9 de julho de 2026

A diferença no tratamento dado a Temer e Dilma em início de governo

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Jornal GGN – Se a imprensa se calçou de dados e números alarmantes para justificar o processo de afastamento de Dilma Rousseff (PT), o mesmo critério não foi aplicado para jogar luz sobre o início do governo interino de Michel Temer (PMDB). Quando o assunto é apontar para o horizonte que nos espera sob o peemedebista, O Globo preferiu se agarrar ao leque de boas intenções de Temer, apenas. São dois pesos e duas medidas, segundo Geovana Teodoro, do Manchetômetro.

Por Geovana Teodoro

Dois pesos, duas medidas (ou quantas forem necessárias)

Do Manchetômetro

O primeiro dia do segundo mandato do governo Dilma e o primeiro dia do governo interino de Michel Temer foram datas carregadas de diagnósticos e expectativas. Como já é de costume, a grande mídia brasileira não somente reportou esse cenário como também reafirmou seu já reiterado papel de arauto dos “rumos da economia” do País. O jornal O Globo publicou, no dia 1º de janeiro de 2015, o editorial “Margem de erro para Dilma ficou estreita” e, no dia 13 de maio de 2016, o editorial, quando da posse de Temer, “Otimismo com o novo tom do Planalto”.

Se o posicionamento do jornal fica evidente a partir da mera oposição dos termos escolhidos para o título de cada um dos editoriais, associando “margem de erro estreita” ao governo Dilma e “otimismo” ao governo Temer, a análise dos textos demonstra a opção deliberada d’O Globo por termos que estabelecem, de um lado, a tempestade para as perspectivas do cenário econômico no segundo mandato de Dilma e, de outro, a bonança para um governo Temer que, já nas suas primeiras semanas, contrariou tais expectativas. No editorial de janeiro de 2015, o jornal enfatiza que a economia do país teria entrado “em coma” antes mesmo do novo mandato de Dilma, indicando que já haveria um “cerco montado ao segundo governo Dilma por erros dela mesma”. Já o editorial de maio de 2016 apresenta o interino como homem de muitos “predicados”, sendo seu “trânsito no Congresso” apenas uma de tantas outras qualidades, além de destacar a opinião de que o primeiro dia de seu governo foi marcado por uma mudança no discurso “e para melhor”.

Reforçando o viés político do editorial, não faltaram referências a termos pejorativos como “lulopetismo” e “hostes petistas”. O editor ousou até mesmo escrever que quanto menos presente a cor vermelha no Planalto, mais este seria “condizente com os ares de um palácio de governo”.

O texto dos editoriais desnuda, ainda, a opção do jornal por políticas econômicas específicas, alinhadas com o que a economista Laura Carvalho define como “agenda Fiesp”, que atende melhor aos interesses do empresariado e do mercado financeiro ao priorizar medidas como desvalorização do câmbio,  redução de impostos e ajuste fiscal. Note-se, nesse sentido, a ênfase dada pelo editorial de 2015 ao “esgotamento do ciclo de incentivo preferencial ao consumo” (política econômica que marcou os dois governos Lula e alavancou o crescimento econômico do país no período) e o destaque do editorial de 2016 à fala de Temer sobre a “necessidade de se melhorar o ambiente de negócios no País”.

Ocorre que, ao apresentar dados do Relatório Focus, o editorial do jornal O Globo sobre o início do segundo mandato de Dilma deixa de informar o leitor que esses números decorrem da própria tentativa da presidenta de atender às demandas da agenda Fiesp, já nos primeiros anos de seu governo. Exemplo disso é a notória contração fiscal observada entre os anos 2011 e 2015 (conforme apresentado em estudo do Ibre/FGV de dezembro de 2015) e as consequências preocupantes para as contas da União da concessão de benefícios fiscais a empresas. Além disso, a própria utilização do Relatório Focus como fonte primária de dados para definir os “rumos da economia” do país deve ser questionada. Trata-se de um conjunto de expectativas geradas pelo mercado financeiro e para o mercado financeiro, sem falar que o próprio Banco Central, nos documentos publicados por seu Departamento de Relacionamento com Investidores e Estudos Especiais (Gerin), destaca que os dados apresentados pelo Focus não restringem as ações de política monetária e cambial do BC.

