DE “O GLOBO”
REUNIÃO DE CÚPULA
Obama não quer dependência dos EUA: presidente pede ao G-20 mudança na demanda global
Publicada em 10/11/2010 às 23h54m
O Globo, com agências internacionais
SEUL e WASHINGTON – O presidente americano, Barack Obama, chegou nesta quarta-feira a Seul para a reunião do G-20 (grupo das 20 principais economias do mundo) com um apelo aos demais líderes para que mudem o foco da demanda econômica global e abandonem a dependência histórica do consumo e financiamento americanos.
Em carta a seus colegas do G-20, Obama tentou acalmar a tensão sobre a guerra cambial. Mas não citou duas causas dessa tensão: o controle do câmbio pela China e a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) de injetar US$ 600 bilhões na economia americana.
“Uma forte e durável recuperação não vai se materializar se as famílias americanas pararem de poupar e voltarem a tomar empréstimos para gastar”, afirmou Obama, salientando a necessidade de cooperação global. “Nenhum país pode atingir sozinho nosso objetivo de uma recuperação forte, sustentável e equilibrada.”
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Painel propõe cortes de US$ 4 trilhões nos EUA
A questão é se China e Alemanha tomarão medidas para reduzir sua dependência das exportações e seu alto nível de poupança para consumir mais, como quer o governo Obama. A China, por exemplo, elevou nesta quarta-feira os depósitos compulsórios dos bancos em meio ponto percentual. A medida, que entra em vigor no próximo dia 16, visa a retirar liquidez do mercado. É a quarta elevação neste ano.
Enquanto isso em Washington, os presidentes da comissão bipartidária do déficit propuseram cortes nos gastos militares e domésticos de US$ 4 trilhões entre 2012 e 2020. O texto prevê a redução das aposentadorias e um imposto sobre os mais ricos para financiar a Previdência nos próximos 75 anos. A idade da aposentadoria passaria de 67 para 68 anos em 2050, chegando a 69 anos em 2075.
A comissão é composta por 12 parlamentares e seis cidadãos. O texto precisa de 14 votos para ser enviado ao Congresso.
http://oglobo.globo.com/economia/mat/2010/11/10/obama-nao-quer-dependenc…
GUERRA CAMBIAL
G-20: Mantega defende criação de mix de moedas para reservas em substituição ao dólar
Publicada em 10/11/2010 às 23h37m
Fernando Duarte e Maria Lima, enviados especiais a Seul, com colaboração de Martha Beck
SEUL e BRASÍLIA – O ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendeu nesta quarta-feira em Seul que o dólar deixe de ser a moeda de referência para transações comerciais e financeiras internacionais. Mantega, que chegou à capital sul-coreana para participar do encontro dos líderes das 20 maiores economias do mundo, o G-20, afirmou que o dólar hoje tem um papel desproporcional à importância da economia americana.
Para o ministro, só um sistema de cesta de moedas seria capaz de compensar decisões unilaterais do governo americano, como o recente anúncio do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de injeção de US$ 600 bilhões na economia. Segundo Mantega, apesar de o comércio americano equivaler hoje a apenas 25% do volume mundial, o dólar é usado em pelo menos 80% das transações.
– Os EUA serão criticados por vários países nesta reunião. Não é uma situação comum, eles têm de reagir de alguma forma. Caso contrário, teremos de rever o sistema financeiro internacional. Talvez os EUA já não tenham mais condições de ser o país com a moeda de reserva universal – disse Mantega. – Talvez precisemos de um recuo do dólar e avanço de novas moedas para fazer as transações relacionadas a uma cesta de moedas, incluindo o real. Aí os EUA podem fazer o que bem entenderem, pois afetarão menos o mundo.
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‘O dólar ficou mais importante que os EUA’
O ministro disse que vai sugerir aos colegas de pasta do G-20 uma adaptação da cesta de moedas existente nos direitos especiais de saque do Fundo Monetário Internacional (FMI), a reserva de valor com referência em dólares, euros, ienes e libras, com a adição do real e do yuan. O que também implicaria uma mudança de papel do FMI.
– O FMI teria um papel de banco mundial emissor de direitos de saque. A economia americana reinava absoluta antigamente, hoje não é mais assim. Há economias se aproximando em termos de importância comercial e financeira. É o momento de pensarmos numa transição em que haja novas moedas para servir de parâmetro. O dólar ficou mais importante que os EUA.
Mantega também não poupou a política cambial da China, ao defender o que chamou de equacionamento das variações cambiais e evitar um racha no G-20. Ele ressaltou a necessidade de estímulo ao consumo interno em países como Alemanha e Japão:
– Nossas propostas têm como objetivo equacionar a questão para que não se torne um grande conflito entre os países, um salve-se quem puder. O G-20 tem sido uma instância de coordenação de políticas e tem dado certo. Conseguimos debelar a maior crise do capitalismo em 2008. Mais uma vez cabe ao G-20 equacionar esse conflito.
Ministro diz que juros no país devem cair em 2011
O ministro sugeriu aos EUA reeditar o New Deal, o programa de projetos de infraestrutura criado na década de 30 pelo então presidente americano, Franklin Delano Roosevelt, para combater a Grande Depressão:
– Países com baixo crescimento querem uma política monetária expansionista. Não somos contra, mas o excesso inunda o mundo com dólar.
O ministro disse também que o governo da presidente eleita Dilma Rousseff terá condições de cortar gastos públicos e baixar os juros já em 2011. Além de importante para a economia brasileira, Mantega considera os ajustes uma defesa contra os desequilíbrios internacionais – a baixa dos juros tornaria o país menos interessante para o capital especulativo.
