4 de junho de 2026

O homem prisioneiro do tempo no filme “Matadouro 5”

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O filme “Matadouro 5” (Slaughterhouse Five, 1972)  é um dos mais niilistas e desesperançados filmes gnósticos: sem saída, o homem é prisioneiro no tempo e condenado por demiurgos alienígenas a repeti-lo por toda a eternidade. O que torna o filme “Matadouro 5” um clássico dos filmes com temática gnóstica é que ele inicia uma crítica metafísica de fatos que tradicionalmente são abordados pelo viés da crítica política ou social. No filme, a guerra não é mais enquadrada pela crítica ideológica ou política, mas, agora, como mais um fato dentro de um absurdo plano cósmico levado a cabo por demiurgos alienígenas.

“Matadouro 5” foi um dos filmes que mais impactaram a minha adolescência nos anos 70. O filme, baseado na obra consagrada de Kurt Vonnegut Jr. (escritor de ascendência germânica e falecido em 2007 nos EUA), é uma mistura de II Guerra Mundial, viagens no tempo e alienígenas de um planeta chamado Tralfamador. Uma mistura aparentemente bizarra que segue a linha do humor negro e das obras anti-guerra ou pacifistas dessa época (filmes como “Ardil 22” – Catch 22 de 1970, “Mash” de 1970 ou “Dr. Fantástico” – Dr. Strangelove, 1964 – de Kubrick são outros bons exemplos).

O filme narra a vida do protagonista Billy Pilgrim, soldado americano na II Guerra Mundial e sobrevivente ao infame bombardeio da cidade de Dresden, na Alemanha, no final da guerra (para quem não sabe, Dresden não era um alvo militar, mas acabou tornando-se vítima de pesado bombardeio aéreo aliado que resultou em 135 mil mortos, o dobro de mortos de Hiroshima).

Assim como no filme “Sr. Ninguém”, aqui a vida do protagonista é narrada de uma forma simultaneamente harmônica e aleatória.

O filme inicia em momento no futuro, onde Pilgrim datilografa uma carta ao editor de um jornal com a famosa frase que abre o livro de Vonnegut: “Estou solto no tempo”. Pilgrim tenta explicar a todos a sua estranha condição adquirida após ter sido abduzido por seres alienígenas: ele não só navega no tempo através dos diversos momentos da sua vida, mas todos os instantes são vividos simultaneamente.

Depois vemos Pilgrim no planeta Tralfamador, aprisionado e exposto numa espécie de zoológico do planeta, confortavelmente vivendo com uma atriz de filmes pornôs dos seus sonhos (Montana Wildhack), e sendo observado pelos alienígenas. Lá Billy aprende o modo de enxergar a vida e a morte dos tralfamadorianos. Para eles, uma pessoa não morre, só parece morrer. Ela está morta apenas naquele momento. Em todos os outros, em seu passado, está viva. Ninguém fica triste por uma morte. Basta olhar para trás, para outro episódio da vida, e se transportar para lá. Para os habitantes de Tralfamador a vida não tem começo, meio ou fim. Billy é um dos poucos terrestres que compartilham essa capacidade, e ele passa toda a vida sabendo como e onde vai morrer.

Sabe que vai sofrer um acidente aéreo e sobreviver, e que sua mulher vai morrer envenenada por monóxido de carbono do seu próprio cadillac. Sabe que será prisioneiro de guerra em Dresden (no campo de concentração “Matadouro 5”) e que, lá, será jurado de morte por Paul Lazzaro (psicopata com ideia fixa de criar uma lista de inimigos que devem ser assassinados por ele) que será o seu algoz no futuro.

Billy observa milhares de vezes os mesmos episódios, sem conseguir alterá-los. E como conviver com essa estrutura do tempo eterna e repetitiva? “Uma forma agradável de passar a eternidade é ignorar os maus momentos e concentrar-se nos bons”, dizem os alienígenas. Pilgrim passa a eternidade revivendo bons momentos e saltando pelos fatos desagradáveis.

Tempo Moderno e Pós-Moderno no Cinema

Em primeiro lugar é marcante como o tempo é representado nesse clássico do início dos anos 70: aqui, o tempo é descrito de forma aleatória, porém harmônica. Podemos voltar aleatóriamente no tempo, mas não podemos alterar a cadeia de eventos. É a representação modernista do tempo presente em outros clássicos como “A Máquina do Tempo” (Time Machine, 1960) ou a série Cult de TV “O Túnel do Tempo” (Time Tunnel, 1966) dos anos 60. Somos meros observadores de fatos que se repetirão por toda eternidade.

Já em filmes como “Sr. Ninguém” ou “O Efeito Borboleta” (The Butterfly Effect, 2004), temos a representação pós-moderna do tempo: não só podemos viajar pelo tempo como podemos alterar eventos, criando futuros alternativos que convivem simultaneamente em linhas paralelas. O tempo como um hipertexto. E esses futuros alternativos podem se tocar a partir de desvios, como linhas de trem que correm paralelas.

E o que Pilgrim testemunha por toda eternidade? Os fatos que fizeram o tempo se movimentar são estúpidos, aleatórios, destituídos de sentido ou propósitos: a inexplicável fixação de Paul Lazzaro em matá-lo, o professor americano que morre fuzilado por pegar uma caixa de música dos escombros de Dresden e ser confundido com um saqueador, a tragicômica morte da esposa asfixiada pelo monóxido de carbono, a abdução inexplicável pelos alienígenas e assim por diante.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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