estavam havia muito tempo no poder, sofrendo da chamada “fadiga de material”. Em outros casos, a qualidade dos postulan­tes anti-Chávez era tão ruim que seus eleitores em potencial preferiram ir à praia a ir às ur­nas. Não à toa, a abstenção foi de 46,1%, uma das maiores da história recente da Venezuela. Para ter uma dimensão desse número, basta lembrar que 80,4% dos venezuelanos vota­ram na eleição presidencial de outubro.

É preciso também conside­rar que a reeleição do governa­dor Henrique Capriles em Mi­randa foi um importante revés para Chávez. Bater Capriles era seu objetivo prioritário nesta eleição, uma vez que o governa­dor, candidato derrotado por Chávez nas eleiçõès presiden­ciais de outubro após realizar uma campanha bem organiza­da, aparece como o mais viável líder de uma oposição tão ca­rente de nomes fortes para en­frentar o chavismo. Por essa ra­zão, Chávez enviou um de seus mais importantes colaboradorres, o ex-vice-presidente Elias Jaua, para enfrentá-lo.

Nada disso, porém, muda o fa­to de que o chavismo venceu com enorme folga uma eleição que deveria ter servido como a afirmação da ascensão oposicio­nista, que parecia consistente nos últimos tempos, principal­mente depois das eleições regio­nais de 2008, em que o desem­penho foi muito melhor do que o de agora. Nem mesmo os al­tos índices de violência urbana, de inflação e de rombos nas con­tas públicas parecem capazes de abalar a confiança da maioria dos venezuelanos no chavismo.

Em seu discurso, Capriles, embora tenha denunciado o de­plorável uso eleitoral da doença de Chávez e acusado os chavis­tas de chantagem e abuso de po­der, tentou mostrar otimismo: “A mudança está próxima”. Mas, como as urnas mostraram, a oposição venezuelana terá de ser muito mais eficiente e unida do que foi até agora para conse­guir quebrar o encanto chavista.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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