4 de junho de 2026

No Filme “Liquid Sky” um Exilado Soviético Descobre Outros Demiurgos no Ocidente

 

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Após cinco anos nos EUA, o soviético Slava Tsukerman decide fazer um filme independente que explorasse a mitologia pop contemporânea sobre sexo, euforia, drogas e alienígenas do espaço sideral. É “Liquid Sky”, um filme sobre exilados e estrangeiros, assim como ele. Um olhar quase etnográfico e mítico sobre a condição humana contemporânea dominada pelo sentimento de desamparo e alienação em um mundo governado por novos Demiurgos: alienígenas e indústria do entretenimento.


Um exilado soviético chega em Nova York na segunda metade dos anos 1970 e encontra a uma incipiente cena punk e new wave abastecida com drogas, androginia, euforia, fúria e sexo. Passados cinco anos imerso no estilo de vida norte-americano, reúne um grupo de amigos e baixo orçamento para produzir um filme cuja sinopse pode ser resumida dessa forma:

“Alienígenas invisíveis vêm a Terra num disco voador minúsculo em busca de heroína. Pousam no topo de uma cobertura em Nova York, onde moram uma traficante e sua amante andrógina, ninfomaníaca e bissexual, que também é modelo. Os alienígenas logo descobrem os feromôneos criados no cérebro durante o orgasmo e os preferem à heroína, e então os amantes da modelo ninfomaníaca começam a desaparecer. Este cenário incrivelmente bizarro é observado por uma mulher solitária que mora do outro lado da rua, um cientista alemão que está seguindo tanto alienígenas quanto o igualmente andrógino modelo masculino viciado em drogas.” 

Esse é o cult, pós-punk e mix de sci fi e new wave “Liquid Sky” (1982) do diretor Slava Tsukerman (do recente filme “Perestroika” – 2009) que acabou se tornando um modelo tanto de linguagem como de produção para o cinema independente. O que torna o filme interessante no bizarro enredo é que o diretor é um documentarista (após sair da URSS filmou documentários em Israel) e, ao mesmo tempo, um estrangeiro dentro da cultura norte-americana. Revendo “Liquid Sky” percebemos um olhar etnográfico de Tsukerman, um mix de ironia, humor negro, documentário e olhar de um estrangeiro que pretendia dissecar o imaginário e os personagens que pareciam ser tão estrangeiros quanto ele.


O que se percebe na narrativa de “Liquid Sky” é que se trata de um filme sobre “estrangeiros”: alienígenas de outros mundos, personagens deste mundo perdidos na noite como fossem replicantes melancólicos e o próprio diretor, um soviético tentando compreender os EUA. 

O argumento do filme foi inspirado na mitologia pop americana, como afirmou Tsukerman: “Eu inclui todas as lendas e mitos da época, que ainda estão por aí. Acho que é por isso que o meu filme ainda funciona, como os mitos sobre sexo, drogas, euforia, relações entre sexos e alienígenas do espaço sideral. Minha ideia era que eu precisava uma trama que incorporasse de forma divertida toda essa mitologia, e parece que é por isso que meu filme tenha sobrevivido a tanto tempo” (“Aliens, Acid, Androgyny, Oh My! Interview with Liquid Sky’s Slava Tsukerman” disponível em: http://www.openingceremony.us/entry.asp?pid=653) .


Visualmente brilhante e cativante, o filme é pontuado pelo ponto de vista da criatura espacial com imagens com alto contraste em vermelho, roxo e verde, culminando com uma explosão como fosse uma almôndega eletrônica. Aparentemente significa que a criatura está tendo prazer intenso decorrente da absorção da heroína e, depois, ao assassinar os parceiros sexuais da protagonista Margaret, extraindo deles os feromôneos e a endorfina do orgasmo.


Toda a estória gira em torno da atriz Anne Carlise que interpreta dois personagens: Margaret (interiorana de Connecticut que abandonou os “EUA profundos” em busca de fama e sucesso na metrópole) e Jimmy (um modelo masculino com um bigode penteado para trás e cabelo andrógino ao estilo Andy Warhol). A aparência dessa dupla muda constantemente, como tudo ao redor sempre cercado de detritos, garrafas de cerveja e iluminação neon.


Exilados e abduzidos


O diretor Slava Tsukerman

Em postagem anterior (veja links abaixo) discutíamos que a mitologia contemporânea promovida pela indústria do entretenimento está centralizada em três personagens que expressariam a condição humana contemporânea: o detetive, o viajante e o estrangeiro. Em síntese, as antigas novelas policias, “film noir”, “western” e literatura “pulp fiction” criaram um mix imaginário que serviu de base para toda uma espécie de “sub-zeitgeist” da cinematografia independente que acabou alimentando roteiros e produções de muitas produções “mainstream” (videoclipes e longas metragens).


Nessa mitologia contemporânea é recorrente a percepção humana de estranhamento e alienação: é sobre aquele protagonista que nunca se sente em casa em lugar algum. Procura sempre esquecer o seu passado, sua história, o que é. Passa a maior parte do tempo em silêncio, fechado no seu drama, tenso, crispado. Quieto observa o mundo cair em pedaços.  É como se a própria casa, o país e o mundo fossem um lugar hostil e ele próprio fosse um exilado abandonado por Deus ou como se o próprio Deus conspirasse contra ele.


O personagem Margaret é a última palavra em passividade: quando não está mudando de roupa é espancada, estuprada, abusada de várias formas ao longo da narrativa. É uma exilada dentro de uma mitologia gnóstica que descreve o cosmos como um sistema dominado por demiurgos que abusam do ser humano para extrair dele o que tem de mais precioso: vitalidade, brilho, luz, inocência e bondade. De um lado os alienígenas que abduzem humanos quando alcançam o orgasmo e, por outro, a indústria do entretenimento e da moda que, em troca da juventude e espontaneidade, oferece as ilusões das drogas e diversão fáceis.

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Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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