4 de junho de 2026

Selic de um dígito ao fim do ciclo de queda de juros?

Paulo Tenani
Valor Econômico – Primeiro Caderno – Opinião – 04/01/2007

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Para quanto deverá ceder a Selic ao fim do atual ciclo de redução nas taxas de juros? Na nossa opinião, bem mais do que os tímidos 11,75% esperados pelo mercado e talvez até mesmo abaixo dos 10%. Os números contam a história. Desde 1996 o Brasil pagou, em média, “yields” de 13,5% para convencer investidores a comprar títulos de sua dívida externa soberana – em dólares e no mercado internacional. “Yields” assim tão elevados impunham forte limitação sobre quanto a Selic podia ceder, sem que uma bolha especulativa explodisse no mercado de câmbio. Neste sentido, toda vez que a Selic caía abaixo de certo patamar, usualmente ao redor dos 18,5%, o real enfraquecia, forçando o Banco Central a aumentar os juros.

Bem, os humores mudaram e a situação atual não podia ser mais diferente. Cortesia da globalização e da boa gerência macroeconômica, o Brasil paga hoje “yields” de 6,6% – o mínimo histórico – para convencer investidores a comprar títulos da dívida externa soberana. Nestas circunstâncias, uma Selic a 10% seria mais do que suficiente para compensar todos os custos e riscos de investir no mercado doméstico. No entanto, o argumento vai além. Uma Selic acima de 10%, na verdade, é um prêmio exagerado para risco cambial no Brasil, o que levaria investidores a internalizar seus recursos ao invés de investir, em dólares, à 6,6%, no mercado global. Ou seja, a taxa de câmbio – na realidade a apreciação cambial – é a variável chave que irá forçar a redução da Selic para 10%; uma situação que está em forte contraste com o passado recente, quando este mesmo câmbio forçava o Banco Central a subir, e não baixar, os juros. Pois enfim! A globalização está hoje agindo na direção de juros consideravelmente mais baixos no Brasil. E os investidores, ao aceitarem “yields” de 6,6%, estão mandando uma importante mensagem: de que também aceitariam uma Selic bem mais baixa.

Mas o que uma Selic a 10% significaria para a inflação? Em um artigo recente, “Selic a 10% não é inflacionária” defendi que, nas circunstâncias atuais, uma Selic neste patamar não traria riscos de inflação:

1) com “yields” a 6,6%, uma Selic a 10% não resultaria em bolha especulativa no câmbio;

2) os riscos de inflação de demanda seriam limitados, uma vez que o Brasil apresenta forte superávit em conta corrente o que, por definição, significa que a oferta agregada é maior – e não menor – do que a demanda doméstica;

3) e, finalmente, o Brasil sofre hoje, na realidade, com um excesso de demanda global por PIB brasileiro. Nada a ver com a demanda doméstica. E isto, em um regime de taxas de câmbio flexíveis, resulta em uma apreciação cambial, não em inflação de demanda.

Porém, existem divergências. Em um artigo de 29/11/2006, “Selic a 10% não é inflacionária?”, meu amigo e ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartsman, questiona a visão do UBS-Pactual Wealth Management de que uma Selic a 10% não traria pressões de preços. Schwartsman faz três considerações:

1) que existem riscos de inflação de demanda mesmo com um superávit em conta corrente – e aqui ele cita o caso da Argentina, que apesar do superávit apresenta uma inflação acima de 10%; 2) que a aritmética da convergência dos juros não é tão automática quanto faço parecer; 3) e que, no final das contas, é o Banco Central, e não a aritmética da convergência dos juros, que determinam a Selic de equilíbrio. São três pontos interessantes e bem argumentados. Porém, como pretendo explicar, nenhum deles invalida a hipótese de que, nas condições atuais do Brasil, uma Selic a 10% não é inflacionária.

