Do Resistir.info
Crise sistémica global
US$30×1012 de activos fantasmas desaparecerão daqui até o início de 2013
> – A crise entra na fase de desconto generalizado das dívidas ocidentais
por GEAB [*]
Chegamos quase ao fim do segundo semestre de 2011 e, desde Julho último, 15 milhões de milhões (1012 ) de activos fantasmas já se dissolveram em fumo, como antecipado pelo LEAP/E2020 ( GEAB nº 56 ). E, segundo nossa equipe, este processo vai prosseguir ao mesmo ritmo ao longo de todo o ano que vem. Estimamos com efeito que, com a efectivação do desconto de 50% sobre as dívidas públicas gregas, a crise sistémica global entre numa nova fase: a do desconto generalizado das dívidas públicas ocidentais e do seu corolário, a fragmentação do mercado financeiro mundial. Nossa equipe considera que 2012 verá um desconto médio de 30% do conjunto das dívidas públicas ocidentais [1] ao que se acrescentará um montante equivalente de desaparecimento de activos dos balanços dos estabelecimentos financeiros mundiais. Concretamente, o LEAP/E2020 antecipa pois o desaparecimento de 30 milhões de milhões (1012 ) de activos fantasmas daqui até o início de 2013 [2] e a aceleração ao longo de 2012 do processo de partição do mercado financeiro mundial [3] em três grandes zonas monetárias cada vez desconectadas: Dólar, Euro, Yuan. Estes dois fenómenos alimentam-se mutuamente. Eles vão nomeadamente provocar a baixa de 30% da divisa estado-unidense em 2012 [4] , como havíamos anunciado em Abril último ( GEAB nº 54 ). Portanto, o fim de 2011 vai assistir, tal como previsto, as dívidas públicas europeias actuarem como detonador para o desencadear da implosão da bomba estado-unidense.
Neste GEAB nº 59 analisamos em pormenor esta nova fase da crise assim como o próximo agravamento da crise de dívida dos EUA. Começamos igualmente a apresentar, como anunciado nos GEABs anteriores, nossas antecipações sobre o futuro dos Estados Unidos para o período 2012-2016 [5] começando por um aspecto fundamental das relações euro-americanas (e mais geralmente do mundo tal como se conhece desde 1945), a saber a relação militar estratégica EUA-Europa: estimamos que em 2017 o último soldado estado-unidense terá deixado o solo da Europa continental. Finalmente, o LEAP/E2020 apresenta suas recomendações. Este mês: divisas, ouro, reformas por capitalização, sector financeiro, matérias-primas.
Neste comunicado público optámos por apresentar os elementos que determinam o próximo agravamento da crise da dívida dos EUA, fazendo também o balanço das consequências da cimeira europeia do fim de Outubro e da cimeira do G20 em Cannes.
Como antecipado pelo LEAP/E2020 desde há vários meses, a cimeira do G20 de Cannes revelou-se um fracasso flagrante uma vez que não deu lugar a absolutamente nenhuma medida significativa, revelando-se incapaz de abordar as questões da mudança do sistema monetário internacional, do relançamento da economia mundial e da reforma da governação global. Se a questão grega tomou tanta relevância no decorrer da cimeira, isto aconteceu nomeadamente porque esta não tinha qualquer conteúdo. George Papandreu permitiu assim ao dirigentes do G20 “fazerem como se” a Grécia houvesse perturbado os seus trabalhos [6] quando, de facto, permitiu-lhes esconder em parte a sua impotência para definir a mínima agenda comum. Paralelamente, as decisões da cimeira europeia da semana que precedeu o G20 ilustram doravante de maneira oficial a emergência da Eurolândia (dotada nomeadamente de duas cimeiras específicas por ano [7] ) e afirmando de facto seu primado decisional no seio da UE [8] . A pressão da crise permitiu igualmente em alguns dias reforçar as capacidades políticas da Eurolândia para progredir no caminho de uma integração acrescida [9] , condição prévia para toda evolução positiva rumo ao mundo pós crise [10] .
Assim, um governo de unidade nacional estabeleceu-se finalmente na Grécia [11] , onde é preciso literalmente construir um Estado moderno dotado de um cadastro, de uma administração eficaz e que permita aos gregos serem cidadãos “normais” da Eurolândia e não súbditos de um sistema feudal em que grandes famílias e a igreja partilham a riqueza e o poder [NR] . Trinta anos após a sua integração incondicional na Comunidade Europeia, a Grécia vai ter de passar por uma fase de transição de cinco a dez anos como a experimentaram os países da Europa central e oriental antes do seu acesso à UE: doloroso, mas inevitável.
