10 de junho de 2026

A Itália contra as sete irmãs do petróleo, por André Araújo

 
Enrico Mattei, homem que criou e estruturou a estatal ENI, junto com 
 
por André Araújo
 
Das grandes economias europeias do pós guerra, a Itália era a única que não tinha sua empresa de petróleo, elemento essencial para reerguimento da economia saída da guerra.
 
Em 1953, mesmo ano de fundação da Petrobras, foi criado o ENTE NAZIONALI IDROCARBURI-ENI, uma empresa estatal para explorar, refinar e distribuir petróleo. O homem que criou e estruturou a ENI foi Enrico Mattei, funcionário do governo italiano, pai da ideia e chefe único da ENI até o dia de sua morte. um idealista que a partir do zero e com vontade que teve a paixão por iniciar essa grande obra até sua morte em um inexplicado explosão de jatinho  em 1962, acidente que na época despertou graves suspeitas de assassinato e foi enredo um um famoso filme, O CASO MATTEI.
 
A economia italiana é de industrialização tardia, como a alemã, mas com características muito específicas. É uma economia de alianças e compadrios políticos, de arranjos entre o público e o privado, onde ao contrário da transparência tão essencial ao capitalismo estruturado anglo-americano, o segredo, a palavra empenhada, o domínio do “capo” são as alavancas que fazem esse economia funcionar e não a construção institucional tão própria de corporações anglo-americanas, uma economia muito parecida com a economia brasileira pré-Lava Jato, uma ação mais entre amigos do que de organograma.
 
A criação da ENI e sua operação internacional foram consideradas uma agressão ao cartel mundial de petróleo, conhecido como as SETE IRMÃS: Royal Dutch Shell, Anglo Persian Oil Co. (hoje BP), Standard Oil Co.of New Jersey (hoje Exxon), Standard Oil Co. of Califronia (hoje CHEVRON), Standard Oil Co.of New York (depois MOBIL OIL e hoje parte da EXXON), TEXACO (hoje parte da CHEVRON)  e GULF OIL (também parte da CHEVRON).
 
A regra internacional do cartel era dar aos países onde estavam as jazidas um royalty de 27.5% sobre o lucro bruto da exploração, todas davam o mesmo percentual. A ENI chegou oferecendo 50% de royalty, seu primeiro alvo foi a Líbia, depois o Egito, Nigéria, e fez um grande acordo com a SONATRACH, estatal do gás da Argélia. A ENI construiu gasodutos sob o mar Mediterrâneo para trazer gás para a Itália, tinha sua própria empresa de projetos (a SNAM PROGETTI), de consrução (SAIPEM), de gás (LIQUIGAS).
 
A ação da ENI irritou profundamente as Sete Irmãs que tiveram que acompanhar a ENI, diminuindo seus lucros.
 
A ENI foi o detonador mas o conjunto do capitalismo italiano que operava com alianças secretas e acordos nunca muito claros sempre irritou profundamente as corporações anglo-americanas que não conseguiam entender como uma economia aparentemente desorganizada conseguia tanto sucesso que na superfície parecia improvável.  A Itália tinha excelência em automóveis, tratores, motores diesel (FIAT, Lancia, Ferrari, Alfa Romeo), química (Montecatini), siderurgia (Dalmine), material bélico (Oto Melara), farmacêuticos (Carlo Erba) seguros (Assicurazioni Generali di Triestre i Venezia), helicópteros (Agusta), sem falar nos domínios tradicionais de alimentação, tecidos, moda.
 
Um exemplo do modelo de capitalismo italiano foi o MEDIOBANCA, um banco de investimentos de Milão montado pelos grandes grupos italianos com participação do Estado, seu fundador foi Enrico Cuccia, um siciliano, tornou-se o mais poderoso banqueiro italiano, nenhum grande negócio se fazia na Itália sem seu apadrinhamento. Assim como Mattei não era dono da ENI, Cuccia não era dono do Mediobanca, mas era o “capo” que todos respeitavam. Foi obrigado a se aposentar aos 70 anos, uma semana depois a esposa implorou que lhe dessem alguma coisa para fazer no banco para que ele não ficasse em casa mofando, deram-lhe a chefia do setor de expedição e correio, o mais humilde do banco.
 
