5 de junho de 2026

Ataque a direitos individuais ou à impunidade? Frases de uma semana marcante

Do JOTA

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Semana marcada por uma alteração de jurisprudência pelo Supremo Tribunal Federal. A medida iniciou um tiroteio verbal. De um lado, elogiada por juízes, Ministério Público e polícia. Do outro, bombardeada por advogados.

E não foi só isso. No âmbito político e jurídico, o JOTA revelou com exclusividade a defesa protocolada pela presidente Dilma Rousseff no TSE. Também em Brasília, o CNMP concedeu liminar suspendendo um depoimento do ex-presidente Lula, enquanto o Ministro da Justiça veio a público falar sobre possível investigação sobre outro ex-presidente, FHC. Confira nas nossas “Frases da Semana”.

1) No mundo do direito, a tensão explodiu com o julgamento do HC 126.292, em que o STF passou a entender ser possível a execução provisória da pena, após confirmação em segunda instância. Disse o ministro Teori Zavascki:

A retomada da tradicional jurisprudência, de atribuir efeito apenas devolutivo aos recursos especial e extraordinário (como, aliás, está previsto em textos normativos) é, sob esse aspecto, mecanismo legítimo de harmonizar o princípio da presunção de inocência com o da efetividade da função jurisdicional do Estado.

2) A decisão do STF não foi unânime. O decano Celso de Mello, voto vencido no julgamento do HC, rebateu:

Essa é uma inversão totalitária de um postulado democrático tão caro e tão essencial à preservação da liberdade dos cidadãos de uma sociedade que seja genuinamente fundada em bases democráticas

3) Já o ministro Marco Aurélio Mello definiu sua posição de forma mais econômica do que de costume:

Mil vezes culpados soltos do que um inocente preso

4) A decisão do Supremo recebeu apoio do juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato. Em entrevista ao JOTA, ele decretou:

Eu acho que fecha uma grande janela de impunidade. Fechando essa janela de impunidade, pode haver um recado mais geral de que o sistema está mudando, e que a impunidade não será mais uma regra

5) No mundo da advocacia, a mudança de jurisprudência caiu como uma bomba. Nas palavras de Cristiano Ávila Maronna, advogado e vice-presidente do IBCCrim:

Trata-se de um grave retrocesso em termos de jurisprudência constitucional e que terá um enorme impacto no processo de superencarceramento já em curso. Mais um ataque à ideia de direitos como sistema de garantias.

6) Michele Leite, defensora pública e presidente da Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais, foi na mesma direção:

Os defensores públicos federais lamentam este retrocesso histórico.

7) Bruno Shimizu, defensor público e coordenador-auxiliar do Núcleo Especializado de Situação Carcerária da Defensoria Pública de São Paulo, fez uma previsão

A partir do momento que o STF entende assim, mais da metade das pessoas vai acabar cumprindo pena ilegalmente.

8) Os mais respeitados criminalistas do país também se posicionaram. Por exemplo, Pierpaolo Bottini:

Ainda que as condenações sofram poucas reversões nos tribunais superiores, uma única prisão injusta é irreparável para o preso, para o Judiciário e para a sociedade. E nenhum juiz é infalível.

9) Alberto Toron, criminalista e presidente da 2ª Câmara do Conselho Federal da OAB

Vejo essa decisão com tristeza. Mas, nas atuais circunstâncias, em que um dos ministros falou que era preciso ouvir a sociedade, chega a parecer que não precisamos nem do Direito nem dos tribunais.

10) Antonio Carlos de Almeida Castro (Kakay) foi mais filosófico:

O tribunal fez uma abordagem utilitarista do tema, deixando de refletir mais profundamente sobre a presunção da inocência, para dar satisfação à sociedade, hoje monotemática, que só discute punição e cadeia.

