DO TERRA MAGAZINETerça, 21 de junho de 2011, 08h17Na BubuiaGetty Images
Cultivo de soja: “Não há problema se apenas seis culturas representam mais de 80% de nossa área plantada”
Rui Daher
De São Paulo
“Já que não estamos aqui a passeio/Já que a vida enfim não é recreio/Eu vou na bubuia, eu vou/Flutuo navegando sem tirar os pés do chão/365 dias na missão eu vou/Na bubuia, eu vou”. (Céu, Anelis Assumpção, Thalma de Freitas)
Desde o início deste século, a agropecuária passou a tomar mais espaço nas preocupações mundiais e na mídia brasileira que, antes, fazia do setor um apêndice subalterno da economia, fato aqui já comentado.
Parte da mudança deveu-se à percepção dos efeitos da produção agropecuária sobre o meio ambiente, o que gerou um debate feroz a partir da última década do século passado. O mais pode ser creditado à demanda acelerada por alimentos, fibras e energia, que veio no bojo do crescimento do consumo nos países emergentes, especialmente os asiáticos, e sua repercussão no comércio internacional.
Entre esses dois fatos, o agronegócio brasileiro percorreu uma sina de rótulos, estigmas, queixas, culpas, enfim, de pecados que nem sempre cometeu.
Na década de 1970, talvez para reagir ao dar de ombros com que a sociedade contemplava as atividades agrícolas e de pastoreio, empresários e profissionais do setor estenderam o conceito para além das fronteiras das fazendas. Não foi difícil. São poucos os bens que não nascem na terra para serem consumidos ou transformados.
Daí o termo agronegócio. Foi também agribusiness, mas poderia ter sido agroindústria ou complexo agroindustrial. Importante era evitar termos como rural, camponês e jeca-tatu. A projeção da atividade primária exigia ares empresariais, e a tal da vocação agrícola já teria feito o Brasil perder um século rumo às conquistas tecnológicas e industrialização.
Pode-se apostar: muitas restrições e antipatias que o agronegócio recebe hoje de setores específicos da sociedade vêm mais da extensão conceitual que lhe deu a atual pujança do que de suas interferências negativas, por sinal, ainda pouco estudadas.
É difícil saber quanto disso veio para o bem ou o mal. A verdade é que produções essenciais para as sobrevivência humana e economia, secularmente repetidas, mas difíceis de serem reconhecidas num período de espetaculares inovações tecnológicas, no Brasil, tomaram ares superiores através de um truque terminológico.
Sim. Tentem comparar nossa magnitude “agronegocial” com a de outros países. Procurem na FAO, no USDA, na OCDE, expressões estatísticas comparativas do agronegócio. Como a lenda da jabuticaba, isso parece ser apenas coisa nossa.
Sempre tivemos uma agropecuária de exportação e para o mercado interno, e assim eram classificadas as estatísticas. Se para um segmento os preços eram cotados em bolsas internacionais e, para o outro, medidos no balcão do armazém, o fato estrutural não mudava.
Algum dia se deixou de engordar frango com milho e hormônios? Gado com proteínas de oleaginosas? Algodão de exportação no Nordeste? Não é sabido que, desde meados da década de 1970, usinas produzem biocombustíveis?
A essência do agronegócio não é mais do que a velha e boa atividade agrícola e pastoril produzindo ao menor custo e maior eficácia o que o planeta consome.
Não há problema se apenas seis culturas (soja, milho, cana, feijão, arroz, café) representam mais de 80% de nossa área plantada. Planta-se o que o mercado compra por ser o que as populações consomem.
Antes do agronegócio, quem pecou foram governos que não prestaram atenção numa atividade que precisava de planejamento e regulamentação. Daí, as justas críticas ao modelo fundiário desenvolvido no Brasil e que expulsou enormes excedentes de trabalhadores rurais para as cidades. Ou, à devastação que a produção provocou no meio ambiente.
Ir na bubuia significa boiar, flutuar, no sentido da correnteza. A agropecuária brasileira não estaria na posição em que está caso tivesse apenas bubuiado.
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