4 de junho de 2026

Entrevista com o economista Luiz Guilherme Schymura: “É inevitável a expansão da indústria chinesa no mundo”

Brasil Econômico:

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O economista Luiz Guilherme Schymura, presidente do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas, avalia a existência ou não de um processo de desindustrialização no Brasil.

Em entrevista ao podcast da gestora de recursos Rio Bravo Investimentos, Schymura comenta ainda o impacto da crise financeira na indústria mundial, além da concorrência que os produtos manufaturados do Brasil enfrentarão com a China durante os próximos anos na América Latina.

A falta de transparência nos recursos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também foi criticada pelo economista. Confira:

A última carta do IBRE (que é publicada na Revista Conjuntura Econômica) debate se existe ou não um processo de desindustrialização da economia brasileira. Em primeiro lugar, desindustrialização é sempre vista como uma coisa ruim. Existe alguma circunstância em que ela pode ser um sinal de saúde econômica?

O processo de desindustrialização que aconteceu no Brasil até o ano de 2008 está em linha com o que vem acontecendo no mundo todo.

O setor de serviços cresceu muito por aqui, especialmente na medida em que o país começou a ficar mais rico. A tendência agora é que a população consuma menos bens e passe a consumir mais serviços. E isso tudo gera a desindustrialização.

A dificuldade que a gente tem hoje com relação ao Brasil de 2009 é tentar entender esse processo e averiguar se haverá ou não aceleração da desindustrialização, maior até que o resto do mundo.

Nós temos hoje um player importante a nível global: a China, que é um grande produtor de produtos manufaturados.

Nossas exportações deste tipo de produtos sofreram um baque com a crise – até porque o comércio mundial deu uma parada durante o final de 2008 e início de 2009 -, mas, na retomada, as nossas manufaturas não avançaram conforme o esperado ao nível anterior a crise.

Se nós fizermos uma análise mais detalhada da indústria brasileira, observaremos que o setor de manufaturas ainda está aquém do que se esperaria dele nesse momento de recuperação. Muito disso se deve à China, que está entrando nesse mercado.

Uma curiosidade é que nós exportávamos muitas manufaturas para os nossos parceiros da América Latina, e há fortes indícios de que o gigante asiático já começou a competir com o Brasil na região.

Hoje a gente pensa no PIB como agricultura, indústria e serviços. Essa divisão por categorias ainda é válida num mundo com uma economia tão diferente do que era, por exemplo, há 30 ou 40 anos atrás?

Esta é uma questão que temos que repensar no Brasil. Quando falamos em primarização da pauta de produção, de exportação, de produtos exportáveis e indústria, a impressão que fica é que o setor de agricultura é uma área muito pouca intensiva em capital. É uma área que possui mais mão-de-obra.

Nossa agricultura não tem inovações tecnológicas. Já a agricultura moderna, o agribusiness, é totalmente industrializado.

Um grande exemplo disso é que vemos atualmente apenas uma máquina e um ser humano controlando quase que a produção inteira de hectares e hectares de soja.

Nesse novo contexto, precisamos repensar um pouco o que significa a indústria que nós entendíamos antigamente.

Devemos compreender agora qual é a importância dessa indústria do passado, o que significa esse agronegócio e o que vai significar o setor de serviços neste novo cenário.

Enfim, eu acho que é uma discussão bastante interessante, bastante rica que nós vamos engajar brevemente.

Mas o que poderia ser colocado no lugar, por exemplo, dessas três categorias com as quais a gente lida até hoje?

Eu acho que ficaríamos mais com a discussão dos setores tradables (com produtos comercializáveis que, de modo geral, têm uma dinâmica independente, pois se complementam com o mercado externo, tanto na importação como na exportação) e não-tradables (produtos que, em face de suas características, têm pouca ou nenhuma viabilidade no comércio internacional. São denominados não-comercializáveis).

Perderemos um pouco o sentido dessa caracterização conforme mais tradable for a economia como um todo, incluindo o setor de serviços – o que pode acontecer num momento não muito distante.

Tradable e não-tradable, no fundo, é importante para que nós possamos entender a taxa de câmbio que, por sua vez, é a relação de preços dos produtos comercializáveis e dos não-comercializáveis.

Assim sendo, acredito que é esta separação que começará a fazer sentido, e que já faz sentido hoje em dia.

A China, mais recentemente, está competindo tanto no mercado doméstico brasileiro quanto com os produtos que o Brasil exporta para a América Latina. Que evidência empírica você ouviu a respeito?

