ANDREA MURTA
DE WASHINGTON
A visita do presidente americano, Barack Obama, ao Brasil, no próximo fim de semana, ainda suscita dúvidas em meio a especialistas de relações internacionais quanto ao seu verdadeiro propósito estratégico. Para Peter Hakim, presidente emérito do think tank (instituto de pesquisa) Inter-American Dialogue, Washington não explicou direito o que quer com a viagem.
O presidente americano deve partir de Washington na sexta-feira (18) para começar seu programa oficial em Brasília no sábado (19) com uma reunião bilateral com a presidente Dilma Rousseff, com a qual abordará a cooperação em matéria de energia e infraestrutura.
No domingo (20), o presidente americano irá ao Rio de Janeiro, onde após visitar o Cristo Redentor fará um discurso ao povo brasileiro na Cinelândia
A visita acabou se tornando uma indagação sobre o que o Brasil pode fazer pelos EUA, principalmente na área econômica, de forma unilateral, defende o especialista. Leia a entrevista na íntegra:
FOLHA – O sr. havia dito que via uma falta de propósito na viagem. Por quê?
PETER HAKIM – Não sinto que o objetivo real da viagem foi bem explicado. Houve diferentes focos ao longo do tempo.
Acabou se tornando largamente voltada a comércio e negócios. A equipe que viaja com o presidente é praticamente toda da área econômica. A secretária de Estado, Hillary Clinton, não vai, nem ninguém da Defesa.
A viagem começou como uma visita presidencial para discutir temas polêmicos que atrapalhavam a cooperação entre os dois países, principalmente Irã e programas nucleares, mas isso se tornou secundário, assim como o papel que deve ter o Brasil na América Latina e no mundo. O que importa agora é o que a viagem pode proporcionar para a economia americana.
O comércio é terrivelmente importante, mas não é o único tema importante das relações bilaterais. E não sei se os outros temas estão recebendo a atenção que merecem. Os assuntos mais importantes na relação são geopolíticos, e o Brasil deveria ter chance de falar sobre o Conselho de Segurança da ONU.
Espero que, em privado ou em público, esses assuntos sejam abordados e que a viagem não seja apenas para o presidente se sentir bem.
As coisas mais importantes da viagem não parecem ter sido bem pensadas, e há aparência de desorganização.
Há sensação no Brasil de que os EUA estão oferecendo pouco. O sr. concorda?
Sim. Nessa viagem Washington está dizendo: ‘não pergunte o que os EUA podem fazer pelo Brasil, mas o que o Brasil pode fazer pelos EUA’.
A Casa Branca diz que quer fazer parcerias globais com o Brasil. Isso mostra reconhecimento de uma nova estatura do país no cenário internacional?
Não sei bem o que eles querem dizer com ‘parcerias’. É improvável que desejem ir até lá discutir o Oriente Médio. Não creio que querem atuar com o Brasil em geopolítica ou nos temas em que divergem. Acho que querem fazer programas de assistência na África ou repetir o modelo de cooperação que têm no Haiti.
Então qual o significado da ida ao Brasil?
O Brasil é a parte mais importante da viagem. O que acontecer no Brasil indicará se teremos uma mudança real de política dos EUA para a América Latina.
O que Washington espera de Dilma Rousseff?
Acho que as expectativas estão exageradas. O Departamento de Estado vê uma mudança de tom em política externa, mas Dilma não disse exatamente ainda como pretende lidar com a área. Houve sinais positivos, mas ela não se posicionou por exemplo sobre o programa nuclear do Irã, por exemplo. E seus conselheiros internacionais são muito ligados ao governo anterior. Além disso, o Brasil teme mudanças muito fortes, sua política externa é marcada pela continuidade. Estão otimistas demais.
Há uma frustração [nos EUA], pois todos sabem que é preciso lidar com o Brasil. E a relação não tem sido produtiva internacionalmente, há mais problemas que avanços.
O estado em que deixaram a relação com os EUA é na minha opinião o maior erro do governo anterior.
Parece que não vão endossar oficialmente uma vaga permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU. O sr. acha que é um erro?
Sim. Ou os EUA não quer que o Brasil tenha essa posição ou teme insultar o resto da América Latina. Mas o Brasil é um dos dois o três candidatos mais viáveis para uma vaga permanente. E as perspectivas de reforma do conselho estão melhorando. Vai ser relativamente inevitável que países emergentes ganhem mais representatividade, e o Brasil será um deles.
O Brasil nem precisa negociar isso com os EUA. Mas tem mais convergência de posições com os EUA do que a Índia, por exemplo. Então não entendo.
Então o que o Brasil pode esperar da visita?
Não muito. O melhor será uma boa conversa entre Barack Obama e Dilma, que verse sobre quais são os problemas e o que EUA e Brasil esperam um do outro. Posso ter que retirar minhas palavras se algo grande for anunciado, mas algo importante teria que já ter sido negociado. Talvez possam se acertar mais em relação à posição contra a valorização da moeda chinesa.
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