5 de junho de 2026

A tradição gaúcha no litoral norte do estado

Por Bolívar Gomes de Almeida

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Comentário ao post “Gauchismo e o Movimento Tradicionalista Gaúcho”

Nasci e cresci no litoral norte gaúcho, descendente de açorianos. Região mujito diferente da Campanha, de onde se origina o ‘ideário farroupilha’, segundo a cartilha do MTG. Embora haja CTGs em todos os municípios da minha região, repetindo tal cartilha, sinto-me pouco a vontade até mesmo com o excessivo consumo de carne, visto que me criei comendo muito peixe do rio Maquiné e sobretudo da lagoa dos Quadros. No entanto, sinto-me a vontade para falar no assunto, em hora boa não por se tratar da data tão ciosamente comemorada, mas por ser nosso país, não só o RS, mais chegado a um ‘arreglo’ do que ao debate proveitoso, responsável, do que nos caracteriza como nação e suas partes. Ainda desconhecemos em grande parte, nossa realidade. Constantemente, interesses poderosos manipulam as consciências como, por exemplo, na tal de falta de memória que caracterizaria nosso povo. Se por um lado é verdade que muitos eleitores, passadas as eleições, não lembram em quem votaram, também é verdade que milhões lembram dos erros cometidos e buscam repeti-los. Quem acompanha os sucessivos processos eleitorais, pode verificar isso. Claro está que o processo histórico, do qual faz parte a democracia representativa como a temos praticado, se renova; que a capacidade de mascarar a realidade, mostrando um morcego como beija-flor, é um fato, pela concentração do sistema comunicacional em poucas mãos, dificultando ao máximo a renovação segundo as necessidades dos ‘de baixo’ e permitindo aos ‘de cima’ o controle das mudanças conforme a máxima de Lampedusa. Exemplos da memória popular não faltam no nosso Brasil, como é o caso da presença da Rainha Jinga no folclore, desde o Rio Grande do Sul até o Maranhão.

Saúdo, pois, as diversas manifestações propiciadas pelo 20 de Setembro gaúcho. Longe de me considerar autoridade no assunto, quero apenas lembrar alguns aspectos, como a ‘identificação’ de tantos descendentes de imigrantes com a ideologia do MTG. Como surgiu isso? Como justificar tal coisa? O que leva os descendentes de quem chegou ao Brasil, fugindo da fome na Europa no último quartel do século XIX, a se sentirem partícipes dos costumes da faixa de fronteira, palco dos acontecimentos mitificados pelo cetegismo? Atração pelo exótico? Talvez isso explique a aceitação dos CTGs no Japão…

Por outro lado, o surgimento do primeiro CTG justo quando a hegemonia dos EUA suplanta a inglesa, será mero acaso? Logo após a Segunda Grande Guerra, embalado pelo cinema, pelas agências de publicidade, o imperialismo ianque ocupa, com estardalhaço, o lugar da ‘pérfida Albion’ em definitivo, visto que já se impusera nas trocas comerciais. Que reações isso provocou, no plano simbólico?

O que tenho são perguntas, mais que tudo. E como os preconceitos causam-me urticária, convido a quem se interessar, a buscar as respostas também para o fato de ter sido Porto Alegre a primeira capital de estado, no Brasil, a eleger um prefeito de origem africana, em 1985. O mesmo foi eleito governador, do Rio Grande do Sul, em 1990. Como foi possível, se somos um estado ‘racista’ e os negros, segundo o IBGE, menos de 20% do total da população?

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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