– Baixar os juros é uma boa ideia. Imediatamente não dá, mas os juros devem cair já no próximo ano. Isso exige responsabilidade fiscal:
O fluxo cambial – diferença entre a entrada e a saída de moeda estrangeira no país – começou novembro no vermelho, devido ao aumento da tributação sobre aplicações estrangeiras e ao real valorizado. Segundo o Banco Central (BC), na primeira semana do mês, o resultado ficou negativo em US$ 1,406 bilhão, após fechar outubro positivo em US$ 6,9 bilhões.
http://oglobo.globo.com/economia/mat/2010/11/10/g-20-mantega-defende-cri…
Entenda o que é ‘guerra cambial’
Publicada em 09/11/2010 às 23h56m
Clarice Spitz
Como surgiu o termo “guerra cambial”?
O ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, foi o primeiro a falar em “guerra cambial”. Mantega acusou países asiáticos, além de Estados Unidos e Europa, de subvalorizarem suas moedas para aumentar os ganhos com as exportações. Quando a moeda de um país está subvalorizada ela torna o produto fabricado internamente mais barato e mais atraente, porque ele pode ser vendido por menos dólares que serão trocados por mais moeda interna.
Quem perde com o dólar fraco?
A perda fica com os exportadores porque ao converter os preços dos produtos em moeda local (real) para a moeda adotada no comércio internacional (dólar) precisam aumentá-los. Ou seja, quanto menor for câmbio, mais caros ficarão, em dólares, os produtos brasileiros vendidos no mercado internacional. O efeito final é de perda de competitividade e de mercados estrangeiros para os produtos brasileiros. As exportações do país perdem espaço para os concorrentes que não estão com suas moedas internas valorizadas. Além disso, a indústria nacional também sofre com a concorrência dos importados, que contam com as vantagens descritas acima e, muitas vezes, têm preço mais convidativos que os produtos nacionais.
Quem ganha com a “guerra cambial”?
Os importadores de produtos estrangeiros, uma parte da indústria que compra maquinário e tecnologia no mercado externo, os turistas brasileiros que viajam ao exterior, porque todos estão usando menos reais para trocá-los por dólares. O Natal será repleto de produtos importados, como nozes, castanhas, avelãs, bacalhau, vinhos, whiskies bem mais acessíveis. Uma viagem à Disney, por exemplo, está custando o mesmo que uma viagem ao Nordeste.
Como fica o Brasil?
Para a economia brasileira, a guerra no câmbio tem um efeito muito corrosivo. O Brasil recebe uma enxurrada de dólares em virtude de vários fatores. De modo geral, o dólar vem perdendo valor ante diversas moedas estrangeiras, entre elas, o real. No entanto, mesmo sem esses efeitos, internamente, o país se beneficia dos bons fundamentos econômicos que têm atraído capital externo, seja sob forma de investimento produtivo e seja o capital financeiro. São investidores que miram no Brasil interessados nos ganhos com as altas taxas de juros praticadas no país, atualmente em 10,75% ao ano. A capitalização da Petrobras, em setembro passado, também incrementou a entrada de dólares no Brasil.
Quais as perspectivas para o câmbio?
Para o curto prazo, a maior parte dos analistas financeiros aposta que o dólar vai continuar em queda. O governo brasileiro já pôs em prática algumas medidas para tentar conter a baixa da moeda americana, como a elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre a renda fixa de 2% para 6% e o aumento de 0,38% para 6% do imposto sobre a chamada margem de segurança das operações com derivativos. Trata-se de um depósito que funciona como garantia para contratos com dólar futuro. A margem de segurança dos contratos de dólar no mercado futuro oscila entre 10% e 15%. O valor é definido pela área de risco da BM&F Bovespa e estabelecido diariamente em uma quantia em reais. Mantega anunciou que o governo brasileiro ainda tem outras armas, algumas de “grosso calibre”, para combater a valorização do real.
Estados Unidos X China
Americanos e chineses têm estado no centro do debate cambial. A China há alguns anos tem praticado como política de Estado a manutenção do yuan subvalorizado, o que é mais um fator a estimular a invasão de produtos chineses no mundo. Há três anos, a China iniciou uma flexibilização da moeda, mas que tem sido considerada tímida. Em outubro, sob pressão internacional, o Banco Central da China surpreendeu com a primeira elevação das taxas de juros em anos.
Já os Estados Unidos, para agilizar sua saída da recessão, anunciaram na semana passada o afrouxamento quantitativo, pelo qual o Fed (o BC americano) vai recomprar US$ 600 bilhões em títulos do Tesouro americano. O objetivo é que os bancos usem esses recursos para conceder mais crédito aos consumidores. Com mais dólares no mercado, a moeda americana tende a ficar ainda mais barata e o real, mais valorizado.
O que o Brasil propõe no G-20?
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, quer que o Fundo Monetário Internacional (FMI) crie um índice para medir os desvios da taxa de câmbio em relação ao que seria o ideal. Essa será a proposta brasileira na reunião do G-20 (grupo que reúne as 20 principais economias do mundo). Trata-se de uma forma de fazer com que todos os países envolvidos na atual guerra cambial sejam passíveis de punição, e não apenas a China, apontada como principal responsável pelos desequilíbrios no comércio exterior hoje. A presidente eleita, Dilma Rousseff, participará do encontro ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir as manipulações do câmbio.
Fonte: Gilberto Braga, do Ibmec, e Fundação Getúlio Vargas
http://oglobo.globo.com/economia/mat/2010/11/09/entenda-que-guerra-cambi…
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