Dois depois todos se dirigiam a ele e nenhum grande negócio se fechava sem seu consentimento. Porque? No sistema italiano, que vem do Renascimento, o “capo” é um atributo da pessoa e não da instituição, o capitalismo italiano não é institucional e sim pessoal, algo incompreensível para os anglo-americanos, que não suportam um sistema onde não se sabe quem manda pelo cartão de visitas, não é o cargo formal, é o atributo pessoal que faz o poder.
 
Esse capitalismo dinâmico precisava ser desmontado porque era um ponto fora da curva no sistema global.
 
Na sequencia veio a operação Mãos Limpas, para colocar o capitalismo italiano  nos trilhos do sistema global, com o fim do antigo modelo de “capitalismo pessoal” que serviu a Itália por cinco séculos, a Itália teve o primeiro banco da História, criado pelos Medici em Florença e foi a Itália quem inventou o sistema de partidas dobradas, base da contabilidade até hoje.
 
A ENI foi privatizada assim como todos os bancos italianos, que eram estatais, a eletricidade, a Montecatini, a navegação, os estaleiros, as holdings poderosíssimas FINMECANICA, com 400 faáricas e a  ITLSIDER.
 
A Mãos Limpas no processo também desmontou o sistema político que sustentava esse capitalismo, deixando a Itália vulnerável a absorção de sua economia pelas grandes corporações anglo-americanas. Depois disso a Itália praticamente estagnou, entrou em decadência política, social e econômica, perdeu importância relativa, o surgimento de um tipo vulgar como Berlusconi no mesmo Parlamento onde despontaram vultos como De Gasperi e Giulio Andreotti (perseguido pelas Mãos Limpas) é um sinal simbólico desse tempos novos de um capitalismo que perdeu sua identidade nacional.
 
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A campanha mundial contra o capitalismo de pessoas

 

Andre Motta Araujo

Advogado, foi dirigente do Sindicato Nacional da Indústria Elétrica, presidente da Emplasa-Empresa de Planejamento Urbano do Estado de S. Paulo

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  1. Andre Araujo

    7 de março de 2016 2:02 pm

    Na foto acima Mattei está com

    Na foto acima Mattei está com Gamal Abdel Nasser, Presidente do Egito.

    1. Severino Januário

      7 de março de 2016 8:51 pm

      Outro que foi assassinado

      Outro que foi assassinado porque queria sua terra, o Egito, livre, laico e desenvolvido. Em sua gestão os russos contruiram a hidrelétrica de Assuã no Rio Nilo, que deu a energia para o Egito sair da idade da pedra. A Síria, junto com o Egito, formava uma união árabe laica.

      1. Andre Araujo

        8 de março de 2016 1:00 am

        Meu caro, Nasser morreu em 28

        Meu caro, Nasser morreu em 28 de setembro de 1970 de ataque cardiaco causado por complicações da diabetes. Quem foi assassinado foi seu sucessor, Anuar Sadat.

  2. Ugo

    7 de março de 2016 2:04 pm

    impecável

    Profundo conhecedor do sistema Italiano, analista cartesiano.

    Não precisa acrescentar uma vírgula no texto, é uma “case” para quem no Brasil quer aprender com os fatos da historia mesmo que recente.

  3. Andre Araujo

    7 de março de 2016 2:09 pm

    Esquecimento impedoavel nos

    Esquecimento impedoavel nos grandes grupos italianos a PIRELLI, de penus e cabos e a OLIVETTI, de maquinas de escritorio.

    A PIRELLI é hoje chinesa na parte de pneus e holandesa na parte de cabos, foi vendida em retalhos, nos pneus mantem a marca, nos cabos a marca hoje tem nome holandes. A AGUSTA de hilocpteros é hoje britanica, controlada pela Westland.

    A mitica FIAT é quase americana e há serios plaos pata mudar sua sede para os Estados Unidos.

    A Mãos Limpas desmontou por completo o capitalismo italiano tradicional, abrindo caminho para os grupos globais.

     

  4. Eduardo Benevides

    7 de março de 2016 2:17 pm

    Repto
    Artigo ilustrativo. Abordagem que propicia variadas leituras e uma vasta associação de idéias e conceitos.
    Atinge amplo espectro de leitores.
    Muito bom André Araújo.

