4 de junho de 2026

As emendas parlamentares e o salário mínimo

Do Valor

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Dilma mantém emendas para aprovar piso de R$ 545

Paulo de Tarso Lyra | De Brasília
10/02/2011

Os ministros e líderes integrantes da coordenação política de governo convenceram a presidente Dilma Rousseff, na noite de terça-feira, a dar um tratamento diferenciado aos parlamentares na decisão dos cortes no Orçamentos anunciados ontem. Preocupados com a repercussão negativa da medida na votação do salário mínimo de R$ 545, os articuladores propuseram que os R$ 18 bilhões de emendas parlamentares – de um total de R$ 21 bilhões – sejam apenas contingenciados e não cortados do Orçamento. Isso significa que, caso a economia volte a crescer e a arrecadação de impostos retome o ritmo normal, elas poderiam ser liberadas novamente.

No Congresso, o recado foi entendido por quase toda a base aliada, embora o corte, ou o contingenciamento, não tenha sido efetivado ontem. Foi anunciado apenas um número global a ser economizado. Líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves (RN) disse que em todo início de ano é natural este movimento de contingenciamento. “Os parlamentares, os governadores e prefeitos estão conscientes de que este é um momento em que todos precisam dar sua cota de sacrifício”, afirmou ele. O líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes (GO), disse que todos sabiam que, em algum momento, a crise econômica financeira internacional atingiria as contas públicas brasileiras. “Eu preferia que não tivessem cortes. Mas eles são inevitáveis diante do déficit público e da volta da inflação.”

MasoMas o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho (PDT-SP), continua apostando que o governo será derrotado no plenário na votação do mínimo. “Com a ajuda que o Mantega [Guido Mantega, ministro da Fazenda] nos deu, podemos até aprovar o mínimo de R$ 600 defendido pelo PSDB”. Ele disse que manterá sua emenda propondo um salário mínimo de R$ 580 e que seu partido vai aliar-se ao PCdoB para propor um salário de R$ 560.

Para diminuir as insatisfações na base aliada, Dilma desistiu de vetar, na peça orçamentária, o aumento de R$ 100 milhões para R$ 200 milhões do fundo partidário. Como esse reajuste de 100% foi definido por um acordo de lideranças, Dilma foi avisada que seria péssimo comprar uma briga com os líderes aliados no momento em que o Planalto precisa dos votos para aprovar o novo mínimo.

O governo sinalizou boa vontade com o Congresso, mas quer a certeza de que o esforço será recompensado. Na reunião de terça-feira à noite no Planalto, Dilma fez uma defesa enfática da responsabilidade fiscal mas, acima de tudo, da fidelidade partidária. “Não existe meia fidelidade”, disse a presidente aos responsáveis pela interlocução com o Congresso. Eles terão de mostrar ao Congresso que o mínimo de R$ 545 é compatível com o equilíbrio fiscal do governo e que, se um número maior for aprovado, ficará praticamente impossível cumprir o compromisso de liberar posteriormente as emendas parlamentares.

Ela assegurou também que não fará como o governo anterior, que expôs seus aliados na votação do salário mínimo e do reajuste dos aposentados mas, quando o Congresso aprovou um número maior que o defendido pela equipe econômica, não teve coragem de vetar. “Existe uma preocupação real com o risco da volta da inflação.”

Além disso, o discurso para o Congresso é que, mais importante do que os R$ 545, é a manutenção da política de valorização do salário mínimo, com base na inflação do ano anterior mais o PIB de dois anos antes. E que o valor atual é apenas consequência desta tese.

Para o governo, qualquer reajuste fora desta equação significaria prejuízos praticamente irreversíveis para a política elaborada em parceria com as centrais sindicais. Caso o governo ceda agora e antecipe o aumento de quase 14% previsto para 2012, abriria brechas para que, no ano que vem, algum setor proponha o parcelamento do reajuste. Além disso, o Planalto alertou os aliados para análises contrárias feitas por alguns especialistas que consideram a fórmula atual indexadora. “As centrais sindicais deveriam estar mais atentas à isto”, afirmou um aliado de Dilma.

A decisão de Dilma de encaminhar o reajuste do salário mínimo por projeto de lei, e não por medida provisória, executa duas estratégias do governo. Medidas provisórias têm vigência imediata e projetos de lei têm uma tramitação mais demorada. Mas, neste caso, se o Congresso demorar a aprovar o PL, terá que prestar contas aos trabalhadores que ficarão sem o reajuste do mínimo. E mais: o governo não encaminhará o outro projeto corrigindo em 4,5% a tabela do Imposto de Renda, jogando a classe média contra o Legislativo.

A escolha de um PL com urgência urgentíssima também não foi por acaso. Emendas em medidas provisórias necessitam de 60 assinaturas para serem apresentadas. Projetos com urgência requerem 103 – um terço da Casa, dificultando o trabalho dos dissidentes. “Em vez de apresentarmos várias emendas, tivemos que fazer uma, amplificada, para tentarmos derrotar o governo”, reconheceu o deputado Paulinho (PDT-SP).

Alguns integrantes da base aliada, contudo, acham que o governo está arriscando muito seu capital político em um início de mandato. Segundo eles, é um perigo confiar em um acordo de líderes em um Congresso recém-empossado. “Tirando líderes como Henrique Alves (PMDB-RN) e Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), a maioria dos demais não consegue controlar 10% de suas bancadas”, disse um experiente deputado nordestino. Mas o recém-nomeado líder do PR na Câmara, Lincoln Portela (MG), disse que os aliados têm de ter consciência de que “ser governo não tem apenas bônus, mas também responsabilidades”. 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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