Comecemos com o item 1) inflação de demanda na presença de um superávit em conta corrente. Existem diferenças e similaridades entre Brasil e Argentina e são as diferenças que importam. Por exemplo, o regime de câmbio. Taxas flexíveis na Argentina? Desde março de 2003, quando as pressões para o fortalecimento do peso tornaram-se claras, a Argentina procura evitar uma apreciação cambial. E, na verdade, o peso oscilou muito pouco: 3,05 em 12/2006, 3,03 em 12/2005 e 2,96 em 12/2004. No mesmo período, o real apreciou-se 20%, enquanto os preços das commodities no mercado mundial aumentaram 43%, com as agrícolas subindo 51%. Estaria a Argentina sofrendo de “inflação importada”, um fenômeno típico de países com taxas fixas de câmbio? O Brasil, com taxas flexíveis, tem uma dinâmica muito distinta, especialmente se o modelo for bem especificado: PIB nominal determinado no mercado monetário e taxa de câmbio nominal – não a real – no mercado de bens. E é justamente neste sentido que, com um superávit em conta corrente de 1,6% do PIB e taxas flexíveis de câmbio, a preocupação com inflação de demanda é exagerada.

Sobre os itens 2) e 3), concordo com Schwartsman sobre o papel atribuído ao Banco Central na determinação da Selic de equilíbrio. Isto é, a previsão de Selic a 10% simplesmente não seria viável se o Banco Central brasileiro fosse menos disciplinado e não tivesse ancorado as expectativas de inflação nos baixos patamares atuais. Neste sentido, a boa gestão macroeconômica teve um papel preponderante para a possibilidade da Selic atingir 10%. Porém, reconhecer que o Banco Central tem papel preponderante na determinação da Selic não significa acreditar que este papel se estenda também para a determinação das taxas de juros reais. Aqui, a aritmética da convergência dos juros reina quase soberana pois, em termos reais, arbitragem internacional garante que o Brasil paga aqui dentro tanto quanto é pago lá fora ajustado por todos os custos e riscos. Tudo mais se molda a esta restrição, inclusive o câmbio e a inflação. O Banco Central pode, é claro, afetar a dinâmica de transição dos juros reais. Mas é só. Portanto, no sentido de que os “yields” brasileiros estão hoje em 6,6% – o que resulta em juros reais historicamente baixos – e o Banco Central já ancorou as expectativas de inflação em patamares próximos a 4%, uma Selic a 10% é perfeitamente viável, sem riscos de inflação

Para concluir com um tom ainda mais positivo. Segundo recente estudo do UBS Wealth Management, “Global Outlook”, o ano de 2007 será marcado por forte desaceleração da economia americana e queda acentuada dos juros mundiais – um importante componente dos “yields” brasileiros. Na verdade, para 2007, o UBS espera um crescimento de apenas 2% para os Estados Unidos e uma FED Funds de 4%, 1,25 pontos percentuais abaixo dos 5,25% atuais. Melhor. Tal desaceleração da economia americana não será acompanhada nem por uma queda no preço das commodities nem por um aumento na aversão ao risco, como usualmente acontece durante as recessões. O que ocorre é que, na opinião do UBS, o crescimento mundial de longo prazo – que ultimamente determina preço de commodities e grau de aversão ao risco – será mantido, com os países emergentes substituindo os Estados Unidos como motor do crescimento. Ou seja: juros americanos em queda, aversão ao risco controlada e preços de commodities elevados. Uma conjunção de fatores particularmente favorável para o Brasil, que está a caminho de pagar “yields” abaixo dos 6% em 2007. E isto, pela aritmética da convergência dos juros, resultaria em uma Selic abaixo dos 10% ao fim do ciclo de queda de juros. Rumo a uma Selic de um dígito?

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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16 Comentários
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  1. Luis Nassif

    4 de janeiro de 2007 2:14 pm

    Sem comparação. O Tenani sabe
    Sem comparação. O Tenani sabe focar nos pontos essenciais do modelo e chuta a gol. O Schwartsman se limita a fazer embaixadas no meio campo.

  2. Guilherme Estrada Ro

    4 de janeiro de 2007 2:52 pm

    Caro Nassif,
    Tenho
    Caro Nassif,
    Tenho acompanhado o intenso debate travado na “aba de economia”. No entanto, tenho me apercebido de um detalhe> Sempre que se apresentam opiniões são relacionados objetivos finais sem levar em consideração a dinâmica necessária para atingí-los. Explico melhor: SELIC a 10% pode ser desejável e viável se houverem condições de obtê-la. No entanto, temos que considerar a necessidade de analisar a dinâmica do processo econômico para o alcance dessa meta com a contínua modificação das relações entre os diversos fatores econômicos componentes desse mesmo processo. Tal análise não vi feita ainda.