  5. altamiro souza

    7 de março de 2016 2:19 pm

    é esse tipo excelente de

    é esse tipo excelente de texto que faz do andré um dos mais

    respeitáveis analistas internacionais…

    esses alertas dele, denúncias, poderão ainda evitar o pior?

     

  6. joel lima

    7 de março de 2016 2:21 pm

    André, é muito bem feita a

    André, é muito bem feita a sua análise dos benefícios do capitalismo à la italiana. Como tudo na vida tem um lado positivo e negativo, qual ou quais seriam os pontos negativos dele?

  7. Rpv

    7 de março de 2016 2:58 pm

    “O caso Mattei” – o filme

    “O caso Mattei” – o filme sobre as petroleiras

    https://youtu.be/1JjpfdFfY-U

    Petrobrás: um filme a ser revisto (assista acima, na íntegra)

    Quanto à Petrobras, há um filme para ser visto. Chama-se ‘O caso Mattei’, de 1972. É dirigido por Francesco Rosi, e tem Gian Maria Volonté no papel título.

    Artigo de Flávio Aguiar (publicado originalmente no portal Carta Maior, em 02/jan/2015)

    O Financial Times publicou recentemente um artigo onde se afirma que, dentre as companhias petrolíferas do mundo, a Petrobrás arrisca tornar-se uma “pária”, diante das acusações de corrupção interna e externa. Processada por um fundo abutre nos Estados Unidos, a Petrobrás passa por um momento em que, além das investigações (adequadas), enfrenta ataques demolidores no plano nacional e internacional.
     
    O artigo do FT, além de noticiar as investigações, ressoa também o desejo (“wishful thinking”) de que a estatal brasileira venha a ser isolada, quebrando-lhe a espinha, e de quebra a espinha do governo brasileiro e do próprio Brasil, incômodo besouro que não deveria voar segundo as leis da ortodoxia econômica, mas que no entanto avoa, passando, apesar das dificuldades, por uma fase melhor do que a maioria dos países europeus, envoltos em crises de identidade, de empobrecimento galopante, de ascensão da extrema-direita e de perda de prestígio.  Os ataques vão continuar e recrudescer, sobretudo desde que a ortodoxia europeia entrou em indisfarçável pânico diante da possibilidade de que o Syriza ganhe as próximas eleições nacionais na Grécia e arranque o país dos grilhões da “austeridade”. Se tiver sucesso, vai ser uma “catástrofe”…

    Quanto à Petrobrás, há um filme para ser visto ou revisto. Chama-se “O caso Mattei”, é dirigido por Francesco Rosi (“O bandido Giuliano”, dentre outros), foi lançado em 1972 e tem Gian Maria Volonté no papel-título, o do engenheiro italiano Enrico Mattei, assassinado (hoje isto está judicialmente aceito, embora sem apontar os culpados) em 1962, num atentado contra o avião em que ia da Sicília para Milão e que matou também o piloto e um jornalista que o acompanhava.

    Enrico Mattei (1906 – 1962) foi o engenheiro nomeado presidente da companhia Agip (Azienda Generale Italiana Petrolio), fundada por Benito Mussolini, para fechá-la. Ao invés disto, Mattei, convocando técnicos demitidos no pós-guerra, reativou-a, dinamizou-a e refundou-a sob o nome de Ente Nazionale Idrocarburi (ENI), empresa estatal que existe até hoje, sendo uma das mais dinâmicas da hoje combalida economia do país e uma das responsáveis pelo “renascimento italiano” dos escombros do fascismo na década de 50.

    O motivo desta decisão surpreendente e que contrariou inúmeros interesses naquele momento, dentro e fora da Itália, foi a descoberta de um memorando em que um dos técnicos demitidos registrara a descoberta de jazidas de petróleo e gás no vale do rio Pó, perto de Milão, em terras pertencentes ao Estado. Em 1947 as prospecções confirmaram o memorando, encontrando não muito petróleo, mas muito gás, o suficiente para fornecer energia para a nova industrialização do norte do país.

    Mas o esforço de Mattei não se limitou a isto. Ele projetou a ENI no cenário internacional, e aí seus maiores problemas começaram. Já havia problemas internos, que o filme de Rosi debate intensamente, centrando-se, entre outros temas, na discussão sobre o papel do Estado na recuperação econômica da Itália.
     
