5 de junho de 2026

Governo Dilma: O Socialismo dos Ricos

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BNDES patrocina “Socialismo dos Ricos” na fusão Pão de Açúcar-Carrefour

ESCRITO POR MILTON TEMER   

SEX, 01 DE JULHO DE 2011 00:34

O dia começa mal, na leitura da primeira página do “Valor Econômico”, um dos espaços de mídia onde se encontra jornalismo de qualidade. Abílio Diniz vai atrás de R$ 3,9 bilhões do BNDES, para uma operação de fusão Pão de Açúcar-Carrefour, onde não entrará com UM TOSTÃO, mas passará a controlar 32,2% das vendas do varejo nacional. Sem colocar um tostão do seu bolso, vale repetir.

Logo a seguir, “Commodities representam 71% do valor das exportações”, mancheteia uma matéria que, no corpo, revela a fragilidade da operação – a maior parte está baseada em produtos, cujo preço não controlamos. Ou seja, se a crise da dívida norte-americana radicalizar por disputas eleitorais entre democratas e republicanos nos Estados Unidos e a China mudar o eixo do comércio internacional, diminuindo importações, olha nós aí, no brejo.

O grave é que o porcentual de commodities sobre manufaturados aumentou na balança de exportações. Em relação ao ano passado, aumentaram 39,1%, enquanto os manufaturados subiram apenas 15,1%.

Resta o plano inferior da página: “Na Olimpíada, uma antevisão da crise grega”. Por quê? Simples. Gastos iniciais de US$ 1,5 bilhão terminaram em US$ 11,9 bi, oficialmente, porque há indícios, diz o texto, de que possa ter chegado a 30 bilhões de euros – cerca de 50 bilhões de reais.

Mas vamos tratar especificamente da manchete principal, porque a lusitana ainda está girando, e a torcida é grande para que o sócio francês de Diniz, o Casino, consiga melar a baderna.

Para quem gerou um “seqüestro” suspeitíssimo na véspera do segundo turno em 1989, com Lula tendo grandes chances de vitória comprometidas pelas suspeitas de ligações políticas com os seqüestradores, esse neopetista realmente progrediu. Virou, junto com Gerdau, os controladores do Bradesco e Itaú e os predadores do agronegócio, um dos principais “aliados” do lulismo pragmático.

Esta mais recente ameaça de tenebrosa transação comprova como o polulismo, digo, o populismo lulista, foi competente na metamorfose. Transformou um projeto classista de mudança radical da realidade brasileira no mais eficaz agente do capital monopolista em nosso país.

Em oito anos, conseguiu gerar um modelo em que todos ganham – uns muito mais que outros, evidentemente -, suficientemente para colocar colchões amortecedores entre classes em conflito. Sintetizando, esses quase R$ 4 bilhões que o BNDES pode proporcionar à manobra de Diniz correspondem à metade do que foi destinado a tornar “felizes” 11 milhões de famílias com a Bolsa, em 2007. E cito 2007, pois foi o último ano em que me preocupei em seguir a relação lucros bancários-combate à miséria por políticas assistencialistas.

Naquele então, o destinado à Bolsa família, em 12 meses, correspondia ao lucro, em 9 meses, do segundo maior banco privado brasileiro, o Bradesco. Porque o primeiro, o Itaú, nesses mesmos 9 meses, tivera um lucro exatamente R$ 500 milhões maior que o despendido com o “social”.

Pois bem. Sob a ótica do prestígio ao desenvolvimentismo, sobre o monetarismo – na essência, louvável -, estamos, mais uma vez e de fato, diante de uma proposta clara de privatização do lucro, com socialização previsível do prejuízo.

Os recursos que faltam para as políticas públicas, em virtude de um criminoso superávit fiscal, voltado a garantir retorno aos bancos sem risco de tudo o que se especula com a dívida pública – crescente em progressão geométrica desde que o modelo macroeconômico se iniciou lá no mandarinato tucano-pefelista de FHC -, são acrescidos agora pelos constantes “empréstimos” que o Tesouro vem fazendo ao BNDES.

Empréstimos que se transformam em transferências subsidiadas para as operações – reitero, sem riscos – do grande capital, em suas operações de fusão. Operações de fusão que, é bom ser dito, em nada vêm impedindo a constante desindustrialização do nosso parque produtivo, em benefício de operações financeiras que ninguém sabe onde vão dar.

Barra pesada, e no dia seguinte ao desligamento de um quadro histórico e simbólico como Vladimir Palmeira. O que deve servir de reflexão aos petistas que ainda acreditam que o PT seja “socialista”, como consta do programa.

Ou será que estariam de acordo em defender o que Noam Chomsky definiu como “socialismo dos ricos”?

Milton Temer é jornalista

Governo Dilma vai financiar a desnacionalização e o monopólio do comércio varejista no Brasil 

BNDES promete R$ 4 bilhões para Abilio Diniz comprar filial brasileira do Carrefour


DIEGO CRUZ
da redação
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    Abílio Diniz fez campanha para Dilma nas eleições de 2010


• Nesse final de junho foi anunciada uma fusão que pode mudar radicalmente o mercado varejista no país. O empresário Abílio Diniz, dono da rede de supermercados Pão de Açúcar, está negociando a fusão com a subsidiária do francês Carrefour, operação que criaria um gigante do ramo, com mais de 30% do mercado nacional.

