4 de junho de 2026

Quando o jornalismo acerta o alvo, por Bob Fernandes

Do Terra Magazine

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Violência em SP: quando o jornalismo acerta o alvo

Bob Fernandes

Muitas vezes, ao abordar temas do cotidiano, tratamos dos erros, dos exageros e de omissões tendenciosas da imprensa, da mídia, Brasil afora. E há momento de falar da importância da mídia quando age com correção e profissionalismo. Um exemplo disso se viu em programa veiculado até o início da madrugada da quarta-feira, 14.

No Profissão Repórter, comandado pelo jornalista Caco Barcellos, ele e uma jovem equipe de repórteres produziram uma contundente reportagem. Na TV Globo, uma reportagem sobre a guerrilha que vem sendo travada nas franjas da Grande São Paulo. 

Essa guerrilha já provocou a execução de 92 PMs neste ano. E, só nos últimos 20 dias, levou a 196 homicídios. Caco Barcellos é autor de Rota 66. Esse livro, do início dos anos 90, é um clássico do jornalismo. A partir da reação ao assassinato de um grupo de jovens de classe média, o livro avança e lista mais de 4 mil mortos pela Rota à época. Muitos deles, inocentes; e ainda que não fossem. Para isso existem as leis. 

Profissão Repórter monitorou madrugadas das últimas semanas. Investigou ataques covardes e execuções de policiais militares. E abordou também a morte de civis nesse período. Assim como os PMs, muitos dos civis foram executados. Por homens com touca-ninja escondendo os rostos. Homens em carros, ou garupa de motos. Homens que matam com tiros certeiros na cabeça, muitas vezes, com munição de uso mais comum pelas forças policiais. 

Qualquer corporação que tenha 92 dos seus executados em 11 meses, mesmo a mais democrática corporação do mundo, terá dificuldade de conter o ímpeto da reação imediata e descontrolada. Se essa corporação não tiver transparência real e efetivo controle democrático, a dificuldade será ainda maior. 

As execuções de policiais provocam indignação, justa revolta e sede de justiça. É certeza que grande parte da população fecharia, fecha os olhos para retaliações. Como é fato que, sempre, esse apoio começa a se esvair quando se percebe que também inocentes estão sendo mortos. Foi assim nos anos 70, nos 80 e nos 90 com os “Esquadrões da Morte” em São Paulo e Rio de Janeiro, e tem sido assim na reação às milícias no mesmo Rio. 

Policiais inocentes estão sendo executados. Por ordem do PCC, ao menos na maioria dos casos, ao que se supõe. E civis inocentes estão morrendo nessa guerrilha. 

Esses ciclos só costumam ser interrompidos quando os mortos deixam de ser mera estatística. Quando, por algum motivo, mortos ganham rosto e nome. Ou, sobrenome, como no caso daqueles jovens da classe média paulista mortos pela Rota nos anos 90. Esses ciclos de violência sem controle só são brecados quando cada um de nós entende que o morto poderia ser nosso filho, nosso irmão, pai ou mãe. Seja ele um policial, seja ela ou ele um civil. 

Esses ciclos, de mortos se empilhando nas ruas, podem ser interrompidos. Podem quando, por exemplo, jornalistas como Caco Barcellos e sua jovem equipe cumprem o seu papel de repórteres. Quando conseguem cumprir sua missão de informar como repórteres, como jornalistas independentes.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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