    Jornalistas ortodoxos (parece um outro país que conhecemos…) criticaram violentamente o “estatismo” de Mattei, que não cedeu as reservas descobertas à exploração pela iniciativa privada, ressalvando que as empresas particulares eram benvindas – para fazer suas próprias prospecções em outras terras, vizinhas ou não, reguardando a propriedade estatal para a ENI.

    Mas foi no plano externo que os problemas de avolumaram desmesuradamente. Tratava-se de um momento (década de 50) em que o cartel das “Sete Irmãs” (uma expressão cunhada por Mattei) dominava completamente o mercado petrolífero mundial, fazendo acordos lupinos e vorazes com governos corruptos  e colonialistas dos países produtores no Oriente Médio e no norte da África, com condições abjetas, e simplesmente depondo governos que a eles e elas não se sujeitavam, como no caso da Pérsia, futuro Irã, em que o governo nacionalista de Mossadegh foi derrubado em 1953 sob a desculpa de “salvar o país do comunismo”.

    As Sete Irmãs eram:  a Anglo-Persian Oil Company (hoje British Petroleum, BP*), a Standard Oil of California (SOCAL), a Texaco-Chevron*, a Royal Dutch Shell*, a St. Oil of New Jersey (Esso), a St. Oil of New York (SOCONI) (hoje Exxon Mobil*) e a Gulf Oil. As assinaladas com o (*) existem até hoje e estão ativas no plano internacional.

    Mattei tomou várias iniciativas que contrariaram o interesse do cartel e de quem a ele estava ligado, dentre elas:

    1) Começou a percorrer os países do Oriente Médio e do norte da África oferecendo melhores condições contratuais. Alvos: Argélia (então ainda um “protetorado” francês), Tunísia (idem), Marrocos, Pérsia (hoje irã) e Egito. Objetivo: assinar acordos na base de 50%/50% na repartição dos lucros.

    2) Realizou um acordo de compra de petróleo da então União Soviética, contrariando e enfurecendo a OTAN. Um memorando então secreto do National Security Council dos Estados Unidos considerava Mattei alguém “irritante” e um “obstáculo”.

    3) Apoiou o movimento de independência da Argélia, atraindo a ira da organização terrorista francesa Organisation Armée Secrète (OAS), a mesma que tentou matar o General De Gaule, dentre outros atentados. Com isto contrariou também o próprio serviço secreto francês, o Service de Documentation Exterieure et de Contre-Espionage (SDECE).

    Mattei criou uma espécie de fábula, no estilo de La Fontaine e Esopo, para explicar o que estava acontecendo:

    “Um pequeno gato chega onde alguns cachorrões estão comendo num pote. Os cachorrões o atacam e o expulsam. Nós, italianos, somos como este pequeno gato. No pote há petróleo para todos, mas alguém não quer deixar que cheguemos perto dele”.

    Mattei era uma figura pública, no centro da captação financeira do momento. De fato, tornou-se “irritante” e um “obstáculo”. E num momento em que, na Itália do pós-guerra, as várias versões da Máfia tinham se tornado investidoras no mercado financeiro. Não só lá: nos EUA também.

    O desfecho deu-se num vôo da Sicília para Milão. Hoje se admite oficialmente que houve um atentado, provavelmente por uma bomba colocada no avião, acionada por algo como o acender de um isqueiro na cabine (sempre fui contra fumar em vôos). O avião caiu, e sabe-se que vários indícios e evidências foram “lavados” no local, ou não tomados em consideração, como o de que o corpo de Mattei tinha cravados vários fragmentos de metal – o que só uma explosão podia explicar.

    O assassinato – hoje oficialmente admitido – aconteceu num momento em que isto era comum como “aggiornamento” ao mundo da Guerra Fria: recordemos o de Patrice Lumumba, no Congo, e a morte suspeita do Secretário Geral do ONU, Dag Hamarskjold, também numa queda de avião, no mesmo Congo, hoje objeto de nova investigação. Sem falar nos inúmeros golpes de direita na América Latina.