  3. Roberto S:ao Paulo-S

    4 de janeiro de 2007 4:46 pm

    Coma eleição definida e com
    Coma eleição definida e com os atuais indicadores econômicosos juros da taxa Selic continuarão em queda, a velocidade será determinada pelo ritmo da inflação e pelo ritmo de crescimento do PIB.

  4. marco aurélio garcia

    4 de janeiro de 2007 4:46 pm

    1) O Tenani, profissional do
    1) O Tenani, profissional do mercado financeiro (bicho papão para alguns), UBS, professor de finanças da FGV -SP. Por profissão é um profissional que dispõe das melhores informações (inclusive vive o dia a dia). Seu artigo é brilhante. Corrigiu a definição de demanda (agora explicou que existe a demanda interna e externa). Podemos ter uma queda na demanda interna e uma subida na demanda externa (ou o inverso). Conhece com profundidade o movimento de capitais (caixa dois ) da América Latina (os bancos são os conselheiros dos detentores de caixa dois no exterior).
    2) Não se definiu como economista, portanto acredito que não estarei ferindo o código de ética. Sua lógica não utiliza os conhecimentos de teoria econômica, apenas os do mundo financeiro, o que não tira o brilho de seus artigos.
    3) A TAXA NATURAL DE JURO (DE EQUILÍBRIO OU NEUTRA) de um país, a que serve de base para a definição da taxa básica interna (SELIC) não é fixada baseada na taxa internacional para este mesmo país (é o ambiente interno, principalmente, e o externo que definem). Os exemplos no mundo são incontáveis. A taxa internacional para o país serve como limitador inferior apenas se o país estiver com problema no Balanço de Pagamentos.
    4) TAXA DE JURO INTERNA DE EQUILÍBRIO (um cálculo para a jabuticaba). A taxa de básica de juro de equilíbrio pode ser considerada a de longo prazo para os títulos públicos federais. A SELIC se for fixada acima desta taxa estará segurando a demanda e os preços, abaixo estimulando (esta é a medida). O grande problema é ter o conhecimento de mercado para saber o momento de virar sem provocar inflação (o resto é desconhecer teoria econômica). Estoques, capacidade instalada ociosa, fatores de produção, câmbio, preços internacionais, segurança, etc. Os USA colocaram sua taxa básica acima das de longo prazo (5,25%). Inverter tendência de inflação.
    5) A taxa básica sozinha não é certeza de crescimento econômico (vide Japão 10 anos com taxa zero).
    6) A previsão de SELIC abaixo de 10% sem provocar movimento ascendente de inflação (com reversão difícil e cara): torço para que a previsão seja correta (mas duvido).

  5. pedro

    4 de janeiro de 2007 7:52 pm

    enquanto isso o Claudio
    enquanto isso o Claudio Haddad está preocupado com a queda da TJLP e o aumento do salário mínimo, por motivos um tanto quanto estapafúrdios na minha modesta opinião. dá para acreditar?

  6. Saile Marques

    4 de janeiro de 2007 7:52 pm

    Nassif,

    10 Paulo Tenani x 0
    Nassif,

    10 Paulo Tenani x 0 Alexandre Srek-Man

    Qual o efeito de uma SELIC abaixo de 10 % no mercado financeiro ?

    Vejo que com a queda da SELIC a Poupança esta voltando a ser um investimento interessanto, o que aconteceria no cenário da SELIC a 10 %.

  7. Luis Nassif

    4 de janeiro de 2007 9:54 pm

    Nosso problema não é a
    Nosso problema não é a ortodoxia, são os ortodoxos incompetentes, Hamilton.

  8. Luis Nassif

    5 de janeiro de 2007 12:57 am

    O Tenani é do mercado,
    O Tenani é do mercado, Adauto. E o Banco Central é a autoridade máxima no mercado.

  9. Roberto São Paulo-SP

    5 de janeiro de 2007 2:10 am

    Creio que a melhor saída para
    Creio que a melhor saída para os setores com dificuldades em virtude do atual patamar do câmbio,possa ser uma maior integração da America do Sul, com a transferência destes setores para outros paises da região,ajudando no crescimento econômico destes paises e abrindo mercado para produtos de Brasileiros com maior capacidade de competição com o atual patamar do câmbio.