O que seria mais uma notícia sobre fusões e a consolidação de mais um monopólio no Brasil, porém, se torna ainda mais escandaloso pelo fato de a negociação ser viabilizada através de dinheiro público. O BNDES, intermediado por sua empresa de investimentos, o BNDESPar, vai entrar com cerca de R$ 4 bilhões na transação, que deve custar pouco mais de R$ 5 bilhões.

O BNDES formaria uma espécie de consórcio junto com Diniz e o banco BTG Pactual, a fim de consumar a fusão e garantir o controle do empresário sobre o novo grupo no país, formando o NPA “Novo Pão de Açúcar”. Caso seja concretizado, a nova rede terá nada menos que 2.386 pontos de venda e uma receita de R$ 65 bi por ano. Seria a terceira maior empresa do país, atrás somente da Petrobras e da Vale.

Segundo a imprensa, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, teria contatado Dilma Roussef, que autorizou pessoalmente a ajuda. O governo tenta justificar a operação afirmando que ela seria “estratégica” para o país, como afirmou o ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel. Em resposta às críticas de que o banco público estaria sendo usado para privilegiar interesses privados, Pimentel culpou o setor financeiro privado que não faria “o papel dele, que é financiar o capital brasileiro”. “Como ele não faz isso, o BNDES tem de atuar”, chegou a dizer.

Abílio Diniz recorreu também ao discurso patriótico para defender a participação do banco público para se cacifar o novo dono da holding. “O BNDES fez um bom negócio. Está evitando que o sistema de abastecimento seja totalmente desnacionalizado. Acho que está fazendo um serviço para o consumidor, para a sociedade, para todos os brasileiros”, disse em entrevista ao Jornal Nacional. 

Disputa capital
A incorporação da rede de supermercados franceses pelo Pão de Açúcar, no entanto, promete render ainda algumas batalhas jurídicas e acionárias. Isso porque o grupo francês Casino detêm 43% do atual Pão de Açúcar (ou CBD, Companhia Brasileira de Distribuição) e, pelo acordo firmado com Diniz há cinco anos, deveria tomar o controle da empresa a partir de 2012. O grupo é ainda, na França, concorrente do Carrefour. Caso o acordo seja efetivamente firmado, o Casino permanece minoritário na nova empresa e ainda vira, involuntariamente, acionista do concorrente em sua própria terra.

Nesse dia 29 o Casino divulgou nota afirmando que as negociações entre Diniz e o Carrefour eram ilegais. No mesmo dia o grupo correu para a bolsa e comprou o equivalente a R$ 1,1 bilhão em ações do Pão de Açúcar, a fim de aumentar seu poder de barganha dentro da empresa. Não se sabe, porém, se o grupo está disposto a vetar a fusão ou se está apenas esperneando a fim de garantir condições mais vantajosas nesse processo.

Os players tupiniquins
O investimento do BNDES na compra do Carrefour pelo Pão de Açúcar se insere na declarada política do governo de impulsionar a criação de “vencedores” nacionais, de grandes empresas globais, supostamente brasileiras. É o caso, por exemplo, da compra da Brasil Telecom pela Oi, da fusão da AmBev com a belga Interbrew ou da Perdigão com a Sadia. 

Essas fusões, porém, não criam grandes empresas brasileiras que vão explorar o mercado internacional. Resultam em multinacionais, no máximo, geridas por brasileiros, mas controladas por capital estrangeiro. E em defesa desse capital os executivos brasileiros costumam empregar o mais brutal regime de exploração, como são testemunhas os mineiros canadenses da Vale ou os operários da AmBev na Bélgica. 

A compra do Carrefour pelo Pão de Açúcar, porém, não deve, como afirma o governo, aumentar a influência do Brasil no mercado internacional, muito menos “levar produtos brasileiros para fora”, como disse o ministro Pimentel. Na intrincada engenharia financeira montada para a operação, o grupo de Diniz absorveria a filial brasileira do Carrefour, mas sendo ainda controlado pelo Carrefour França. Ou seja, vai avançar na desnacionalização do setor.

O que está por trás no despejo de dinheiro público nessa negociata privada é a tentativa do governo, de um lado, impedir a quebra do Carrefour, que acumula prejuízos bilionários na decadência do modelo de hipermercados, e de outro privilegiar um empresário ícone da burguesia brasileira. E um dos principais porta-vozes da campanha eleitoral do PT entre os endinheirados.

Monopólio
Se o financiamento público para a ampliação de um monopólio privado já é escandaloso, a natureza do negócio envolvido piora ainda mais a imoralidade desse desvio de recursos. O BNDES vai financiar a concentração da rede varejista, aprofundando o controle da empresa não só sobre a distribuição, mas de toda a cadeia de produção de uma série de produtos. Vai aumentar a pressão sobre pequenas e médias empresas, principalmente, sobre aqueles pequenos fornecedores que, na prática, atuam como terceirizados das grandes redes.

O pior, no entanto, além das demissões que devem ocorrer após a fusão, é o controle dos preços para os consumidores. Sem concorrência à altura, a megaempresa vai se ver livre para elevar seus preços e ampliar sua margem de lucros. Em uma conjuntura que a inflação corrói o poder de compra dos trabalhadores, sobretudo dos que ganham menos, isso se torna ainda mais dramático.

E é isso o que o governo Dilma prometeu financiar. Coincidência ou não, um dia após o anúncio oficial da negociação para a fusão, o Senado aprovou a Medida Provisória do governo que concede mais R$ 55 bilhões do orçamento da União ao BNDES. Quase o mesmo valor que o governo disse que iria cortar no início do ano, a fim de “equilibrar” suas contas.


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