Devemos atentar, contudo, para o desequilíbrio das abordagens em cada caso. Enquanto que para diagnosticar e prognosticar o desastre do novo governo Dilma sobram números, a análise das perspectivas para o “novo tom do Planalto” sob Temer se limita a interpretar as boas intenções no discurso do interino. As críticas à administração de Dilma são contumazes mesmo quando se trata de um ato da Presidenta alinhado com a posição do editorial. A nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, por exemplo, que poderia representar uma boa escolha de Dilma de acordo com aquilo que O Globo considera como política econômica ideal, é logo ponderada pelo editorial em face do caos econômico desenhado ao longo do texto – “foi um alento, mas não significa que se espere um ano fácil”.

Em nenhum momento esse tipo de ponderação aparece em relação às perspectivas para o governo Temer. O editorial de maio parece deixar muito claro que o presidente em exercício estaria plenamente apto à missão honrosa de “pacificar e unificar o Brasil”, superando as dificuldades políticas e econômicas deixadas pela administração petista e tendo como único obstáculo a “guerra” que Dilma e o lulopetismo prometem fazer contra seu governo. Tamanha é a aposta no sucesso do novo governo que, em contraste com a ideia defendida em 2015 de que “nenhuma política social sobrevive a uma crise com as características e nas dimensões da que está emergindo no Brasil”, o editorial do último mês de maio enalteceu o aparente compromisso de Temer em manter os programas sociais de seus antecessores. Sem qualquer crítica à uma proposta que o jornal havia atribuído às “hostes petistas” no ano passado, o editorial “Otimismo com o novo tom do Planalto” destaca, em contraponto às supostas ambições de Dilma e do lulopetismo de guerrear contra o governo Temer, que o presidente interino “foi direto ao garantir a manutenção dos programas sociais”. Ora, o que mudou em pouco mais de um ano? A capacidade do país de sustentar programas sociais em meio a crise ou simplesmente a voz que os anuncia no Planalto?

Entre dois pesos e tantas medidas para legitimar a “solução Temer”, os editoriais d’O Globo não surpreendem ao sacrificar a coerência para sustentar um viés velado, pouco transparente perante o leitor. Se o otimismo com o projeto de política econômica de Temer vem assentado no que seria a capacidade do presidente interino de restabelecer a tão sonhada “confiança do mercado”, cabe ao leitor desconfiar daqueles que anunciam que tudo vai “mudar para melhor” quando o que se vê de fato é apenas uma mudança: um Presidente não eleito substituindo uma Presidenta afastada por um processo de impeachment que se torna mais questionável a cada dia.

Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.

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6 Comentários
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  1. Edivaldo Dias Oliveira

    13 de julho de 2016 7:17 pm

    O que esperar de uma imprensa

    O que esperar de uma imprensa dessas?

    Bem a cara da Abril e sua revista de esgoto, a Veja.

    Em ação trabalhista, jornalista é convidado a testemunhar contra colega demitido, falta a audiencia marcada e é multado em 2 salários minimos.

     

    Colunista da Vejinha fica “preso” em fechamento, falta em audiência e é multado pela Justiça

        Publicado em Quinta, 07 Julho 2016 15:49 Escrito por Redação Comunique-se1 Comentário 

    Um colunista da Vejinha foi multado em dois salários mínimos por faltar em audiência. A medida punitiva foi aplicada pela juíza titular da 57ª Vara do Trabalho da Capital, Luciana Bezerra de Oliveira. De acordo com apuração da reportagem do Portal Comunique-se, o jornalista ficou no fechamento do impresso. O nome do colunista será preservado nesta matéria.

    colunista-da-vejinha-fica-preso-em-fechamento-falta-em-audiencia-e-e-multado-pela-justicaA audiência estava marcada para quarta-feira, 29 de junho, no fórum da Barra Funda. O colunista foi convidado para depor como testemunha da Editora Abril em processo trabalhista movido por outro jornalista, que também trabalhava na redação da revista e foi demitido no final do ano passado. O profissional desligado da empresa abriu processo exigindo direitos como horas-extras e adicional noturno.

