
Jornal GGN – Em artigo publicado no Huffington Post Brasil, a advogada Tayná Leite enumera as razões pelas quais não participou e não pretende participar das manifestações contra o governo. Para ela, o momento é de posicionamento contra a “loucura e a polarização”, e também contra a idolatria de pessoas e figuras, que não contribui para o debate político e o avanço democrático do país.
Tayná diz que, mesmo não acreditando na inocência do ex-presidente Lula ela não irá para a rua “se for para estar ao lado de pessoas que se afinam com pautas de direita”, acrescentando que a revolta é seletiva da mídia. Ela acredita que é necessária uma reforma profunda de valores e não a “destruição de tudo aquilo pelo que tantos deram suas vidas para conquistar.” E finaliza dizendo que a corrupção não é o maior problema do país, e sim o individualismo e a consequente desigualdade social. Leia mais abaixo:
Do HuffPost Brasil
Então que o HuffPost Brasil me convida para escrever novamente um texto sobre as manifestações a favor do impeachment do dia 13 de março.
Eu estava refletindo sobre isso há alguns dias, já que o texto que escrevi no ano passado teve uma repercussão imensa, mas também doída.
Muita gente que não me conhece me xingou de coisas inomináveis. Me acusaram de corrupta, vendida, petralha, burra, “conivente com a tragédia que assola nosso país” e tantos outros adjetivos que jamais imaginei que seriam atribuídos a mim. Estando grávida e em um momento de maior introspecção e preservação, estava bastante dividida sobre me expor mais uma vez.
Eis que estou navegando inocentemente na minha timeline do Facebook e me deparo com um vídeo beirando o surreal – e que não compartilho por razões óbvias -.
No vídeo, o rosto do juiz Sérgio Moro é utilizado em uma montagem que é uma exaltação pitoresca à sua figura de “salvador da pátria”. A partir disso, ele convoca as pessoas para ir às manifestações a fim de demonstrar insatisfação com o atual governo — leia-se PT, Dilma e Lula porque muitos ignoram que o PMDB é governo e decide votações e tem a presidência de duas casas.
Então me dei conta de que a hora não é de preservação e sim de posicionamento. E o posicionamento não é – necessariamente – à esquerda ou à direita, mas contra a loucura e a polarização. Preciso sim, me posicionar contra essa idolatria de pessoas e figuras que em nada contribui ao debate político e ao avanço democrático.
Então, aqui vou eu.
Mesmo sendo repetitiva, sabendo que vou ler coisas desagradáveis, vou colocar as razões pelas quais, eu, Tayná, não vou para as ruas.
Sou contra toda forma de corrupção e não vou para a rua; mesmo não acreditando na inocência de Lula ou na candura do PT, eu não irei para a rua e jamais irei se for para estar ao lado de pessoas que se afinam com pautas de direita.
Sob a desculpa de estarem preocupadas com a corrupção, essas pautas querem restringir direitos conquistados a duras penas e são capazes de mascarar os problemas históricos desta nação que, como li esses dias no Facebook, sempre foi uma máquina de moer gente.
Continuo não indo às ruas domingo porque essa revolta é seletiva da mídia e também de muitas pessoas que ali estarão.
Esse protesto não é sobre corrupção. A Lava-Jato não é sobre corrupção. Se fosse, seu “garoto propaganda” não seria Áecio Neves. Se fosse, não veríamos, como no ano passado, faixas com #somostodosCunha escrito. Se fosse teríamos gritos e protestos contra Alckmin, Beto Richa, Serra e Fernando Henrique Cardoso.
Continuo não indo às ruas se não for para expor o Cunha, o PSDB, o PMDB e não adianta achar que uma faixa que diz “queremos que todos os partidos políticos respondam por seus atos” represente um real desejo de justiça e igualdade.
A corrupção não é novidade.
Certamente ela não é novidade para quem cresceu sem saneamento básico e asfalto porque a verba nunca chegou. Ela não é nada nova para quem não teve acesso à educação básica e à saúde por séculos e décadas, muito menos para os que vivem sem água no sertão ou para os que morrem todo ano nas enchentes fluminenses.
Então, não se engane dizendo que a sua revolta é com o nível absurdo de corrupção. Ela está aí, corroendo o Brasil há séculos de formas muito mais perversas e nem por isso você gastou seu teflon com isso.
Muitos dizem: “mas eu não vou domingo pedir a volta da Ditadura” ou “mas eu não apoio o Cunha ou Bolsonaro”. Essas mesmas pessoas estarão lado a lado com essas mesmas pautas e este risco eu não quero correr.