    Além de focar uma tragédia, o filme de Rosi teve a sua própria. Durante a preparação do roteiro o diretor pediu ao jornalista Mauro de Mauro que fizesse uma investigação sobre Mattei. De Mauro tinha uma biografia interessante e complicada. Apoiara os fascistas de Mussolini e depois, quando os ventos mudaram, tornou-se membro da Resistência. Isto lhe garantiu inúmeros contatos, mas também lhe trouxe o hábito de falar demais, com todo mundo.

    De Mauro foi à Sicília, e de lá, num dos últimos contatos com amigos, disse que tinha descoberto “a história de sua vida”. “Algo que iria abalar a Itália”.
     
    Aparentemente, segundo um destes amigos, “falou a coisa errada para a pessoa certa e a coisa certa para a pessoa errada”. Foi sequestrado e morto pela Máfia siciliana. Seu corpo nunca foi encontrado. Dois dos investigadores de sua morte – o Coronel Alberto Della Chiesa e o Capitão Giuseppe Russo – foram mortos também pela Máfia. O episódio é evocado no filme.

    Em 1997 o “Caso Mattei” foi reaberto, à luz das declarações do “capo” Tomaso Buscetta, duas vezes preso no Brasil e duas vezes extraditado para a Itália. Buscetta foi o primeiro a admitir que Mattei fora morto por ordem da Máfia Siciliana. A versão hoje predominante é a de que esta o matara a pedido da “Cosa Nostra”norte-americana que, como o NSC, considerava Mattei um “obstáculo irritante”, por atrapalhar seus investimentos petrolíferos junto a algumas empresas das Sete Irmãs. O envolvimento destas nunca foi comprovado, sequer investigado – exceto pela sugestão do filme de Rosi.

    O caso de De Mauro foi a julgamento em 2011, no de Salvatore Rine, o único mafioso sobrevivente que teria um envolvimento com seu desaparecimento e morte. Rine foi absolvido por falta de provas, e o veredito apontou “assassinato com autores desconhecidos”, um final melancólico para a justiça italiana.

    Embora com pontos análogos, a situação da Petrobrás hoje é diferente. Ela não é mais “um pequeno gato”. Virou um cachorrão. O próprio FT publicou não faz muito uma lista do que consdera hoje “as Sete Irmãs”: a Saudi Aramco, a China NP Corporation, a Gazprom, a National Iranian Oil Co., a PDVSA venezuelana, a Petronas da Malásia, e a Petrobrás. Há diferenças gritantes  em relação às antigas “Sete Irmãs”: elas não formam um cartel. Tanto quanto se sabe, não patrocinam golpes de estado. E algumas das antigas “Sete” continuam em operação, com seus métodos nada ortodoxos.

    Quanto à Petrobrás, o seu problema é que hoje ela descobriu o novo “grande pote”. Ou seja, o Pré-Sal. Isto pode desequilibrar (reequilibrar?) o mundo petrolífero em vários sentidos. O Brasil pode se tornar membro da OPEP. Pode trazer autonomia em matéria de petróleo não só para si mas para a América do Sul como um todo. E o petróleo ainda tem vida longa como fonte de energia.

    A cachorrada ao redor está alçada. A externa, para por os dentes na reserva, impedindo que seus dividendos sejam usados para beneficiar a educação e a saúde dos brasileiros, favorecendo ao invés  a “saúde” e o “bem estar” dos mercados internacionais. A interna, para lucrar com a entrega à voracidade internacional deste patrimônio nacional.

    O filme de Rosi repartiu a Palma de Ouro do Festival de Cannes com “A classe operária vai ao Paraíso”, de Elio Petri. Está no youtube. No anúncio, diz que o filme tem legendas em português. Na versão que vi, não tem. Mas é compreensível para um falante de português ou espanhol.

    Não perca.

     

  8. Pedro Mundim

    7 de março de 2016 3:08 pm

    Do fundo do baú

    Essa expressão “sete irmãs” realmente saiu do fundo do baú. É de um tempo pré-globalização, quando a economia se misturava à geopolítica, e a garantia do acesso às matérias-primas essenciais só podia ser realizada com domínio político e militar sobre regiões, portos e canais estratégicos. É o tempo dos monopólios, conspirações e golpes de estado patrocinados por grandes companhias petrolíferas com o aval de seus respectivos governos.

