
Caros geonautas,
Debate de lançamento do livro de Andre Singer, “Os Sentidos do Lulismo”, hoje na FFLCH-USP, 17:30.
“Nada se entende fora da história” (Alfredo Bosi), uma pergunta, reflexão e provocação sobre o “estado de negação” de parte do pensamento de esquerda (e sua visão míope e cartesiana-burra), na qual o principal ponto de sua “inteligentsia estúpida”, é servir como massa de manobra dentro da estratégia secular do “Estamento” ultra-conservador nacional.
São três pontos:
– Oswald de Andrade, o “anti-herói”.
– Cenas do filme “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha, e
– O ponto em comum entre o intelectual marxista, Professor Francisco de Oliveira e o jornalista representante do setor proto-fascista nacional, Diego Mainardi.
1- Sobre Oswald de Andrade: Gostaria de citar o Professor Antonio Candido na FLIP do ano passado (2011), ele falou sobre o amigo e “anti-herói”, Oswald de Andrade, e contou sobre suas duas tentativas fracassadas de ser Professor na FFLCH, a jovem Universidade de São Paulo, barrado pelo conservadorismo paulista, universidade que nasceu com o nome de “Universidade da Comunhão Paulista”.
Tese concurso (1945): “A Arcádia e a Inconfidência”, para cadeia de Literatura Brasileira na FFLCH-USP.
Tese concurso (1950): “A Crise da Filosofia Messiânica”, para a cadeira de Filosofia da FFLCH-USP.
A obra de Oswald de Andrade, e sua “A Crise da Filosofia Messiânica” (1950), é uma mistura de Marx, Nietzsche, Freud e o Pensamento Selvagem, que constitui hoje uma parte de fundamental importância para entendermos a crise da civilização hoje, segundo o antropólogo, Eduardo Viveiros de Castro e o músico e Professor da FFLCH, José Miguel Wisnik. Um pensamento não acadêmico, todo ele constituído fora da academia.
(…) “Oswaldo de Andrade foi muito confundido, desde que ele foi redescoberto nos anos 60, e virou uma coisa que todo mundo sabe, que corre nas veias, que a antropofagia é a mistura de tudo com tudo, uma maionese geral, em que se pode misturar isso com aquilo que está tudo bem. Isso é uma bobajada que não corresponde à originalidade e a força do pensamento de Oswald de Andrade, na qual nós estamos muito atrasados na leitura de seus escritos.”
José Miguel Wisnik, (Des)Construção do futuro,
Ciclo Mutações – O futuro não é mais o que era. Agosto, 2012.
Antonio Candido disse sobre Oswald de Andrade: “Ele vale mais que mil escolas”.
2- Cenas de “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha. Uma obra prima, visionária e profética, em contraposição a visão míope da esquerda cartesiana- burra.
No filme, entre 1:15 a 1:25: O ENCONTRO DO LIDER COM O POVO
Cena 1: O personagem é um sindicalista de nome Jerônimo (José Marinho), que é indagado para falar pelo representante da elite branca, dizendo:
Elite branca: – Não tenha medo meu filho, fale, você é o povo, fale:
Jerônimo olha por todo lado e diz:
–Eu sou um homem pobre, um operário, sou presidente do meu sindicato, estou na luta das classes, acho que tá tudo errado, e eu não sei mesmo o que fazer. O país está numa grande crise e o melhor e aguardar a ordem do Presidente.
Cena 2, “um soco no estômago”:
O intelectual engajado de esquerda, de nome Paulo Martins (papel de Jardel Filho, inspirado no jornalista Janio de Freitas). A cena mostra o personagem chegando por trás do operário-sindicalista, tapando a boca com uma mão e com a outra segurando a nuca do operário, olhando diretamente para câmara, em close, diz:
– Estão vendo o que é o povo, um imbecil, um analfabeto, um despolitizado. Já pensaram um Jerônimo no poder?
3- Francisco de Oliveira e Diego Mainardi: Ambos, o Professor e o jornalista em recentes programas de TV, Roda Viva da TV Cultura, disseram: “O Lula é sem caráter”.
Com a memória de Oswald de Andrade, o anti-herói que admitiu a inveja sobre o livro Macunaíma -“o herói sem nenhum caráter”, de Mário de Andrade, dizendo, um livro que gostaria de ter escrito, “o soco no estômago” de “Terra em Transe”, o ponto em comum entre Francisco de Oliveira e Diego Mainardi, os vários personagens de nossa literatura que não tem pai, ou pai ausente, como Macunaíma, Riobaldo (Guimarães Rosa), e Paul Valéry:
(…) “A tarefa política primordial consiste, pois, em desdobrar o trabalho do espírito, não ficar apenas nos pensamentos propostos pelo espírito (isso a tecnociência faz de forma admirável), mas ir às leis do espírito e das próprias coisas. Mais: é evidente que vivemos a era dos fatos. Falta ao mundo aquilo que Valéry designa, no ensaio A política do espírito, como mitos, ou coisas vagas (ideais políticos, utopias etc.). Não há política sem mitos, diz ele, uma vez que toda sociedade só existe, funcionalmente, à base de mitos: “…toda estrutura social é fundada sobre a crença ou sobre a confiança. Todo poder se estabelece sobre propriedades psicológicas. Pode-se dizer que o mundo social, o mundo jurídico, o mundo político são essencialmente mundos míticos, isto é, mundos cujas leis, as bases, as relações que as constituem, não são dados, propostos pela observação das coisas, por uma constatação, por uma percepção direta; mas, ao contrário, recebem sua existência, sua força, sua ação de impulsão e de repressão; esta existência e esta ação são tão mais potentes quanto mais ignorarmos que elas vêm de nós, de nosso espírito”.”
ADAUTO NOVAES_O futuro não é mais o que era (3. ESPÍRITO DO TEMPO), junho 2011. (link do texto aqui)
Pergunto:
O Lula “é sem caráter”, ou “herói sem nenhum caráter”?
Até quando a esquerda cartesiana, burra e acadêmica, vai continuar em ‘estado de negação’ sobre a nova realidade do Brasil nesse início de século XXI?
A salvação da lavoura e a construção do caminho é pela riqueza da cultura do povo e sua nova elite nascente.
Quem viver verá!
Sds,
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