Eu fui às ruas contra o Beto Richa e os deputados que massacraram os professores. Eu fui às ruas contra o PL 5069/2015 e o Cunha que ainda insiste em culpabilizar as mulheres vítimas de violência e nos tolher o pouco de direitos reprodutivos conquistados.
Eu não fui pra rua tirar foto com a PM ou abraçar o amigo com a camisa da seleção brasileira (que representa uma das instituições mais corruptas do Brasil e quiçá do mundo). Curiosamente, nessas manifestações não havia rua fechada para nós, nem cordão de isolamento.
Poucos que se indignarão domingo estavam lá apoiando as mulheres. Faltavam muitos dos defensores inflamados do Lula e das Instituições Democráticas. Não teve cobertura da grande mídia e as pessoas passavam com seus carros xingando e reclamando do trânsito.
Por que será?
“Toda vez que você se encontrar ao lado da maioria, é hora de parar e refletir.”
Eu não irei às ruas pedir o fim da corrupção ao lado de pessoas que, em muitos casos, não pagam seus impostos, vivem em Miami, mas nunca tem nada a declarar na alfândega e ainda se iludem “que roupa não entra na cota”.
Eu não vou às ruas com quem apoia a redução da maioridade penal ou quem é contra a legalização do aborto e jamais, nem sob decreto, irei para a rua com quem acredita que um país com tantas desigualdades como o nosso, no qual a maioria da população é diariamente massacrada pelo Estado, esteja como está apenas por culpa do PT.
Eu não irei às ruas celebrar o Moro ou o MPF que se acham “paladinos da Justiça” quando estão, quando muito e com ressalvas, apenas fazendo seu trabalho.
Para mim, os fins continuam não justificando os meios.
Pode se tratar do Lula, do Cunha, do meu vizinho ou de quem for. Vou pelo caminho mais difícil da mudança. Aquele que passa por uma reforma profunda de valores enão pela destruição de tudo aquilo pelo que tantos deram suas vidas para conquistar.
Não, para mim Moro não é ídolo. Aliás, sequer é alguém que eu pessoalmente admire e sim, eu considero o MP – com raras exceções – um órgão do qual desconfiar; e não, jamais apoiarei nem dez nem duas medidas “contra a corrupção” que sejam também contra a Constituição.
Também não podemos continuar perpetuando discurso de ódio e culpando os outros pelos nossos problemas sem que nos dediquemos minimamente a aprofundar a reflexão e fazer algo para resolvê-los. Essa discussão Fla-Flu não nos levou a lugar nenhum.
Chamar o cidadão de “coxinha” não vai resolver em nada. Culpar o empresário que acorda cedo, paga impostos e que gera empregos também não. Ajuda muito menos aquele que defende o governo cegamente com unhas e dentes sem enxergar suas incoerências, sua hipocrisia e demagogia — e o quão pouco o próprio PT fez para corrigir distorções históricas no tratamento que é dado ao cidadão pelo próprio judiciário que agora “os persegue”.
Ainda assim, mesmo eu não indo para a rua por todas as razões expostas, acredito que o protesto é um meio valido de manifestar insatisfação e sei muito bem que nem todos que vão acreditam em todas as pautas ali colocadas.Acredito também que muitos dos que ficarão em casa são realmente iludidos e estão cegos pela ideologia.
Então, vá às ruas no dia 13 e demonstre sua posição. Vá em paz e proteste! Mas lembre-se quem estará ao seu lado e que tipo de pautas estão sendo reivindicadas.
E mais: nem o impeachment nem o status quo resolverão o problema. A única coisa que vai iniciar a mudança verdadeira é o olhar para primeiro para si, depois para o outro com atenção e empatia.
É sair da cadeira e da frente do computador e agir. É ler, estudar, empoderar, ocupar o espaço público, cobrar os políticos, votar com consciência e (de preferência ir votar).
Você pode achar que o maior problema do Brasil é a corrupção, mas não é. O maior problema do Brasil é o individualismo e a consequente desigualdade social. A corrupção é apenas sintoma de uma causa muito mais podre e pobre.
Roberto
13 de março de 2016 2:01 pmDomingo, você vai? (Antonio
Domingo, você vai? (Antonio Veronese)
[video:https://youtu.be/6tRcYOkusKM%5D
Rosa Maria Anello dos Santos
13 de março de 2016 3:23 pmMuito bom esse
Muito bom esse vídeo,,Parabéns!