  10. Saile Marques

    8 de janeiro de 2007 4:32 pm

    Nassif,
    Este momento de baixa
    Nassif,
    Este momento de baixa inflação e queda de juros, não seria o momento adequado para medidas mais radicais, como o FIM DA TR – TAXA REFERÊNCIAL?

  11. ADNAN EL KADRI

    8 de janeiro de 2007 8:42 pm

    Nassif,
    O artigo anterior do
    Nassif,
    O artigo anterior do Paulo Tenani que tenho gravado “Selic a 10% não é inflacionária” é muito claro. Entendo que é um divisor de águas na clareza dos argumentos. É de fato uma análise real fincada nos fatos, portanto, realista e com todos os argumentos e fundamentos para manter o viés de baixa de 50 pontos a cada reunião do COPOM. É o momento. É a hora de prosseguir no mesmo ritmo de queda da Selic.

  12. Rogério Maestri

    8 de janeiro de 2007 8:43 pm

    Caro Nassif
    Acho que tem um
    Caro Nassif
    Acho que tem um assunto que deve se começar a falar pois pode ser um grande nó na queda dos juros. POUPANÇA. 6% ao ano, incentivo no imposto de renda, mais correção monetária, quanto que é isto?
    Por mais que o Banco Central fique sentado em cima dos juros, para não descer é claro, eles vão descer (os juros, felizmente, não o pessoal do BC, infelizmente), e quando chegar próximo desse limite o que será feito?
    Se a discussão começar cedo, por exemplo, atrelando à poupança a taxa básica de juros (que no momento seria um ganho para o poupador), quando esta começar a baixar dos 10%, não haverá problemas.
    Essa discussão tem que começar logo, pois seria um caminho para o futuro.
    Lembro que taxas de 2% a 4% na poupança são taxas de primeiro mundo e permitem o financiamento da construção a prazos longos (30anos ou mais).

  13. Saile Marques

    9 de janeiro de 2007 5:02 pm

    Caro Rogério Maestri
    Com a
    Caro Rogério Maestri
    Com a queda dos juros vários Fundos de Investimento vem perdendo a competitividade frente a Poupança, que vem captando cada vez mais recursos.
    Principalmente no caso do pequeno investidor, que paga uma taxa de Administração mais alta.
    Consideremos ainda o Imposto de Renda que reduz ainda mais a rentabilidade.
    A Poupança vem se tornando cada vez mais rentável, porém este é um problema sério para os bancos, uma vez, que grande parte dos depósitos ficam retidos no Banco Central.

  14. noe

    9 de janeiro de 2007 5:02 pm

    Saile Marques

    Neste momento
    Saile Marques

    Neste momento de baixa inflação e queda de juros, o momento é mais adequado para medidas mais radicais, como o FIM DA CORREÇÂO MONETÀRIA, se voce perceber bem vai vê-la muito viva para corrigir o capital e os preços ao consumidor, e muito afastada da remuneração do trabalho. Voce perceberá quantos falam em rentabilidade REAL em lugar de rentabilidade em R$. Quem fatura em dólar, euro, libra e etc, não costuma deduzir correção monetária dessas moedas em seus balanços, um conceito estranho para suas economias de origem, coisa nossa, criatura renegada pelos seu criador em nossa terra.

  15. Saile Marques

    9 de janeiro de 2007 8:04 pm

    Noe

    Estou de acordo com o
    Noe

    Estou de acordo com o fim da TR e a correção dos contratos pelo IGPM.

    O fim da correção monetária iria fazer com que os juros pagos no Brasil convergeriam para uma realidade mundial.

    Com inflação abaixo de 4 % ao ano a correção de preços pela TR, IGPM ou outro índice qualquer não serve para nada.

  16. Saile Marques

    12 de janeiro de 2007 1:28 pm

    Saiu o IPCA de 2.006 – 3,14
    Saiu o IPCA de 2.006 – 3,14 %, ou seja, 1,36 % abaixo da meta do governo.
    O que nos custou em crescimento da economia estes 1,36 % ?
    Agora o BC que está no CORNER levou um direto do ALI, pois este valor indica que poderia baixar os juros muito mais do que tem feito (pelo menos os 1,36 % numa pancada só).
    E mesmo assim deixaria a SELIC muito longe da inflação real.

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