Por Maíra Vasconcelos, especial para o Blog
A conferência de Cristina Kirchner, na Universidade de Harvard, na última quinta-feira, foi reproduzida pelos meio de comunicação em formato radical, seja os que estão alinhados, seja os que estão contra o governo. Diante de um discurso que, sim, merece críticas, a imprensa local fez novamente do jornalismo uma reafirmação dos seus posicionamentos políticos.
Ao ler o “Clarín” e o “La Nación”, o “Página 12” e o “Tiempo Argentino”, fica evidente que, enquanto os primeiros carregam a presidente de ares ditatoriais e manipuladora dos índices da maior inflação global, os segundos caem em afirmações de perseguição oposicionista que, dizem, chegou até mesmo em Harvard.
Fato é que a presidente argentina não considerou utilizar nenhum tipo de requisito formal especial, norma discursiva e apresentação específica para o público e o ambiente, no caso acadêmico norte-americano. Cristina Kirchner foi, em Harvard, a mesma mandatária que é ao discursar em cadeia nacional. Nesse ponto, Cristina padeceu de uma assessoria? Independente de qual seja seu estilo, se é de agrado ou não, um estadista jamais poderia deixar de utilizar a linguagem correta sempre pensada e articulada para determinado público, pois é por meio da mesma que se materializa a identidade do orador.
Se Cristina Fernández, ao que parece, quis conversar de igual para igual com os estudantes, ao mesmo tempo essa via horizontal na relação com os interlocutores a atirou em situações de confronto. Colocou-se em pé de igualdade sem ter jogo de cintura para escapar sem afrontar com os estudantes sobre assuntos questionáveis comuns de todo governo.
Um aluno de Harvard questiona a necessidade de autocrítica em um governo e que o mesmo permita “esse tipo de conferência onde se pode expressar mais claramente com perguntas”. A presidente evita conceder conferência de imprensa, e lhe resulta natural e convincente explicar sua ausência ao dizer que demais membros do governo a substituem, e que a mesma opta por fugir das interpretações negativas e infundadas propagadas pela grande mídia.
“Meus funcionários fazem conferências quase todos os dias. Digo branco e sai publicado no outro dia que eu disse negro”. “Agora, dar conferência todos os dias não me parece que seja a obrigação de uma presidente, eu tenho que governar. Conferências dão meus funcionários, eles falam todos os dias”. E ressaltou sua última conferência de imprensa, com a visita de Hillary Clinton, sem mencionar a data, mas que aconteceu em março de 2010.
Há um desequilíbrio em número de aparições presidenciais em conferências de imprensa e em rede nacional. A quantidade de vezes que Cristina Kirchner faz uso da última possibilidade de comunicação – soma 16 discursos no transcorrer deste ano – é em sobressalto superior à voz cedida aos jornalistas.
Mas o maior escândalo feito pelos monopólios “Clarín” e “La Nación” se refere à resposta da presidente a um estudante argentino que perguntou por que o país utiliza o “cepo cambiário”, enquanto países como Brasil e Chile não fazem uso de igual medida e logram crescimento econômico. Ademais de outras explicações sobre a política cambiária do país, lhe deixou um recado em particular. “Você é argentino e está aqui. Problema de dólares não deve ter. Você sabe a quantidade de argentinos que nem sequer podem chegar até a “Universidade de La Matanza”, nunca? Você tem a sorte de estar estudando em Harvard. E pensa que pode falar sobre cepo cambiário estudando em Harvard? Não lhe parece injusto com os nossos argentinos?”
Para os dois grandes veículos, Cristina Fernández menosprezou os estudantes e a instituição de ensino de “La Matanza”, região da Área Metropolitana de Buenos Aires (AMBA).
O “La Nación” e o “Clarín” usam e abusam do fato, leem de todos os ângulos até exaurir todas as possibilidades de convencer a opinião a escrachar a presidente. Mas se é notório que, como uma estadista, Cristina Kirchner poderia ter se saído muito melhor no debate com os alunos, também ela deixou claro que é uma representante dos 40 milhões de argentinos, posicionando-se com o modo ousado contestatório cultural dos hermanos.
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