Paulo Tenani
Valor Econômico – Primeiro Caderno – Opinião – 04/01/2007
Para quanto deverá ceder a Selic ao fim do atual ciclo de redução nas taxas de juros? Na nossa opinião, bem mais do que os tímidos 11,75% esperados pelo mercado e talvez até mesmo abaixo dos 10%. Os números contam a história. Desde 1996 o Brasil pagou, em média, “yields” de 13,5% para convencer investidores a comprar títulos de sua dívida externa soberana – em dólares e no mercado internacional. “Yields” assim tão elevados impunham forte limitação sobre quanto a Selic podia ceder, sem que uma bolha especulativa explodisse no mercado de câmbio. Neste sentido, toda vez que a Selic caía abaixo de certo patamar, usualmente ao redor dos 18,5%, o real enfraquecia, forçando o Banco Central a aumentar os juros.
Bem, os humores mudaram e a situação atual não podia ser mais diferente. Cortesia da globalização e da boa gerência macroeconômica, o Brasil paga hoje “yields” de 6,6% – o mínimo histórico – para convencer investidores a comprar títulos da dívida externa soberana. Nestas circunstâncias, uma Selic a 10% seria mais do que suficiente para compensar todos os custos e riscos de investir no mercado doméstico. No entanto, o argumento vai além. Uma Selic acima de 10%, na verdade, é um prêmio exagerado para risco cambial no Brasil, o que levaria investidores a internalizar seus recursos ao invés de investir, em dólares, à 6,6%, no mercado global. Ou seja, a taxa de câmbio – na realidade a apreciação cambial – é a variável chave que irá forçar a redução da Selic para 10%; uma situação que está em forte contraste com o passado recente, quando este mesmo câmbio forçava o Banco Central a subir, e não baixar, os juros. Pois enfim! A globalização está hoje agindo na direção de juros consideravelmente mais baixos no Brasil. E os investidores, ao aceitarem “yields” de 6,6%, estão mandando uma importante mensagem: de que também aceitariam uma Selic bem mais baixa.
Mas o que uma Selic a 10% significaria para a inflação? Em um artigo recente, “Selic a 10% não é inflacionária” defendi que, nas circunstâncias atuais, uma Selic neste patamar não traria riscos de inflação:
1) com “yields” a 6,6%, uma Selic a 10% não resultaria em bolha especulativa no câmbio;
2) os riscos de inflação de demanda seriam limitados, uma vez que o Brasil apresenta forte superávit em conta corrente o que, por definição, significa que a oferta agregada é maior – e não menor – do que a demanda doméstica;
3) e, finalmente, o Brasil sofre hoje, na realidade, com um excesso de demanda global por PIB brasileiro. Nada a ver com a demanda doméstica. E isto, em um regime de taxas de câmbio flexíveis, resulta em uma apreciação cambial, não em inflação de demanda.
Porém, existem divergências. Em um artigo de 29/11/2006, “Selic a 10% não é inflacionária?”, meu amigo e ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartsman, questiona a visão do UBS-Pactual Wealth Management de que uma Selic a 10% não traria pressões de preços. Schwartsman faz três considerações:
1) que existem riscos de inflação de demanda mesmo com um superávit em conta corrente – e aqui ele cita o caso da Argentina, que apesar do superávit apresenta uma inflação acima de 10%; 2) que a aritmética da convergência dos juros não é tão automática quanto faço parecer; 3) e que, no final das contas, é o Banco Central, e não a aritmética da convergência dos juros, que determinam a Selic de equilíbrio. São três pontos interessantes e bem argumentados. Porém, como pretendo explicar, nenhum deles invalida a hipótese de que, nas condições atuais do Brasil, uma Selic a 10% não é inflacionária.
