“Na Universidade de São Paulo fala-se em ‘networking’ até na hora de convidar para jogar rugbi. Quem sai de lá fica com má impressão da palavra durante uma década.”
Não é só na USP e não é só em Direito. Brasileiro safo sabe que “networking” é só um disfarce para aquilo que sempre vigeu neste país: compadrio, QI e outros tantos nomes que tal característica deletéria de nosso povo possui.
São pouquíssimas (e bota pouquíssimas aí) áreas profissionais no Brasil em que o que conta é ser competente. Talvez sejam as seguintes:
1) Área de Exatas (afinal, não dá para passar recibo quando o assunto é cálculo e método científico). Tudo bem que há os Sérgios Nayas da vida, mas são poucos em relação ao total;
Area2) Área de Biológicas (afinal, não dá para passar recibo quando o assunto envolve organismos, enzimas e outros lances, bem como o tal do método científico). Tudo bem que existem falsos médicos, mas esses tendem a ser desmascarados;
3) Futebol. Em que pese Ugo Giorgetti ter feito texto excelente sobre o “networking” acontecer no futebol (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100124/not_imp500559,0.php, para quem for assinante. Se alguém puder transplantá-lo para lugar de acesso irrestrito, melhor) e vermos o fato de jogar no exterior quase como um pré-requisito para alguém ir para a Seleção, bem como jornalobistas insistindo em jogadores que são mais marketing do que qualquer coisa, ainda sabemos que se o cara não jogar bem, a torcida chiará e pressionará a um ponto que será insustentável a permanência.
Nas outras, infelizmente, conta mais você ter com alguém parentesco (desde que sem serpente), amizade (mesmo que das mais interesseiras e utilitárias e que deixe de existir assim que a criatura passa a perna no criador que a pôs pra dentro), algo entre quatro paredes (uma vez que fazer a empresa pagar por aquilo que você pagaria com seu salário é uma ótima forma de economizar para conseguir o mesmo serviço) e outras que mostram que neste país ninguém precisa ser competente no que desempenha e gostar do que faz para ter uma vida bem-sucedida.
O pior de tudo isso é o clima de desconfiança que impera no País por causa disso. Tem empresário brasileiro que não contrata mão de obra se não for por indicação de alguém que esteja lá dentro, ou seja, se Jack, o Estripador tiver um amigo lá dentro, será preferido em relação ao Zé da Silva que não apenas fez faculdade como também especialização em Coimbra, mestrado em Harvard, doutorado em Oxford e pós-doutorado em Princeton. Aliás, esse Zé da Silva será estigmatizado como pouca-prática (uma vez que aqui só querem gente que reproduza acriticamente o mesmo modelo), sendo esse um dos motivos de nossas empresas terem alergia à inovação e à necessidade de investimentos vultuosos que isso demanda.
E como brasileiro safo sabe que por aqui há que se presumir que sacanagem será feita a cada lance, até sobre emprego estatutário paira a desconfiança. Quantas vezes não vemos parente de dinastia ser aprovado em concurso? OK, pode até ter rachado de estudar, mas não deixa de ser estranho ver sempre os mesmos nomes lá em cima. E o que dizer de concursos públicos com duas fases, sendo que na fase seguinte subitamente uma multidão de pessoas bem preparadas vira um bando de burros e sequer conseguem a nota de corte em provas subjetivas? Eis que o cara passa e descobre que lá dentro, se não estiver na patota deste ou daquele partido não conseguirá progredir enquanto servidor competente e zeloso de seu dever.
Se isso será quebrado e finalmente nos primeiro-mundializaremos, acho difícil de acontecer. É muita gente e, como diria Capitão Nascimento, “o sistema não trabalha para a sociedade. O sistema trabalha para o sistema” e quem fala isso logo é tachado de negativista social e reclamão, uma vez que por aqui também vigora forte mentalidade de autoajuda e autoestima que muito ajuda a mascarar a verdade.
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