Assim, a Itália finalmente chegou a desembaraçar-se de um líder típico do mundo anterior à crise, caracterizado pelas suas lantejoulas, seu negocismo, sua relação sem escrúpulos com o dinheiro, sua auto-satisfação tão recorrente quanto infundada, seu domínio mediático, seu eurocriticismo recorrente, seu nacionalismo de pacotilha [12] e, naturalmente, sua libido desmesurada. As cenas de alegria nas ruas italianas mostram que não há apenas aspectos maus na crise sistémica global! Como indicávamos nos GEAB anterior, consideramos mesmo que 2012 será para a Eurolândia o ano de transição que permitirá encetar a construção do mundo pós crise … e não apenas sofrer as desgraças do mundo anterior à crise.
Assim o Reino Unido é muito simplesmente e de modo definitivo “posto à porta” das reuniões da Eurolândia [13] . E os outros países da UE fora da zona euro reagruparam-se novamente atrás da Eurolândia recusando-se a apoiar a proposta britânica de um direito de veto dos 27 sobre as suas decisões. A deriva do Reino Unidos experimenta portanto uma forte aceleração o que é ilustrado pelas tentativas aumentadas dos eurocépticos britânicos (que são geralmente os soldados da City [14] ) de tentar cortar rapidamente o máximo de ligações com a Europa continental [15] . Longe de ser uma prova do êxito da sua política, é ao contrário uma confissão de fracasso completo [16] : após vinte anos de tentativa ininterruptas, eles não conseguiram romper o processo de integração europeia que renasce sob a pressão da crise. Eles tentam portanto “cortar as amarras” por temor (bem fundamentado [17] ) de ver o Reino Unido obrigado a fundir-se na Eurolândia daqui até o fim desta década [18] .
No fundo, é uma fuga para a frente desesperada que, como sublinha Will Hutton, num artigo notável de lucidez publicado no Guardian de 30/10/2011, não pode conduzir o Reino Unido senão a um estilhaçamento com uma Escócia que quer reivindicar não só a sua independência [19] mas igualmente sua ancoragem europeia, e a uma situação sócio-económica de mercado financeiro off-shore sem protecção social [20] nem base industrial [21] : em resumo, um Reino Unido à deriva [22] !
E como o aliado americano está num estado tão desesperado, a deriva pode eternizar-se para maior infelicidade do povo britânico que se mostra cada vez mais agressivo para com a City. Mesmo os antigos combatentes começam a aderir ao movimento Occupy the City [23] : visivelmente, sobre este ponto, há uma espantosa convergência de pontos de vista entre a Eurolândia e o povo britânico!
Para se consolarem, os financeiros britânicos poderão dizer que detêm a maior proporção de activos públicos japoneses fora do Japão … mas no momento em que, cada vez com mais firmeza, o FMI adverte o Japão acerca do risco sistémico da sua dívida pública que ultrapassa os 200% do PIB [24] , será isso um consolo?
Uma vez que falamos de endividamento público, é tempo de voltar aos Estados Unidos. As próximas semanas vão efectivamente lembrar ao mundo que é exactamente este país, e não a Grécia, que está no epicentro da crise sistémica global. Em uma semana, a 23 de Novembro, a “super-comissão” do Congresso encarregada de reduzir o défice federal dos EUA deverá confessar o seu fracasso em encontrar os US$1500 mil milhões de economias ao longo de dez anos. Cada partido aguça já seus argumentos para despejar o fracasso no outro campo [25] . Quanto a Barack Obama, à parte os seus sorrisos afectados na televisão junto a Nicolas Sarkozy, contempla passivamente a situação enquanto constata que o Congresso rasgou em pedaços seu grande projecto de plano para o emprego apresentado com fanfarras há apenas dois meses [26] . E não é o anúncio completamente irrealista de uma nova união aduaneira do Pacífico (sem a China) [27] – na véspera da cimeira da APEC em que chineses e americanos se enfrentam cada vez mais duramente – que vai reforçar a sua estatura de chefe de Estado e ainda menos as suas possibilidades de reeleição.
Este fracasso previsível da “super-comissão”, que apenas reflecte a paralisia total do sistema político federal americano, vai ter consequências imediatas e muito pesadas: uma nova série de degradações da classificação de crédito dos Estados Unidos. A agência chinesa Dagon abriu o fogo confirmando que ia novamente baixar esta nota em caso de fracasso da “super-comissão” [28] . A S&P provavelmente vai baixar mais um ponto da classificação estado-unidense e assim a Moody’s e Fitch não terão outras opções senão colocarem-se no mesmo diapasão uma vez que ambas haviam dado uma trégua até o fim do ano sob a condição de resultados em matéria de redução do défice público. A propósito: para tentar diluir a informação negativa para os Estados Unidos, é muito provável que haja uma tentativa de relançar a crise do endividamento público na zona Euro [29] rebaixando a classificação da França para enfraquecer o Fundo Europeu de Estabilização Financeira [30] .