Comecemos com o item 1) inflação de demanda na presença de um superávit em conta corrente. Existem diferenças e similaridades entre Brasil e Argentina e são as diferenças que importam. Por exemplo, o regime de câmbio. Taxas flexíveis na Argentina? Desde março de 2003, quando as pressões para o fortalecimento do peso tornaram-se claras, a Argentina procura evitar uma apreciação cambial. E, na verdade, o peso oscilou muito pouco: 3,05 em 12/2006, 3,03 em 12/2005 e 2,96 em 12/2004. No mesmo período, o real apreciou-se 20%, enquanto os preços das commodities no mercado mundial aumentaram 43%, com as agrícolas subindo 51%. Estaria a Argentina sofrendo de “inflação importada”, um fenômeno típico de países com taxas fixas de câmbio? O Brasil, com taxas flexíveis, tem uma dinâmica muito distinta, especialmente se o modelo for bem especificado: PIB nominal determinado no mercado monetário e taxa de câmbio nominal – não a real – no mercado de bens. E é justamente neste sentido que, com um superávit em conta corrente de 1,6% do PIB e taxas flexíveis de câmbio, a preocupação com inflação de demanda é exagerada.
Sobre os itens 2) e 3), concordo com Schwartsman sobre o papel atribuído ao Banco Central na determinação da Selic de equilíbrio. Isto é, a previsão de Selic a 10% simplesmente não seria viável se o Banco Central brasileiro fosse menos disciplinado e não tivesse ancorado as expectativas de inflação nos baixos patamares atuais. Neste sentido, a boa gestão macroeconômica teve um papel preponderante para a possibilidade da Selic atingir 10%. Porém, reconhecer que o Banco Central tem papel preponderante na determinação da Selic não significa acreditar que este papel se estenda também para a determinação das taxas de juros reais. Aqui, a aritmética da convergência dos juros reina quase soberana pois, em termos reais, arbitragem internacional garante que o Brasil paga aqui dentro tanto quanto é pago lá fora ajustado por todos os custos e riscos. Tudo mais se molda a esta restrição, inclusive o câmbio e a inflação. O Banco Central pode, é claro, afetar a dinâmica de transição dos juros reais. Mas é só. Portanto, no sentido de que os “yields” brasileiros estão hoje em 6,6% – o que resulta em juros reais historicamente baixos – e o Banco Central já ancorou as expectativas de inflação em patamares próximos a 4%, uma Selic a 10% é perfeitamente viável, sem riscos de inflação
Para concluir com um tom ainda mais positivo. Segundo recente estudo do UBS Wealth Management, “Global Outlook”, o ano de 2007 será marcado por forte desaceleração da economia americana e queda acentuada dos juros mundiais – um importante componente dos “yields” brasileiros. Na verdade, para 2007, o UBS espera um crescimento de apenas 2% para os Estados Unidos e uma FED Funds de 4%, 1,25 pontos percentuais abaixo dos 5,25% atuais. Melhor. Tal desaceleração da economia americana não será acompanhada nem por uma queda no preço das commodities nem por um aumento na aversão ao risco, como usualmente acontece durante as recessões. O que ocorre é que, na opinião do UBS, o crescimento mundial de longo prazo – que ultimamente determina preço de commodities e grau de aversão ao risco – será mantido, com os países emergentes substituindo os Estados Unidos como motor do crescimento. Ou seja: juros americanos em queda, aversão ao risco controlada e preços de commodities elevados. Uma conjunção de fatores particularmente favorável para o Brasil, que está a caminho de pagar “yields” abaixo dos 6% em 2007. E isto, pela aritmética da convergência dos juros, resultaria em uma Selic abaixo dos 10% ao fim do ciclo de queda de juros. Rumo a uma Selic de um dígito?
Luis Nassif
4 de janeiro de 2007 2:14 pmSem comparação. O Tenani sabe
Sem comparação. O Tenani sabe focar nos pontos essenciais do modelo e chuta a gol. O Schwartsman se limita a fazer embaixadas no meio campo.
Guilherme Estrada Ro
4 de janeiro de 2007 2:52 pmCaro Nassif,
Tenho
Caro Nassif,
Tenho acompanhado o intenso debate travado na “aba de economia”. No entanto, tenho me apercebido de um detalhe> Sempre que se apresentam opiniões são relacionados objetivos finais sem levar em consideração a dinâmica necessária para atingí-los. Explico melhor: SELIC a 10% pode ser desejável e viável se houverem condições de obtê-la. No entanto, temos que considerar a necessidade de analisar a dinâmica do processo econômico para o alcance dessa meta com a contínua modificação das relações entre os diversos fatores econômicos componentes desse mesmo processo. Tal análise não vi feita ainda.