Neusa Maria Barbosa
13 de março de 2016 2:24 pmtayná leite – manifestações
Em tempos tão polarizados, é um bálsamo ler o arrazoado tão sereno da Tayná Leite. Mesmo discordando dela em alguns pontos, ela está totalmente no caminho certo.
Muito bom também assistir ao comentário do Antonio Veronese – é um chamamento à lucidez! Como é que os partidos mais corruptos (DEM, PSDB, PMDB) podem estar à frente de uma manifestação contra a corrupção? Acordem os que tiverem que acordar…
E vamos ter calma e respeito mútuo às diferenças para continuar a construir este país. Falta muita coisa! E não vamos destruir o que muitos perderam a vida para construir, como lembrou a Tayná – a democracia e a liberdade de pensamento, especialmente.
Nonato Amorim
13 de março de 2016 2:43 pmPOR QUE TAMBÉM CONTINUO NÃO INDO
Porque é preciso desenhar para uma grande parte do que estão indo nesse efeito manada. Alguém que estivesse em sã consciência iria a uma manifestação organizada pela dupla “globo+patronada”? Quando essa dupla convocou algo em defesa do Brasil? Abç
Andre B
13 de março de 2016 3:15 pmEu vou a rua para protestar
Eu vou a rua para protestar por melhores salários, melhorias de condições de vida dos trabalhadores e por serviços públicos universais, gratuitos e de qualidade, seja lá qual for o governo. Não vou a rua para me pronunciar contra ou a favor de qualquer politico, não sou massa de manobra.
alexis
13 de março de 2016 3:21 pmToo much emotions! I love Brazil
É emocionante ver o Brazil marchando.
Gente bonita e bronzeada apenas pelo sol deste maravilhoso país. Um grupo de cidadãos de Curitiba e Florianópolis parece que anda circulando pelo Brasil, nesta bonita manhã de Domingo, ao convite da Globo News, o QG do golpe.
Imagens de milhares de manifestantes na Av. Atlântica contrasta com 50 fanáticos de vermelho que foram a prestar solidariedade nas portas da residência do Lula. Assim compara a radiante Cristiana Lobo.
Emocionante ver uma cidade de Salvador branca, sim, cheia de gente cheirosa e bonita, assim como antes explicado, como se fosse uma comitiva da zona rica da cidade de Curitiba fazendo uma tournée. Parecia Miami em dia 7 de setembro.
São milhares de meninos, idosos e, naturalmente, alguns eleitores, que quase deram a faixa presidencial ao Aecim, em 2014.
Mas, depois daquele piquenique, vamos ver agora como o povo de verdade reage. Aquele povo que nasce, vive, trabalha, ganha, gasta e morre no Brasil. Pelas imagens mostradas na TV, temos aqui o Brazil contra Brasil. Sugiro, no dia 18, levar bandeiras do Brasil e cantar o hino com orgulho, pois ambos símbolos são muito mais nossos do que deles, traidores e vende pátrias.
Manubhz
13 de março de 2016 3:32 pmhttps://secure.avaaz.org/po/p
https://secure.avaaz.org/po/petition/CNJ_Conselho_Nacional_de_Justica_Destituicao_do_cargo_de_Juiz_Federal_do_Dr_Sergio_Moro/?aVtwLjb
maria rodrigues
13 de março de 2016 4:04 pmA gente chega sempre à
A gente chega sempre à conclusão que, por piores que sejam as ideologias, ou qualquer outra coisa que embale pessoas a sairem às ruas, tem um peso. Seria pior se ninguém pudesse se exprimir, como numa ditadura. Disto ninguém pode duvidar, a não ser os saudosos dos anos sombrios. Digo isto porque, após as manifestações sempre veremos aqui nas redes sociais, e em toda a Internet, o resumo da ópera. Uns vão para dizerem que querem a saída de Dilma, a prisão de Lula, corrupto-mor por ameaçar alguns com seu provável retorno ao comando do Governo. Outros dirão que querem a volta dos ditadores. Outros, que já nãoa guentam mais o que está aí, e se perguntado o que tem pra colocar no lugar, não sabem dizer. Por fim, é bacana ver o povo nas ruas, porque as ruas sempre deve ser do povo, e use-a como bem lhe aprouver. O importante mesmo seria que, além de irem às ruas, soubessem por que estavam indo.
Combater a corrupção é ótimo discurso, mas não como temos visto por parte da Lava Jato. Tentar fazer o povo acreditar que a corrupção foi criada por Lula no poder, e que o PT tem que ser extinto porque a imprensa não o aceita, porque Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes assim desejam, e que Moro representa hoje a figura mais importante, inteligente, ciosa, legal, patriota, o Deus que ontem era Joaquim Barbosa, enfim, tudo isso que vimos assistindo não passa de um samba de crioulo doido, que não convence jamais alguém com um mínimo de discernimento.
