4 de junho de 2026

Cor de Cinza, o mais enigmático dos sambas de Noel

Os biógrafos nos contam que Noel Rosa gostava de autocaricaturar-se.   E sempre de perfil,

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exagerando o traço ao chegar no queixo, fazendo graça com a própria deformidade.

 

Há quem garanta que o samba Mentir foi feito depois de ser apresentado a uma admiradora, numa festinha em casa de família.

 

Conhecendo-o apenas de nome, a moça teria ficado desapontada. Esperava um compositor bonito como suas músicas.

Deixou escapar um “oh!”, ao que Noel, sem perder o controle, indagou:

      – Sente alguma coisa?

      – Sim – respondeu a moça, um tanto embaraçada. – Uma pontada aqui, mas já passou.

Essa era uma das maneiras como Noel reagia a quem notava seu problema na face. A outra podia ser, também, como

na dedicatória à cantora Yolanda Rhodes, a Yola, uma linda mulher que conheceu na Rádio Guanabara e que ficou

impressionada com um novo samba dele.

 

 Noel cantava os versos tristes e algo nebulosos da belíssima composição a que deu o nome de

Cor de Cinza. Yola pediu-lhe a letra, Noel escreveu-a numa folha de papel e, no final, anotou:

 

“Para que você não se esqueça da feiúra do amigo Noel.”  A linda Yolanda Rhodes não o esqueceu.

 

COR DE CINZA (Noel Rosa)

 

Samba-canção. Primeira gravação em 1955 com Aracy de Almeida (música de 1933)

 

Com seu aparecimento
Todo o céu ficou cinzento
E São Pedro zangado
Depois, um carro-de-praça
Partiu e fez fumaça
Com destino ignorado

Não durou muito a chuva
E eu achei uma luva
Depois que ela desceu
A luva é um documento
Com que provo o esquecimento
Daquela que me esqueceu

Ao ver um carro cinzento
Com a cruz do sofrimento
Bem vermelha na porta
Fugi impressionado
Sem ter perguntado
Se ela estava viva ou morta

A poeira cinzenta
Da dúvida me atormenta
Nem sei se ela morreu
A luva é um documento
De pelica e bem cinzento

Que lembra quem me esqueceu

 

Em toda a obra de Noel não há composição de versos tão obscuros, tão indecifráveis. Aparentemente,

ele conta uma história de amor. Baseado em informações de Pará, Almirante vai concluir que a inspiradora foi Julinha.

Pouco provável. Há certa finura na mulher de luvas de pelica cinza que não combina bem com a extravagante Júlia Bernardes.

 

Laura Macedo nos informa que, segundo Jorge Caldeira, quando Julinha bebia, não havia cristão que segurasse a barra:

tentou se afogar num riacho, quebrou o violão de Noel durante uma discussão e até veneno tomou.

O poeta mineiro Paulo Mendes Campos assim escreveu sobre Cor de Cinza na Revista Manchete em 1974

 

 

Cor de Cinza é uma história fora de dúvida enigmática, enevoada, cuja origem há de morrer com Noel.

 

 

      “Não durou muito a chuva e eu achei uma luva depois que ela desceu…”

       Noel Rosa                                                                (Ilustração Luquefar)

 

 

Gravações:

 

Aracy de Almeida com Orquestra

 

Continental LPP 1955

 

Marília Baptista com Orquestra

 

Nilser NS LP 1963

 

Grupo Rumo

 

Independente – LP 1981

 

Zezé Gonzaga e Conjunto Época de Ouro

 

Fenab 104/105 – LP 1982

 

                                                                                       *****   ***   *****

Agradecimentos: À amiga Laura Macedo, pelas primeiras informações sobre Cor de Cinza.

 

 

Fontes:

 

 (1) Noel Rosa, uma biografia

     João Máximo e Carlos Didier

     Editora UNB – 1990 –

    Edição comemorativa do 80º aniversário de nascimento de Noel Rosa (1910-1937)

 

(2) Site Noel Rosa – 100 canções para o centenário

 

Cor de Cinza de Noel Rosa

Composição de 1933.
Intérprete: Aracy de Almeida

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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