Atualmente, por exemplo, nós produzimos automóveis e autopeças. São produtos importantes para nossa economia. No entanto, a China já se tornou o maior produtor de automóveis do mundo.

A produção chinesa deve estar na faixa de 11 milhões de veículos por ano, que atende inclusive o mercado interno. A tendência agora é começar a ocupar o mercado externo.

Uma prova disso é que nós já temos carros chineses sendo importados para o Brasil, e que começam também a entrar nos mercados argentino e chileno. Vale lembrar que o Brasil já exportava carros para estes dois países sul-americanos.

Portanto, é inevitável a expansão da indústria chinesa no mundo, o que reforça cada vez mais a concentração da nossa pauta nos produtos não-manufaturados, ou seja, produtos mais básicos.

Vocês fizeram uma análise estatística de vários países para mostrar o que aconteceu no mundo entre 1970 e 2007. O resultado foi que diversas nações se desindustrializaram no sentido em que o setor de serviços cresceu, ou seja, houve uma diluição da participação da indústria nisso. A observação de 2008 pra cá é bem mais recente, mas os sinais empíricos que existem aí são de que o industrial brasileiro deva ficar preocupado?

Eu já começo a sentir um pouco isso e o setor de manufatura também. Não podemos esquecer o processo de crescimento da China de 10% ao ano – onde em três anos o Produto Interno Bruto (PIB) praticamente aumenta 50%.

Se nós imaginarmos a China de três anos atrás, o país era 2/3 do que é atualmente. Então, o impacto da China em 2007, em termos de comércio, era significativamente menor do que o atual. Na margem, já podemos dizer que a China afeta fortemente o mercado de manufaturas.

Os chineses importam minério de ferro e soja, mas eles são superavitários na balança comercial. O superávit deles vem muito das manufaturas, e vai vir também da produção e exportação de automóveis.

A China está ainda muito forte na parte de siderurgia, além de entrar também no fornecimento de equipamentos de telecomunicações.

Enfim, os chineses estão invadindo vários segmentos e, naturalmente, vão tomar um mercado que era cativo do Brasil aqui na América Latina.

Nós temos um estudo que desenvolvemos internamente. Uma professora fez um levantamento sobre quanto nós perdemos de mercado para a China entre 2005 e 2008. Ela calculou algo na faixa de US$ 5 bilhões.

Nós deixamos de exportar porque nossos produtos foram substituídos por manufaturas chinesas, e a tendência é que isso se intensifique, inclusive porque o PIB da China vem crescendo na faixa de 10% ao ano, seus produtos são competitivos e eles querem estar presentes no mercado latino-americano.

Por outro lado, a mão-de-obra chinesa não esta sendo melhor remunerada. Isso não poderia levar a uma situação em que, de repente, esse ganho de competitividade da China comece a atingir um platô?

Tínhamos antes uma situação de quase escravidão da mão-de-obra na China. No entanto, as condições de trabalho e salários estão melhorando por lá, embora ainda muito aquém do que é feito no resto do mundo.

Um outro aspecto importante é que, como a China tem uma poupança muito alta, há forte investimento nas marcas chinesas, que são produtos altamente intensivos em tecnologia. Há investimentos em qualidade, marketing e obtenção de maior participação no mercado internacional.

Há dois anos atrás a China não era o maior produtor mundial de automóveis. Hoje a situação já mudou e o país asiático é o maior produtor de forma destacada. Eles estão investindo pesadamente. Há alguns setores na área de manufaturas que têm até recursos próprios.

A poupança chinesa está sendo alocada através de subsídios do Banco da China para tornar mais competitivos esses setores no mercado mundial.

Vocês pretendem no Ibre estudar melhor essa questão da desindustrialização no Brasil?

A nossa idéia é desenvolver não só a questão da desindustrialização em si, mas tentar entender um pouco os mecanismos e o que pode ser feito por aqui em termos de competitividade da indústria como um todo.

Queremos avaliar que tipo de políticas podem ser desenvolvidas para atender nossas necessidades e de que forma o BNDES pode participar desse processo.

Em 2011, o Ibre vai participar com seus pesquisadores desse debate e vamos promover seminários até lá sobre o tema de competitividade. Eu acho importante, dado esse momento que vivemos atualmente em termos de globalização, o papel da China.

Temos que definir e desenhar políticas para o setor produtivo nacional que nos torne competitivos, que tenham uma institucionalidade que permita melhores condições de competir internacionalmente. É esta a agenda do Ibre no próximo ano.

