4 de junho de 2026

O cartunista Lewis Trondheim no Brasil

Do G1

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“Comecei tarde. Não tinha o talento necessário’, diz cartunista francês

Está é a primeira vez que Lewis Trondheim visita o Brasil.
Artista fala sobre a influência da personalidade nos seus quadrinhos.

 
Cartoon de Lewis Trondheim  (Foto: Reprodução/Site oficial)
Cartoon de Lewis Trondheim, que está no Recife
(Foto: Reprodução/Site oficial)

Luna Markman 

“Sou egoísta e preguiçoso”. É assim que um dos principais cartunistas franceses da atualidade, Lewis Trondheim, se define. E essas duas características ajudam a entender os quadrinhos feitos pelo artista, celebrado nos anos 90 pelo trabalho “Lapinot e as cenouras da Patagônia”. “Desenho histórias para mim. E os personagens saem com traços animais porque são mais fáceis de desenhar que humanos”, explicou, secamente, com um risinho no canto da boca.

Na visita ao Brasil pela primeira vez para uma turnê nacional, o Recife foi a primeira parada. O encontro com o público foi em uma escola de francês, no bairro do Derby, na noite desta segunda-feira (17). Na ocasião, ele falou sobre a carreira, o mercado editorial, quadrinhos no cinema e sobre a capital pernambucana, que rendeu até uns traços na inseparável caderneta a que só ele tem acesso. Tudo isso enquanto desenhava algumas histórias.

O cartunista e roteirista também lançou dois livros: “Gênesis apocalípticos” e “Os inefáveis”, que agora somam-se a outras 150 obras publicadas. Até o dia 23 de outubro, Lewis Trondheim participa de vários ateliês e eventos ligados ao universo dos quadrinhos em João Pessoa, Rio de Janeiro e Curitiba. Confira os melhores trechos do bate-papo.

Início

“Comecei tarde, aos 24 anos. Não tinha o talento necessário, por isso rabiscava quadros pequenos, com personagens de perfil, só abrindo e fechando a boca. Depois me profissionalizei. Já vi muito quadrinho com desenhos mal feitos, mas com histórias interessantes que faziam o leitor ir até o final. Isso é o mais importante”.

Preguiça e egoísmo

“Desenho para mim, porque gosto de histórias com animais. Isso também remete à minha infância, quando lia quadrinhos do Mickey da década de 30 (do Floyd Gottfredson) e Tio Patinhas (do Carl Barks). E os personagens saem com traços animais porque são mais fáceis de desenhar que humanos, geram menos esforço. Também não faço animações, pois são longas e chatas, dão muito trabalho. Gosto de improvisar, de não saber qual será o final.”

Brasil

“Não foi só no Brasil que eu só tive trabalhos meus publicados agora. Em Portugal também demorou. Acredito que seja uma questão de língua. Os quadrinhos na França também são caros, o que fica dificulta a exportação.”

Quadrinho versus cinema

“Não acho que o quadrinho ganhe quando é transformado em filme. Sei que o cinema é bem mais divulgado na mídia, e essa falta de reconhecimento deixa os cartunistas meio frustrados. Mas seria até perigoso cartunista ganhar mais dinheiro, porque traria mais problemas para nós. Os nossos trabalhos seriam mais dominados e, assim, cairia a criatividade. Há muitos quadrinhos feitos só para ganhar dinheiro no cinema.”

Recife e Olinda

“Estou no Recife há três dias. Fui conhecer o bairro do Recife Antigo e até fiquei surpreso porque aqui escurece às 17h30, então fiz o desenho correndo. Uma coisa que me impressionou foi uma árvore sustentada por barras de ferro (na Praça do Arsenal). Ao mesmo tempo ela sustenta e é sustentada. Pensei ‘Poxa, eles cuidam das árvores’, mas logo vi vários copos e garrafas no chão onde ela estava. Também achei os casarios pouco conservados, mas a cidade é bonita. Também visitei Olinda e fiz um desenho da Praça João Alfredo. Nesses dias, me inspirei e fiz várias histórias, que ainda estou terminando a produção.”

Cartunistas brasileiros

“Não conheço nenhum cartunista brasileiro. Conheço da Argentina, França, Bélgica, Japão, Estados Unidos, locais que cultuam o quadrinho. São lugares que publicam quadrinhos nos jornais e os livros e revistas são baratos, além de ter uma variedade grande de artistas. Mas estou curioso para saber o que há por aqui. Espero que seja coisa boa.”

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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