Tudo isso prepara um fim de ano muito movimentado nos mercados financeiros e monetários e vai implicar choques violentos nos sistemas bancários ocidentais e, para além disso, para todos aqueles que são detentores de Títulos do Tesouro dos EUA. Mas para além do fracasso da “super-comissão” em reduzir o défice federal, é toda a pirâmide do endividamento estado-unidense que vai novamente ser auscultada, num contexto de recessão mundial, inclusive americana: queda das receitas fiscais, prosseguimento do aumento do número de desempregados e em particular de desempregados que não recebem mais subsídios [31] , prosseguimento da queda dos preços do imobiliário, …

Mantenhamos em mente que a situação do endividamento privado nos EUA é claramente pior que a da Grécia! E que, neste contexto, estamos a uma polegada do pânico geral quanto à capacidade dos Estados Unidos para reembolsar a sua dívida de outra forma que não seja com dólares desvalorizados. Este fim de 2011 vai portanto levar numerosos detentores da dívida americana a colocarem-se seriamente a questão desta capacidade e do momento em que ela será subitamente posta em causa pelos operadores [32] .
O que é que os Estados Unidos podem propor após um fracasso da super-comissão? Não grande coisa de facto, sobretudo em ano eleitoral. De um lado porque ela foi criada porque nada mais funcionava; de outro lado porque a questão não é tanto o montante e sim a capacidade para empreender uma redução significativa no tempo. E o fracasso da “super-comissão” será percebido justamente como a incapacidade dos Estados Unidos para enfrentar o problema do défice.
Quanto ao montante, um cálculo rápido enviado por um dos leitores americanos do GEAB permite constatar até que ponto os “esforços” de redução orçamental encarados actualmente são ridículos em relação às necessidades. Se se considerar o orçamento federal dos Estados Unidos como o de uma família, as coisas ficam claras. Basta retirar 8 zeros para ter um orçamento que significa algo para cada cidadão:
Receita familiar anual (impostos sobre o rendimento): +21 700
Despesas familiares (orçamento federal): +38 200
Novas dívidas no cartão de crédito (dívida anual): +16 500
Dívidas passadas no cartão de crédito (dívida federal): +142 710
Cortes orçamentais já efectuados: -385
Objectivo de redução orçamental da super-comissão (durante um ano): -1 500
Como se pode facilmente verificar, a “super-comissão” (assim como o Congresso no seu conjunto, em Agosto último) não chegam sequer a entender-se para reduzir em 10% … o aumento anual da dívida federal. Pois trata-se exactamente disso: ao contrário da Europa que, em alguns meses, inventa novos mecanismo e reduz muito fortemente as suas despesas e o seu endividamento futuro [33] , os Estados Unidos continuam a afundar a toda velocidade num endividamento crescente. Para o próximo semestre, Washington prevê emitir US$846 mil milhões de Títulos do Tesouro, ou seja, 35% mais que o ano passado no mesmo período [34] .

Com a falência do fundo de investimento MF Global viu-se como os mestres da Wall Street podiam desmoronar de repente devido aos seus erros de estratégia sobre a evolução das dívidas públicas europeias. Jon Corzine não é Bernard Madoff . Em termos de sentido moral ele deve certamente estar próximo mas, quanto ao resto, não é nada comparável. Madoff era um franco-atirador da Wall Street ao passo que Corzine é a grande aristocracia: antigo presidente director geral da Goldman Sachs, antigo governador de Nova Jersey, principal doador da campanha Obama para 2012, considerado em Agosto último para substituir Tim Geithner no posto de secretário de Estado do Tesouro [35] , … de facto um dos “criadores” de Obama em 2004 [36] . Este caso atinge o cerne da relação incestuosa Wall Street / Washington que a partir de agora a maioria dos americanos denuncia [37] .
Assim, em Agosto último ele aparecia como um “intocável” no topo da Wall Street. Contudo, enganou-se totalmente sobre a evolução dos acontecimentos. Ele acreditou que o mundo de antes continuava e que, como “sempre”, os credores privados seriam reembolsados “até o último cêntimo”. Resultado: perdas enorme e uma falência que fez com que muitos dos seus clientes perdessem dinheiro e pôs 1600 empregados na rua [38] .
No GEAB anterior anunciámos que entrávamos na fase de dizimação dos bancos ocidentais. Esta fase principiou e os clientes do conjunto dos operadores financeiros (bancos, seguros, fundos de investimento, fundos de pensão [39] ) devem doravante colocar-se questões sobre a solidez destas instituições. E como mostra o caso Corzine, eles não devem, sobretudo, supor que pelo facto destas instituições ou seus dirigentes serem conhecidos e dotados de uma sólida reputação são a priori mais sólidos que os outros [40] . Doravante não é o bom conhecimento das regras do jogo financeiro de ontem (que fez a sua reputação) que conta, é a aptidão para compreender que as regras do jogo mudaram que se tornou determinante.
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