11) O embate entre a PGR e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, voltou a esquentar. O Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, alegou nas contrarrazões do inquérito aberto para investigar Cunha:

Cunha sempre se mostrou – não apenas enquanto na Presidência da Câmara – extremamente agressivo e dado a retaliações a todos aqueles que se colocam em seu caminho a contrariar seus interesses

12) O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) fez coro e pediu o afastamento do presidente da Câmara:

Evidente é a gravidade dos fatos que chegaram ao conhecimento público e que vêm desgastando a imagem do referido parlamentar e a credibilidade institucional da Câmara dos Deputados

13) Na (longa) lista de políticos investigados no STF, a defesa do senador Delcídio do Amaral negou a tentativa de fazer lobby junto a ministros do Supremo em favor de Nestor Cerveró, investigado na Lava Jato. Dias depois, o senador foi solto:

Nem o senador acusado tem esse poder institucional nem os juízes daquela corte se sujeitam a esse tipo de influência, como se percebe da gravação”.

14) Já a defesa do ministro Sebastião Reis, do STJ, tentou pedir acesso aos autos do inquérito aberto contra ele para investigar indícios de venda de sentença:

Um dos maiores patrimônios do magistrado para o fiel cumprimento da judicatura é a credibilidade perante os jurisdicionados, os operadores do direito, os seus pares e a sociedade

15) Na justiça eleitoral, como revelou com exclusividade o JOTA os advogados da presidente Dilma Rousseff contestam a ação de impugnação de mandato eletivo, proposta pelo PSDB:

Não se pode permitir que o processo judicial seja utilizado como palco de discurso político-partidário, como pretendem os Autores (PSDB).

16) Quem não compareceu a um depoimento previamente marcado foi o ex-presidente Lula. O conselheiro Valter Shuenquener, do CNMP, deferiu a liminar depois de pedido do deputado Paulo Teixeira (PT-SP), segundo quem o promotor de Justiça Cassio Roberto Conserino, do MP de São Paulo:

Agiu com o claro objetivo de obter promoção pessoal, bem como agiu em frontal violação às regras de determinação de atribuição para a distribuição de feitos criminais. Houve, ainda, indevida antecipação de juízo de valor, tudo a comprometer a dignidade do Ministério Público

17) Os promotores de São Paulo rebateram a decisão do CNMP, com a leitura pública de uma nota. Leu o promotor Conserino:

Os promotores de justiça condutores da presente investigação criminal levarão informações e documentos ao CNMP, a fim de obter urgente revisão e reversão da decisão proferida, para que possam cumprir o objetivo de apurar os graves fatos envolvendo pessoas que se consideram acima e à margem da lei

18) Enquanto isso, o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, falou sobre possível investigação da Polícia Federal focanco outro ex-presidente, FHC:

Isso passará por um estudo técnico e jurídico, todos aspectos que envolvem uma situação de ocorrerem eventuais delitos. Obviamente, havendo indícios de delitos puníveis, de competência federal, seguramente a Polícia Federal fará investigação por meio de inquérito policial

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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2 Comentários
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  1. vera lucia venturini

    22 de fevereiro de 2016 7:57 pm

    Esses juizes que, fugindo da

    Esses juizes que, fugindo da ética, roubam o erário público criando vantagens absurdas só tinham que elogiar as medidas. Ninguém lhes cobra eficiência e aplicação no trabalho. A impunidade não é resultado do direito do cidadão se defender. É resultado dos escaninhos onde abrigam processos que eles recebem para não julgar.

    Viva o japones contrabandista da federal, cujo processo se arrasta na Justiça enquanto se transforma em símbolo da Lava jato do Moro e sua caterva.

  2. Helena de Brito

    22 de fevereiro de 2016 8:15 pm

    alteração da jurisprudência: prudência senhores juizes.

    Uma pergunta de uma total ignorante: “e pode atrpelar a constituição desse jeito??? Como assim? ” Então os juizes resolvem e pronto?” 

    Por favor me expliquem como isso é possível, baseado em que lei?

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