4 de junho de 2026

Radiohead: bandas vão virar microempresas?

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Imagine que trabalha numa grande companhia. Quando entrou lá, era um estagiário cheio de talento, mas com pouca experiência. Você não gosta de regras. É até um pouco antisocial, cheio de culpas, dúvidas e sente-se isolado do mundo. Vive corroído pela insegurança, buscando um espaço na vida. Difícil conviver com isso, mas ao longo do tempo, percebe que essa personalidade é que lhe dá certo diferencial.

Como você não é da família da Paris Hilton, precisa ganhar dinheiro. Então faz concessões e se adapta ao sistema burocrático. Percebe que ele é bem falho, mas ok, paciência. Como você conseguiria trabalhar com uma boa estrutura sem alguém para bancá-lo? A empresa investe em você, paga cursos e o faz aparecer. Por mais qualidades que tivesse, precisou de algum marketing para divulgá-las.

De repente, você começa a fazer sucesso. Seu trabalho agora é um negócio, que tem custos, financeiros e pessoais. Você precisa falar com jornalistas, não consegue mais controlar todos os detalhes do trabalho, paga muitos impostos e se vê perdendo tempo com mais burocracia. Às vezes, acha que perdeu completamente o propósito inicial ao começar sua jornada.

Então o que faz? Deixa a empresa e começa a se virar sozinho. Maldita companhia arcáica. Vamos mudar as regras.

Mas agora quem vai gerenciar sua carreira, agendar viagens, cuidar dos seus empregados e da sua relação com o mercado? Você? Impossível. Não terá mais tempo de fazer aquilo que precisa. Melhor contratar consultorias, delegar, terceirizar. Agora você é uma empresa. Paga impostos, dita regras que causam polêmicas, tenta se virar com o governo etc. Sente-se sobrecarregado. Novamente você se vê fazendo concessões.

Pergunto-me se não é mais ou menos esse o processo pelo qual passou o Radiohead. A banda revolucionou o mercado da música hoje ao disponibilizar seu novo álbum para download, abandonando completamente as estruturas das gravadoras. Não tenho nenhuma simpatia por elas, mas acho que a banda de Thom Yorke está entrando num terreno bastante pantanoso.

Uma coisa é você ser independente a vida toda, vender para seus mil fãs e não desejar ir além disso. Outra é ser sucesso mundial. O vocalista “creep” está disposto a se tornar um CEO? Vai contratar um? O que ele vai fazer quando o site der pau, como já aconteceu hoje? Quando alguém reclamar que o pacote de CDs prometido para 30 dias chegou em 31? A quantidade de detalhes que uma vida sem gravadora deve fazer surgir levará ao surgimento de bandas microempresas?

Os artistas querem liberdade? Maior controle? Por um lado, depois que todo trabalho de base já foi feito, é fácil. Por outro, agora é que começa a dificuldade. Daria para discutir muito mais o assunto aqui, se este fosse um blog sobre mercado musical. Mas só citei o assunto porque, cedo ou tarde, todos criamos um mito da liberdade, do afroxamento das regras institucionais.

Muitos entram na vida de freelancer ou de microempresários com certa ingenuidade. Quando se deparam com o trabalho adicional, começam a entender que nem tudo na antiga empresa era arbitrário e retrógrado.

Como eu disse, não estou aqui para defender gravadoras. Mas você quer ser popstar, comprar mansão, gravar com os melhores equipamentos, viajar pelo mundo? Cedo ou tarde vai precisar encarar a burocracia. A mesma coisa pode acontecer com o freelancer ou o microempresário. Não existe mundo ideal na relação com o mercado. Antes de virar independente você precisa criar uma estrutura. Ou pode matar seu negócio.

Mais sobre vida de freelance

Freelance Switch – comunidade troca experiências sobre ser freelance e dá dicas, desde organização pessoal até controle de finanças. Em inglês.

Criar Web – Dicas em português sobre orçamentos, fluxo de trabalho e muito mais.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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