    Hoje isso tudo acabou. O equilíbrio entre as potências pós segunda guerra mundial tornou desnecessários os velhos impérios coloniais, que foram liquidados. E a globalização que veio na esteira desse equilíbrio tornou anacrônicos os velhos monopólios garantidos pela força das armas: ninguém precisa tomar à força aquilo que está disponível no mercado. Ainda que os produtores de petróleo achem-se há tempos unidos por um poderoso cartéu, as leis do mercado prevaleceram e o preço do barril tem caído. De nada adianta cobrar caro se não vender. Mas muitos comentaristas ainda têm a cabeça presa ao mundo da guerra fria, época de seu grande combate (e derrota), e como explicam os psicólogos, o trauma paralisa o tempo e faz você viver no passado. Esse pessoal ainda insiste em enxergar as sete irmãs por toda parte, juram que conflitos recentes como a guerra no Iraque, na Líbia e na Síria são motivados pelo desejo dos EUA de se apropriar do petróleo dos árabes, como se o petróleo dos árabes já não estivesse disponível no mercado.

    Quanto ao aparente sucesso das economias baseadas do capitalismo de compadres, características da Itália e de muitos países da Ásia de recente industrialização, eu recomendo a leitura de Confiança, de Francis Fukuyama, onde cada caso é analisado em detalhes.

    1. Andre Araujo

      7 de março de 2016 4:16 pm

      Nenhum modelo “acaba” de uma

      Nenhum modelo “acaba” de uma vez, a evolução é por lentas mudanças que se interpentram no novo, há sistemas antigos dentro de novos e novos dentro de antigos, nada é tão esquematico dividido em fases. As majors de petroleo de 1960 existem TODAS elas, nenhuma fechou e estão maiores do que nunca. O capitalismo globalizado anglo-americano não eliminou o capitalismo de compadres que prevalece por toda a Asia, Africa e Oriente Medio, sendo esse capitalismo de compadres hoje mais dinamico do que o capitalismo de “”compliance” anglo americano.

      Respeito suas leituras mas Fukyama é um péssimo cientista politico, pregou o fim da Historia e teve que renegar esse pensamento ridiculo, Fukyama não é levado a serio no nucleo central dos grandes historiadores ingleses e franceses, é bom vendedor de livros em aeroportos mas não tem nenhuma substancia filosofica dos grandes pensadores de nossos tempos como Hobsbawn, Carr, Duroselle, Paul Johnson, Lacouture, David Thomson, Paul Kennedy, Barbara Tuchman, Emily Hill, Robert Chase, no caso do petroleo o grande especialista Daniel Yergin.

      A Historia é muito mais complexa do que modelos didaticos com ciclos bem definidos que não existem na vida real. Existe algo mais antigo do que o capitalismo japonês que tem raizes nos samurais? No entanto esse capitalismo produz hardware de informatica modernissimo mas os habitos e costumes nas coporações que os produzem tem 500 anos por trás.

      Nosso capitalismo de “compadres” abriu mercados importantes na Africa e na America latina porque é “”diferente” do capitalismo americano, se for igualzinho, como querem os “lava jatos”, porque vão querer brasileiros? Vão preferir os americanos se perdermos nosso diferencial. Todo trabalho de conquista de mercados emergentes, que começou no Iraque em 1975 vai ser perdido porque os lava jatos querem um capitalismo asséptico, limpinho, que simplesmente não cola nesses paises e com isso vamos encolher o Brasil e empobrecer nosso povo. Não preciso do Fukyama para perceber isso.

      1. Rpv

        7 de março de 2016 6:55 pm

        O problema é que Fukuyama leu

        O problema é que Fukuyama leu Platão (sobre o mundo perfeito das ideias) e esqueceu de ler Maquivel:

        ““Muitos imaginaram repúblicas e principados que jamais foram vistos e que nem se soube que existiram na verdade, porque há tamanha distância entre como se vive e como se deveria viver que aquele que trocar o que se faz por aquilo que se deveria fazer aprende antes sua ruína do que sua preservação… Deixando pois de lado as coisas imaginadas … e discorrendo sobre as verdadeiras… “

    2. Pedromonico

      7 de março de 2016 4:16 pm

      De qual baú?

      É mesmo? Isso tudo acabou? E atualmente há um equilíbrio entre as potências?

      Vc veio de qual planeta?