Eu, particularmente, tenho comigo que o Brasil está pasando por um dos seus piores momentos, desde quando me entendo por gente. Pior no sentido em que não sabemos prever o futuro próximo. Tudo pode acontecer, ou pode não acontecer nada para termos uma definição de futuro próspero.
Dilma é um zero à esquerda. Não sabe se comunicar; não soube conduzir seus assessores, e sequer soube escolhê-los, daí estar agora assistindo o PMDB, ainda encrustrado no seu governo, fazendo verdadeira chacota dela. Um bando de canalhas, a começar pelo Michel Temer, que poderia ter passado sem aquela carta ridícula. Pensar que quem está se sentindo à altura para demovê-la do cargo é Eduardo Cunha já diz muito do que poderemos assistir nos próximos dias.
PSDB e DEM são dois partidos emporcalhados, porém blindados, com os quais nada acontece, do mesmo modo que com o PMDB.
Devemos votar, sim. Acontece que com esse quadro de políticos que está aí, resta saber qual deles mereceria meu voto. Que eu saiba, nenhum. Conto que até novas eleições eu veja em algum político alguma proposta válida que possa me influenciar a votar nele. O número de candidatos cresce a cada dia, mas pode ser que surja um quadro novo, um partido novo, como surgiu com o crecimento de Color, e que seja diferente dele. quem sabe? A esperança não deve morrer.
Por enquanto, resta-nos sofrer cada dia mais, vendo nosso Brasil tão belo, tão rico, ser espoliado, mal-tratado; com o povo sentindo na carne o retrocesso de suas conquistas; sem mais sonhos e ilusões. Já estamos beirando ao desespero. Uma saúde mesquinha, que deixa a população jogada às traças; uma educação fragilizada, incompetente para transformar, na medida em que a evasão escolar entre os jovens cresce a olhos vistos. A grande maioria dos jovens se conforma em chegar ao segundo grau, e saem sem saber escrever um texto direito, sem saber se exprimir, sem ideias, nada. E nem falar da segurança, que o povo realmente não conta com ela pra nada. Um país de bandidos soltos nas ruas, a praticarem os maiores delitos, sem que se tenha noção do que deve ser feito para brecar essa situação tão delicada porque pasa nossa sociedade, toda ela vitimada, em todas as classes.
Combater a corrupção é imperioso porque são bilhões ou trihões que saem pelo ralo, enchendo as burras dos selvagens poderosos, que discursam para uma plateia a fim de angariar votos, e o que fazem depois é envergonhar sua gente, com seus enriquecimentos ilícitos, abandonando as promessas, e deixando o povo na amargura.
O que não podemos assistir é esse combate à corrupção, porém com linha direta a um único partido. É ver exatamente os bandidos mais corruptos, como Aécio, por exemplo, ir às manifestações pra dizer que é contra corrupção.
Chega de tentarem enganar a gente. Eu não me deixo levar por essa corja de safados, donos do poder, capazes de tudo para destruir o Brasil, na medida em que atuam em causa própria.
O que eu posso fazer é cumprir minhas obrigações como cidadã brasileira, participando, contribuindo caridosamente para minimizar o problema de alguns, e só. O resto, é ficar atenta aos desdobramentos das crises que não param de avançar, na política como na economia, até pra saber o que pode sobrar de bom pra vida de todos nós.
Apesar de tudo, não perdi as esperanças, senão tanto pra mim, que já sou idosa, mas para os jovens, os que serão os homens de amanhã.
Eduardo Pereira
13 de março de 2016 6:35 pmParabéns Tayná
Nassif
O melhor artigo já colocado no seu blog em muito tempo !
Toca nas feridas de todos nós , mas minhas inclusive , eu q sou filosoficamente socialista e de esquerda ( acho um absurdo o q acontece c o país agora – a nossa midia morreu definitivamente em termos de credibilidade ) , mas me sinto envergonhado com as minhas próprias graves incoerências de vida !
Antes de quaisquer coisas , temos urgentemente que resgatar nossos próprios valores humanos ( compaixao , partilha , humildade etc ) dentro de nós ! Sem isso não há mudança p uma melhor justiça social !
Tayna , obrigado , e parabéns pelas suas palavras , que valem por mil atos de um Moro ( no fundo , talvez uma pessoa digna de pena, com seus desenganos e ilusões ) !