Roberto S:ao Paulo-S
4 de janeiro de 2007 4:46 pmComa eleição definida e com
Coma eleição definida e com os atuais indicadores econômicosos juros da taxa Selic continuarão em queda, a velocidade será determinada pelo ritmo da inflação e pelo ritmo de crescimento do PIB.
marco aurélio garcia
4 de janeiro de 2007 4:46 pm1) O Tenani, profissional do
1) O Tenani, profissional do mercado financeiro (bicho papão para alguns), UBS, professor de finanças da FGV -SP. Por profissão é um profissional que dispõe das melhores informações (inclusive vive o dia a dia). Seu artigo é brilhante. Corrigiu a definição de demanda (agora explicou que existe a demanda interna e externa). Podemos ter uma queda na demanda interna e uma subida na demanda externa (ou o inverso). Conhece com profundidade o movimento de capitais (caixa dois ) da América Latina (os bancos são os conselheiros dos detentores de caixa dois no exterior).
2) Não se definiu como economista, portanto acredito que não estarei ferindo o código de ética. Sua lógica não utiliza os conhecimentos de teoria econômica, apenas os do mundo financeiro, o que não tira o brilho de seus artigos.
3) A TAXA NATURAL DE JURO (DE EQUILÍBRIO OU NEUTRA) de um país, a que serve de base para a definição da taxa básica interna (SELIC) não é fixada baseada na taxa internacional para este mesmo país (é o ambiente interno, principalmente, e o externo que definem). Os exemplos no mundo são incontáveis. A taxa internacional para o país serve como limitador inferior apenas se o país estiver com problema no Balanço de Pagamentos.
4) TAXA DE JURO INTERNA DE EQUILÍBRIO (um cálculo para a jabuticaba). A taxa de básica de juro de equilíbrio pode ser considerada a de longo prazo para os títulos públicos federais. A SELIC se for fixada acima desta taxa estará segurando a demanda e os preços, abaixo estimulando (esta é a medida). O grande problema é ter o conhecimento de mercado para saber o momento de virar sem provocar inflação (o resto é desconhecer teoria econômica). Estoques, capacidade instalada ociosa, fatores de produção, câmbio, preços internacionais, segurança, etc. Os USA colocaram sua taxa básica acima das de longo prazo (5,25%). Inverter tendência de inflação.
5) A taxa básica sozinha não é certeza de crescimento econômico (vide Japão 10 anos com taxa zero).
6) A previsão de SELIC abaixo de 10% sem provocar movimento ascendente de inflação (com reversão difícil e cara): torço para que a previsão seja correta (mas duvido).
pedro
4 de janeiro de 2007 7:52 pmenquanto isso o Claudio
enquanto isso o Claudio Haddad está preocupado com a queda da TJLP e o aumento do salário mínimo, por motivos um tanto quanto estapafúrdios na minha modesta opinião. dá para acreditar?
Saile Marques
4 de janeiro de 2007 7:52 pmNassif,
10 Paulo Tenani x 0
Nassif,
10 Paulo Tenani x 0 Alexandre Srek-Man
Qual o efeito de uma SELIC abaixo de 10 % no mercado financeiro ?
Vejo que com a queda da SELIC a Poupança esta voltando a ser um investimento interessanto, o que aconteceria no cenário da SELIC a 10 %.
Luis Nassif
4 de janeiro de 2007 9:54 pmNosso problema não é a
Nosso problema não é a ortodoxia, são os ortodoxos incompetentes, Hamilton.
Luis Nassif
5 de janeiro de 2007 12:57 amO Tenani é do mercado,
O Tenani é do mercado, Adauto. E o Banco Central é a autoridade máxima no mercado.
Roberto São Paulo-SP
5 de janeiro de 2007 2:10 amCreio que a melhor saída para
Creio que a melhor saída para os setores com dificuldades em virtude do atual patamar do câmbio,possa ser uma maior integração da America do Sul, com a transferência destes setores para outros paises da região,ajudando no crescimento econômico destes paises e abrindo mercado para produtos de Brasileiros com maior capacidade de competição com o atual patamar do câmbio.