      1. Pedro Lunatiquim

        7 de março de 2016 5:48 pm

        Ele não veio, está no mundim da Lua com este “equilíbrio”…

        Equilíbrio pós-guerra houve um (marromênu), militar e científico (mas não econômico) entre EEUU e URSS.

        A deficiência econômica soviética (obs: nunca fui comunista) acabou por quebrar este “equlíbrio”.

        Hoje, em termos de países, temos o império com quase metade do orçamento militar do planeta, bases militares em trocentos países (inclusive Alemanha e UK), colonização econômico-financeira em outros tantos (ex: “ó nóis aqui”).

        Depois uma patota européia ocidental muito bem subordinada, liderada em arranjo anglo pela mom Inglaterra, que atrapalha o resto “continental” (tal qual o breakfast), um grupo asiático semelhante e dois opositores que “pentelham”: a Russia e a China (que não deve ser desprezada, com um sexto da “humanidade” e a terceira maior área do mundo (ao lado da Russia somam ~27 mil km2, contra um pouco menos de EEUU, Canadá, UK, Austrália.

        Há uma velada (ou não?) associação do mundo anglico (que chamam de anglófono) formada exatamente por EEUU, UK, Canadá (oui, français parlé aussi), Austrália e Nova Zelândia (a Africa do Sul tem ” muito preto” e holandes e a India muito hindu…).

        Há o MCE, a nascente Aliança Pacífica (?) e os EEUU sozinho ou a eles ligado.

        Em termos militares, há a OTAN e ” o resto”.

        Em termos de tecnologia no mercado, temos os EEUU, depois Japão, Alemanha, UK, Coreia Sul, israel num grupo, depois China (avançando) e (atrás) Russia. A França…bem a França fala francês, ora!

        Finalmente em comunicação, temos EEUU (controla a Internet, Hollywwood, satelites comerciais, empresas de telecom, cabos, os ns. de série dos procesadores de computadores e telefones, e sua incomensurável rede de espionagem estabelecida pelo mundo todo (ex: “ó nóis aqui”) com suas trocentas agências de “inteligência” (CIA, Homeland, FBI, NSA, Teams n, FA´s, etc.). Depois, beeem depois, temos o MI5/6 do UK, o Mossad de Israel e a KGB (falida?).

        E o Mundim da Lua vem falar em equilíbrio pós-guerra…

        É um piadista lunático … e ainda vive naquele lado que nunca nos vê!

    3. Véio Zuza

      7 de março de 2016 4:28 pm

      Bom, se é um CARTÉU, deve ter

      Bom, se é um CARTÉU, deve ter muitas cartas na manga..hehehe

  9. Eden SP

    7 de março de 2016 3:31 pm

    Capitalismo paulista-paulistano – dúvidas

    Quão influente foi o modelo italiano no estilo do empresariado paulista / paulistano, tipo cabeça Avenida Paulista? Os estilos Matarazzo e Crespi  refletem esse personalismos italiano? 

    Ao que vi, por estas bandas da América do Sul, um grupo que me faz lembrar muito esse estilo italiano é o antigo (não o atual, com capital aberto nos EUA) modelo da Bunge y Born argentino. Só foram mudar de fato a partir da segunda metada dos anos 90, com a profissionalização da gestão.

    1. Andre Araujo

      7 de março de 2016 3:52 pm

      Esse capitalismo estilo

      Esse capitalismo estilo Matarazzo-Crespi  já não existe mais há cinquenta anos O modelo atual sendo desmontado pela Lava Jato é o de grupos empresariais em torno de empreiteiras e esse modelo NÃO é paulista, é baiano-mineiro e nasceu com a construção de Brasilia com as construtoras Rabelo, Mendes, Serveng, Cowan, Andrade Gitierrez,Camargo, as unicas paulistas eram a Camargo e a Serveng. O modelo EMPREITEIRAS era uma barreira às construtoras americanas como Bechtel, Bron & Root, Parsons, Fluor, agora com o desmonte o campo está aberto para elas, depois do rescaldo da operação.

  10. agincourt

    7 de março de 2016 5:05 pm

    sessão pipoca

    André, sua tese é bastante razoável.

    Dito isso, diríamos que faltou a Lula ler um pouquinho de História ou, ao menos, assistir a alguma coisinha da filmografia política.

