4 de junho de 2026

Filme “El Método” e a “Gameficação” da Realidade

 

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Games de simulações de atividades militares, administrativas etc. representariam que a própria realidade pretensamente simulada já é, igualmente, um game? A exploração do elemento “lúdico” como ferramenta de administração treinamento, gestão etc, seria o sintoma da “gameficação” da própria realidade? O filme “O Que Você Faria? (El Método, 2005) remete a essas questões ao mostrar que as organizações atuais são dominadas por jogos perversos e autistas e que o mundo do trabalho está se “gameficando”.


A revista “CartaCapital” de 21/12/2011 publicou uma reportagem especial da “The Economist” intitulada “O Mundo Todo é um Jogo” sobre o vertiginoso crescimento do universo dos videogames a partir da previsão de que “serão a mídia de massa mais empolgante e de crescimento mais rápido durante a década”.

A princípio, o título da reportagem parece ser apenas retórico: Descreve por meio de uma hipérbole o crescimento econômico-financeiro do mercado dos videogames . “O mundo todo” é apenas uma figura de linguagem. Porém, avançando nas páginas da reportagem encontramos um curioso título, “O Jogo é para valer – o que a tecnologia do videogame pode fazer no mundo real”, onde desenvolve-se o curioso conceito de “gameficação”, sugerindo que o título geral da reportagem é muito mais do que retórico!

Segundo o texto, em 2002 o exército do EUA lançou o “America’s Army”, game como ferramenta de recrutamento baseado em um conjunto de programas comerciais, ainda hoje jogado online.

Informa ainda que jogos e simulação de negócios estão disponíveis para funcionários de todo tipo, desde administradores até trabalhadores de call centers usados por companhias como Coca-Cola e Shell. “Fazer esse tipo de treinamento para o trabalho como se fosse um jogo pode deixá-lo mais interessante do que uma abordagem tradicional com aulas no quadro negro, diz Tim Luft, do Serious Game Institute, uma instituição de pesquisa de Coventry, Inglaterra. Seus pesquisadores estão trabalhando na criação de lojas virtuais para uma companhia varejista e em versão virtual tridimensional da cidade de Coventry para uso de arquitetos e planejadores do governo local”

Chama-se, portanto, de “gameficação” a exploração do elemento “lúdico” como ferramenta de administração. A questão irônica desse conceito é a expressão “como se”, isto é, games que mostram a realidade como fosse um jogo. Será que o título da reportagem especial (“O mundo Todo é um Jogo”) da “The Economist” é muito mais do que retórico? Explicando melhor, será o título um sintoma da percepção de que a realidade, ela mesma, já se tornou um jogo autônomo e fechado em si mesmo, sem finalidades racionais, econômicas ou políticas a não ser a simulação pela simulação? Games de simulações de atividades militares, administrativas etc. poderiam representar que a própria realidade pretensamente simulada já é, igualmente, um game?

Um filme que remete a essas questões levantadas pelo conceito de “gameficação” é “O Que Você Faria?” (El Método, 2005) do diretor argentino Marcelo Piñeyro. Cinco homens e duas mulheres disputam uma vaga para um alto cargo executivo de uma grande empresa em Madri (Espanha). Os candidatos participam da última etapa da seleção, do qual sairá o vencedor. Fechados numa sala, as provas elaboradas são baseadas num suposto “Método Grönholm”, que basicamente criará jogos psicológicos e situações que induzem a comportamentos nervosos e transparentes. O jogo simulará situações arbitrárias que incitam conflitos, insegurança fazendo com que os candidatos lutem para resistir às pressões e estresse e, dessa forma, o vencedor demonstre o mais alto grau de equilíbrio emocional.

O curioso é que no “método” a capacidade técnico-profissional dos candidatos é o que menos importa, sugerindo que os ambientes de trabalho se transformaram em verdadeiros reality shows onde os indivíduos são obrigados a cumprir metas arbitrárias, cuja natureza e finalidade podem ser tudo, menos lógica e racional.

 

Um jogo autista


O ponto intrigante do filme é que os candidatos vão chegando ao prédio comercial onde será realizado o processo seletivo em meio ao caos de grupos anti-globalização que fazem protestos e tomam conta das ruas de Madrid. Todas as situações arbitrárias dos jogos de gestão são pontuadas pelos gritos de protestos das ruas. Mas todos estão indiferentes, tal o grau de absorção das simulações psicológicas em que todos estão imersos.

O filme “O Que Você Faria” apresenta uma tendência acusada por muitos críticos das organizações: as sucessivas ondas dos sedutores discursos que prometem revoluções gerenciais com muitas reuniões recheadas de planilhas Excel e slides de Powerpoint com coloridos gráficos e números tornam o trabalho de gestão cada vez mais abstrato e distante do “chão da fábrica”. Como coloca o colunista Thomas Wood, uma espécie de autismo passa a dominar as organizações onde “os executivos passam a filtrar as informações do meio. Boas notícias são amplificadas e as más notícias são barradas” (WOOD, Thomas. “Feedback Selvagem” disponível em: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/feedback-selvagem/?autor=14).

O mundo das organizações torna-se cada vez 
mais abstrato com jogos cujas regras
são invisíveis

O resultado é um ambiente de “regras invisíveis” que nada têm a ver com capacitação profissional, mas com “inteligência emocional” dos funcionários (ou eufemisticamente chamado de “colaboradores”): sem relação com a práxis os sistemas tornam-se fechados em si mesmos, autopoiéticos – tipos de sistemas que são cegos em relação ao que lhe é exterior, ou seja, o mundo exterior não seria nada mais do que um produto secundário da auto-referência produzida. Em outras palavras, o mundo externo somente é representado a partir de uma descrição que o sistema faz de si mesmo (veja LUHMANN, Niklas. A Realidade dos Meios de Comunicação, São Paulo: Paulus, 2005). 

Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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