Em menos de uma semana, dois bons motivos para acreditar no jornalismo: participei da segunda banca de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) da Faculdade Metodista. Agora, um livro-reportagem sobre o Pinheirinhos, através da tomada de depoimentos de várias famílias expulsas da área.
O grupo foi constituído das alunas Amanda Sartori, Beatriz Longuini, Mariana Anauate, Michele Navarro, Patrícia Faerman e Talita Lima, orinetadas pelo professor Rodolfo Carlos Martino.
O trabalho é constituído de duas partes, o livro com os depoimentos e um memorial, com documentos e depoimentos de partes envolvidas, incluindo oficiais da Polícia Militar, defensor público etc.
Livro muito bem escrito, com texto homogêneo, apesar de cada capítulo ter sido escrito por duas alunas. Mais importante, são as questões suscitadas pelo trabalho e que provavelmente serão desenvolvidas pelo grupo, à luz das observações da banca.
O livro descreve a violência policial, a partir dos relatos dos moradores. O memorial traz uma longa entrevista com oficiais da PM, explicando seus métodos. Usa-se a força explícita para evitar resistências que possam levar à morte. Faltou explicar porque o método da PM para atuar em badernas públicas é o mesmo empregado em localidades onde coexistem famílias, com velhos, mulheres e crianças.
Mas o livro relata também, com impecável isenção, o trabalho dos partidos políticos envolvidosno episódio, PSOL, PSTU. E mostra que, de fato, haviam preparado armas – ainda que toscas – para uma quase guerrilha urbana. Gasolina, coquetel-Molotov, bastões e correntes foram armazenados para o momento do confronto, com a mesma insensibilidade da PM em relação às famílias ali reunidas.
Tudo isso é narrado jornalisticamente, fazendo a “mediação”, como explicaram as alunas, simplesmente dando a palavra aos personagens. Quem menciona as ferramentas de guerra é um dos líderes do movimento.
O livro entrevista Marron, o líder máximo do movimento e o personagem que ele criou para si próprio, do guerrilheiro urbano fora de época; dá a palavra ao pastor que se mudou para Pinheirinhos, mas, principalmente, mostra os personagens anônimos, com sua fé ou desconfiança em relação aos líderes do movimento, mas com sua descrença absoluta nos poderes públicos.
Tem-se, de um lado, o enorme vácuo de Estado e também de organizações sociais. Assim, a representação do movimento é assumida por partidos radicais, tampouco interessados em uma interlocução com os poderes constituídos.
O livro descreve, em algumas partes, o enorme palco, onde desfila toda sorte de oportunismo político, do governo do Estado querendo agradar seus eleitores conservadores aos radicais de esquerda, querendo criar fatos políticos; as promessas do governo do Estado e do governo federal de resolver o pepino. Depois, as luzes se apagam e cada família fica exposta ao seu próprio destino.
Faltou o pano de fundo, entender a lógica dos magistrados que autorizaram a ocupação; a ineficiência dos serviços sociais do município, estado e União.
Mas, principalmente, uma explicitação melhor do enorme jogo político que se monta em torno de episódios dramáticos. Até para entender melhor a impotência dos personagens que, com sua tragédia, tornaram-se atores involuntários de um dos mais vergonhosos episódios do Brasil moderno.
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