    Diz que numa sessão cinéfila de O CASO MATTEI pra cacicada petista, Lula teria dito “Pô, Dirceu, num tinha nada melhor pra botar que esses filmes italianos que são um pé no saco?- Num tem aí aquele do Van Daime?

    Pior foi quando um petista desavisado programou AS MÃOS SOBRE A CIDADE – o cara devia ser fã do Francesco Rosi – para a sessão pipoca seguinte.

    (Dudu Paes, Cabralzinho e toda rapaziada das empreiteiras foram convidados  pra assistir, mas não compareceram.)

    A AS MÃOS SOBRE A CIDADE Lula venceu o sono e assistiu até o fim. Finda a película, bradou indignado: “Esse aí a gente tem que censurar aqui no Brasil. Imagina se entra em cartaz na Copa do Mundo ou nas Olimpíadas? – Chama aí o Ministro da Justiça.”

    Se no Caso Mattei teriam explodido o avião, de repente desta vez nem vai ser preciso.

    É o que dá não assistir aos filmes e nem ler os livros.

  11. Felipe Pait

    7 de março de 2016 8:01 pm

    Nunca tinha visto uma defesa

    Nunca tinha visto uma defesa tão vigorosa de Tangentopoli. Fascinante ler, para somar aos arquivos da memória. Sugiro um artigo em defesa do Khmer Rouge para complementar.

    1. Andre Araujo

      7 de março de 2016 10:11 pm

      Ninguem em sã consciencia

      Ninguem em sã consciencia defende a corrupção mas  no campos dos lutadores por boas causas há incontaveis  interesses que não são puros como se vendem.  Muitas aventuras politicas nasceram sob o manto do COMBATE Á CORRUPÇÃO

      Janio Quadros, que nunca foi santo em nenhum campo da vida humana, construiu sua vitoriosa carreira lutando contra a corrupção, com essa luta chegou à Presidencia da Republica.  A Historia está cheia de exemplos semelhantes, almas puras que se apresentam para punir os pecadores e que ao fim são muito piores que os pecadores. O Kmer Rouge era um grupo

      essencialmente contra a corrupção burguesa, exterminou um quaero da população “”corrompida”” do Cmbodja.

      Grupos como Mãos Limpas dão calafrios a quem quer que tenha minimo conhecimento de Historia.

      Não havia nada mais purificador do que a Santa Inquisição que deixou cicatrizes por tres séculos mas eles eram os “puros” que iriam eliminar os pecados do mundo. Queimaram em fogueiras milhares para “limpar” o mundo de seus pecados.

      O Comité de Salvação Publica guilhotinou 13.000 franceses para “”purificar” a politica francesa.

      Através da Historia por milenios esses “”grupos de purificação” são os piores elementos da Historia em poder destrutivo.

      E através dos séculos tem ingenuos que neles acreditam.

      Conheci Janio muito d perto, gostava dele, trabalhei para ele, mas era puro teatro, o moralista de plantão para trouxas

      que acreditam em duendes e fadas madrinhas, categoria que hoje tem aos milhões de polianas e santelmos.

  12. Snaporaz

    7 de março de 2016 10:20 pm

    Se a Itália não fosse  museu

    Se a Itália não fosse  museu a céu aberto e repositória  da história do mundo ocidental,possivelmente,  “mani politi”, a tornaria par da  Grécia,medíocre,inexpressiva e historicamente  “fake”.Ainda que  Berlusconi, se  esforce.

  13. junior50

    8 de março de 2016 12:58 am

    Europeização X Globalização x USA

      Anterior a adoção do Euro,  uma “bandeira européia”, a consolidação das estruturas industriais da futura “Zona do Euro ” ( anos 80 / 90 ), Bruxelas, a época Estrasburgo, detectou que os conglomerados estatais, italianos e ingleses, eram refratários, a entrarem na UE – e o que a Europa/Bruxelas fez :  1. arreebentou a libra nos anos ’90, 2,. Apoiou em genero, numero e grau, investigações para derrubar a Italia, as corporações italanas, tanto que hj. o Grupo Finmeccanica, apesar de 30,0% pertencer ao Estado Italiano, as descisões estratégicas deste grupo, não estão em Roma, mas em Londres.

       

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