Para o governo seguinte, do ponto de vista de política econômica, a agenda dará destaque para as políticas de incentivo que vão ser implementadas para atender o setor produtivo nacional.

O Brasil está entrando numa fase de déficits em conta-corrente que deve durar vários anos. Você tem alguma preocupação quanto a isso? Por exemplo, da mesma forma que o país acumulou reservas durante os últimos anos, ele pode, de repente, começar a perdê-las?

O Brasil, historicamente, é um país de déficits de transações correntes. Se analisarmos uma série de 60 anos, encontraremos saldo negativo em pelo menos 50 desses 60 anos. Então, isso não é novidade.

Talvez o nível dos déficits que projetamos – algo em torno de 3% do PIB – gere uma certa preocupação. Uma boa experiência para compreendermos que tipo de atenção devemos dar para esta questão vem da Austrália.

O país trabalha há mais de 20 anos com déficit de transações correntes na faixa de 4,5 a 5% do PIB. A política econômica deles têm sido bem sucedida e a Austrália até enfrentou a crise de uma forma muito tranquila.

Uma nação com essa dependência externa deveria ter sofrido muito com a crise de proporções bíblicas, como a ocorrida entre 2008 e 2009. No entanto, isso não ocorreu.

A Austrália tem uma moeda que tem uma aceitação muito grande internacionalmente, e os bancos lá não ficam descasados com moedas estrangeiras. É possível que o Brasil caminhe neste sentido. Contudo, isso requer uma escolha política.

A decisão de ter déficit de transações correntes não é do governo, mas sim da sociedade. Isso porque quando um país opta por poupar, quem opta não é o governante, mas sim a população.

Se queremos poupar pouco e crescer muito, nós temos que fazer uso da poupança externa. Na minha opinião, é algo arriscado! É melhor não tê-la!

O importante é o governo estar atento a isso e criar mecanismos institucionais de modo a tornar a nossa moeda mais conversível, com o cuidado de não salvar instituições que façam apostas erradas contra o câmbio.

Ainda nesse tema de poupança, o governo Lula nos últimos anos abraçou a política industrial com uma intensidade crescente. O BNDES dobrou de tamanho, adquiriu participação em várias empresas e financiou uma série de aquisições. Existe um debate sobre se esse modelo de capitalismo de estado, que alguns chamam até de modelo chinês, é eficiente para a economia brasileira. O que você vê de oportunidades e problemas com esse modelo?

Eu não tenho uma preocupação tão grande com relação ao desequilíbrio das contas públicas. Acredito que isso é uma agenda já conquistada.

O processo hiperinflacionário já foi debelado. A inflação está sob controle. É bom sempre manter a atenção sobre as variações de preços, mas não devemos concentrar todo nosso pensamento nisso. Em relação ao equilíbrio fiscal que ocorre desde 1998, também considero uma conquista do governo.

Já sobre a questão do BNDES, embora tenham sido concedidos recursos significativos – algo na faixa de R$ 180 bilhões, isso é algo que não nos preocupa.

Se imaginarmos que essa conta não será paga, estaremos falando de uma dívida bruta da União que não chega atualmente a 70% do PIB.

O que nos preocupa um pouco é que os empréstimos do BNDES não têm a transparência que nós encontramos nos gastos públicos.

No processo de abertura da democracia, desenvolvemos um fato muito positivo: temos uma transparência nas contas públicas que é fantástica. O Brasil é um dos países mais transparentes em termos de contabilidade do setor público.

Então, gostaríamos que o BNDES deixasse de uma forma mais explícita as razões de um empréstimo ter sido concedido. Falta uma clareza melhor de que tipo de política de incentivo é aquela que está sendo implementada.

As vezes empréstimos são dados e não há uma explicação sobre o propósito do financiamento. Isso é importante para que possamos fazer um debate rico sobre diversas contas e despesas do governo.

A solução para esta falta de clareza entra na própria questão da política industrial. Falta alguém dizer: “queremos construir uma empresa líder no setor XYZ e é por isso que estão me emprestando dinheiro”?

Exato. Se setor A é escolhido e uma empresa X é vencedora, então deve haver explicação. Desta forma, abre-se num país democrático como o nosso a oportunidade de debate.

Com a pouca transparência nos repasses do BNDES, fica difícil realizar uma discussão mais aprofundada sobre o tema.

http://www.brasileconomico.com.br/noticias/e-inevitavel-a-expansao-da-industria-chinesa-no-mundo_90793.html

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