Saile Marques
8 de janeiro de 2007 4:32 pmNassif,
Este momento de baixa
Nassif,
Este momento de baixa inflação e queda de juros, não seria o momento adequado para medidas mais radicais, como o FIM DA TR – TAXA REFERÊNCIAL?
ADNAN EL KADRI
8 de janeiro de 2007 8:42 pmNassif,
O artigo anterior do
Nassif,
O artigo anterior do Paulo Tenani que tenho gravado “Selic a 10% não é inflacionária” é muito claro. Entendo que é um divisor de águas na clareza dos argumentos. É de fato uma análise real fincada nos fatos, portanto, realista e com todos os argumentos e fundamentos para manter o viés de baixa de 50 pontos a cada reunião do COPOM. É o momento. É a hora de prosseguir no mesmo ritmo de queda da Selic.
Rogério Maestri
8 de janeiro de 2007 8:43 pmCaro Nassif
Acho que tem um
Caro Nassif
Acho que tem um assunto que deve se começar a falar pois pode ser um grande nó na queda dos juros. POUPANÇA. 6% ao ano, incentivo no imposto de renda, mais correção monetária, quanto que é isto?
Por mais que o Banco Central fique sentado em cima dos juros, para não descer é claro, eles vão descer (os juros, felizmente, não o pessoal do BC, infelizmente), e quando chegar próximo desse limite o que será feito?
Se a discussão começar cedo, por exemplo, atrelando à poupança a taxa básica de juros (que no momento seria um ganho para o poupador), quando esta começar a baixar dos 10%, não haverá problemas.
Essa discussão tem que começar logo, pois seria um caminho para o futuro.
Lembro que taxas de 2% a 4% na poupança são taxas de primeiro mundo e permitem o financiamento da construção a prazos longos (30anos ou mais).
Saile Marques
9 de janeiro de 2007 5:02 pmCaro Rogério Maestri
Com a
Caro Rogério Maestri
Com a queda dos juros vários Fundos de Investimento vem perdendo a competitividade frente a Poupança, que vem captando cada vez mais recursos.
Principalmente no caso do pequeno investidor, que paga uma taxa de Administração mais alta.
Consideremos ainda o Imposto de Renda que reduz ainda mais a rentabilidade.
A Poupança vem se tornando cada vez mais rentável, porém este é um problema sério para os bancos, uma vez, que grande parte dos depósitos ficam retidos no Banco Central.
noe
9 de janeiro de 2007 5:02 pmSaile Marques
Neste momento
Saile Marques
Neste momento de baixa inflação e queda de juros, o momento é mais adequado para medidas mais radicais, como o FIM DA CORREÇÂO MONETÀRIA, se voce perceber bem vai vê-la muito viva para corrigir o capital e os preços ao consumidor, e muito afastada da remuneração do trabalho. Voce perceberá quantos falam em rentabilidade REAL em lugar de rentabilidade em R$. Quem fatura em dólar, euro, libra e etc, não costuma deduzir correção monetária dessas moedas em seus balanços, um conceito estranho para suas economias de origem, coisa nossa, criatura renegada pelos seu criador em nossa terra.
Saile Marques
9 de janeiro de 2007 8:04 pmNoe
Estou de acordo com o
Noe
Estou de acordo com o fim da TR e a correção dos contratos pelo IGPM.
O fim da correção monetária iria fazer com que os juros pagos no Brasil convergeriam para uma realidade mundial.
Com inflação abaixo de 4 % ao ano a correção de preços pela TR, IGPM ou outro índice qualquer não serve para nada.
Saile Marques
12 de janeiro de 2007 1:28 pmSaiu o IPCA de 2.006 – 3,14
Saiu o IPCA de 2.006 – 3,14 %, ou seja, 1,36 % abaixo da meta do governo.
O que nos custou em crescimento da economia estes 1,36 % ?
Agora o BC que está no CORNER levou um direto do ALI, pois este valor indica que poderia baixar os juros muito mais do que tem feito (pelo menos os 1,36 % numa pancada só).
E mesmo assim deixaria a SELIC muito longe da inflação real.