    Advogado do jornalista demitido, Kiyomori Mori explicou que pedidos de adiamentos de audiência pela falta de testemunha está prevista no art. 825 da CLT e são frequentes na Justiça, mas não se pode requerer de última hora. “Foi a primeira vez que vi uma testemunha faltar por causa de fechamento. A revista foi notificada da data marcada da audiência com mais de um mês de antecedência e poderia ter requerido o adiamento pelo “fechamento” da revista na quarta-feira – e não deixar para requerer justamente na última hora”.

    Kiyomori relatou à reportagem do Portal Comunique-se que a situação é ainda mais grave porque a editora fez o convite à testemunha, que acabou sendo penalizada. “A Abril já sabia que a testemunha não iria à audiência na data por orientação do seu próprio corpo jurídico, beneficiando-se da sua própria omissão. Agora, a Juíza vai decidir se vai aplicar pena de litigância de má-fé pela manobra da editora”.

  2. Severino Januário

    13 de julho de 2016 7:44 pm

    Temer é acusado de corrupção

    Temer é acusado de corrupção em diversos casos. Vamos supor que ele seja culpado em alguns deles, e seja de fato um ladrão do dinheiro público. Por ser suspeito e não investigado, qualquer cidadão tem o direito de pensar isso dele. Mas, por alguma razão “desconhecida”, as investigações contra ele não prosperam, como não prosperam contra Aécio Neves, por exemplo. Até parece que a justiça no Brasil obedece a um esquema zodiacal que está muito além e acima do céu brasileiro.

  3. j.marcelo

    13 de julho de 2016 8:05 pm

    Com Dilma afastada,a minha

    Com Dilma afastada,a minha vida PIOROU MUITO !

    A culpa era dela ? Pq isso então?

  4. JB Costa

    13 de julho de 2016 9:23 pm

    Peça-se tudo desse tipo de

    Peça-se tudo desse tipo de imprensa, menos coerência. Nenhuma novidade, portanto, nas manipulações das análises e projeções. 

    Não sei que tipo de imprensa teremos para um futuro próximo. Mas pelos menos há uma certeza absoluta: a desse nível, a que persiste em alcançar o último degrau da degradação, não resistirá até lá. 

    A VEJA já está nos estertores.  Acaba de defenestrar um dos seus símbolos maiores de “qualidade”, o dito historiador Marco Villa. Quem será o próximo da fila? 

    As Organizações Globo segue seus passos. Diferirá apenas no prazo dado o seu (ainda) poderio econômico. 

  5. Marcos Antônio

    14 de julho de 2016 12:53 am

    Cartão vermelho!

    Eles não entenderam o jogo!

    Qual empresário na hora de pagar seus impostos vai fechar os olhos e acreditar que está fazendo sua parte, quando no jornal de ontem e no da manhã de hoje fala em corrupção e BONDADES SEM LIMITES do governo para os ESCOLHIDOS!

    A tendência é que a SONEGAÇÃO BATA RECORDES!

    Ai, vão ter que aumentar impostos!

    Vão fazer como FHC que disse que, é privatizar para arrecadar e pagar as contas!

    Serão meia dúzia de grandes empresários abençoados e o restantes vão ter que andar no fio da navalha para ter suas empresas no azul!

    Os empresários cairam no conto do vigário!

    O povo se ferrou!

    Quem manda confiar em golpista…

    Se eles tinham em mente o bem DA MAIORIA…

    Eles esperavam a próxima eleição…

     

  6. Frederico69

    14 de julho de 2016 1:19 am

    não dá para esperar honestidade da parte deles!

    nem pensar!

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