
Enviado por Anarquista Lúcida
Do Outras Palavras
Obesidade, doença (quase incurável) do capitalismo?
É muito mais difícil livrar-se dela que deixar o crack, demonstram novos estudos científicos. Por isso, proteção a crianças deveria ser máxima. Mas seria preciso contrariar certos interesses…
Por Antonio Martins
Na última década, a obesidade migrou para o centro das atenções de Saúde Público. Em países com o Brasil – para não falar dos norte-americanos… – ela tornou-se um problema muito mais generalizado que a desnutrição. Ao abordá-la, o enfoque é muitas vezes comportamental. Sugere-se que as vítimas do mal precisam de mais responsabilidade ao se alimentar e de determinaçãopara corrigir atitudes inadequadas. Um conjunto de novas pesquisas científicas acaba de demonstrar que esta abordagem é, além de impiedosa, contraproducente. Ela busca objetivos inalcançáveis e deixa, por interesse, de perseguir outros, que seriam perfeitamente factíveis.
Quem relata as novas pesquisas, num texto brilhante, é o jornalista George Monbiot. No artigo, publicado ontem (11/8) no Guardian londrino, ele conta que:
a) Deixar a obesidade é muito mais difícil que usar crack e não se viciar. Estudos anterioresrevelaram (esqueça os mitos a respeito) que entre 10% e 20% das pessoas que fumam a droga derivada da cocaína tornam-se dependentes. A nova pesquisa, que examinou 176 mil pessoas obesas, descobriu que, destas, 97,8% das mulheres e 98,3% dos homens foram incapazes de deixar esta condição, ao longo de nove anos. A probabilidade não se aplica a pessoas que vivem em sobrepeso, mas não atingiram a condição de obesas.
b) Os mecanismos essenciais que produzem dependência à ingestão compulsiva de alimentos sãoidênticos aos que levam à adição ao álcool e outras drogas, revela outro estudo. Incluem, essencialmente, mudança biológica, desconforto com abstinência, incapacidade de controlar impulsos, sensação de recompensa, ao consumir a substância causadora do vício. Porém, a obesidade é mais tirana que o uso de drogas, mesmo entre ratos. Submetida a um experimento diz o estudo, a maioria deles “preferiu uma recompensa em açúcar a outra, na forma de cocaína”.
c) As campanhas morais voltadas aos obesos produzem muita culpa, mas nenhuma melhora. Na verdade, quanto mais conscientes do seu mal, mais as pessoas tenderão a afundar nele. Há um único tratamento razoavelmente eficaz: as cirurgias bariátricas – que submetem os pacientes, em muitos casos, a riscos e sequelas graves.
Que mudanças deveriam ser desencadeadas por tais evidências? Para Monbiot, a resposta está evidente: “a tarefa crucial é proteger as crianças antes que elas desenvolvam dependências ao consumo abusivo de comida”. O problema, ressalta ele, é que isso exigiria uma abordagem muito menos tolerante frente a quem lucra com a dependência: uma indústria global de alimentos cada vez mais poderosa, concentrada e voraz.
Monbiot sugere: o avanço da obesidade é tão onipresente, e tão cruel, que deveria suscitar, em resposta, medidas duras. Entre elas, restrições à propaganda e marketing tão severas quanto as que limitam a indústria do fumo. Comida trash e refrigerante, por exemplo, só deveriam ser vendidos em locais pouco acessíveis dos supermercados, e em embalagens repletas de advertências.
O problema é que, até agora, a abordagem é a oposta: implica responsabilização das vítimas. No Reino Unido, o governo conservador fala em proibir acesso dos obesos ao sistema público de Saúde, “até que aceitem tratar-se”. No mesmo país, acrescenta Monbiot, as doenças ligadas à obesidade (diabetes, por exemplo), consomem 10% do orçamento nacional de Saúde.
Até quando – pergunta o autor – as sociedades pouparão os verdadeiros responsáveis pelo problema, apenas pelo fato de serem poderosos, e contribuírem generosamente com as campanhas eleitorais dos políticos?
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Adendo meu (Anarquista Lúcida): E é mesmo quase incurável. Nao sei se é mais difícil de se livrar do vício da comida que do crack, mas a técnica usada para alvoolismo, por ex (só mais 24 de abstinência a cada vez) simplesmente nao pode ser aplicada, sem comer ninguém passa. E, comendo, a compulsao se instala.
Ivan de Union
14 de agosto de 2015 11:18 amTangencialmente
“Adendo meu (Anarquista Lúcida): E é mesmo quase incurável. Nao sei se é mais difícil de se livrar do vício da comida que do crack, mas a técnica usada para alvoolismo, por ex (só mais 24 de abstinência a cada vez) simplesmente nao pode ser aplicada, sem comer ninguém passa. E, comendo, a compulsao se instala”:
Uma coisa importante que minha irma me disse ha muitos anos eh que americanos nao sabem distinguir entre fome e sede, e isso causa uma serie de problemas que aumentam a chance da obesidade se instalar. Suponho que ja eh comportamento mundial.
Renato Lazzari
14 de agosto de 2015 12:16 pmO pessoal sujeito a fortes
O pessoal exposto a fortes bombardeios por parte das empresas de propaganda comercial perde a capacidade de sentir seja lá o que for. É o que a turma chama de alienar-se de si mesmo…
Propaganda comercial é arma mais letal do que as de fogo: não mata o corpo mas torna o sujeito num zumbi.
DanielQuireza
14 de agosto de 2015 11:47 amVamos reformular.
Obesidade,
Vamos reformular.
Obesidade, doença do consumismo.
Capitalismo envolve pelo menos duas partes, investimento e consumo.
Renato Lazzari
14 de agosto de 2015 12:06 pmPô, primeiro mandam consumir.
Pô, primeiro mandam consumir. E mandam de todas as formas possíveis, convencem, seduzem, aliciam, obrigam, impõem como condição para a pessoa se sentir in, se sentir querida e aceita, para depois chamá-la de… gorda?!!
Querem o que, esse capitalistas, que a gente se encante, compre, pague e jogue fora?
E sem obesidade como é que a máfia de branco vai ganhar dinheiro?
(O ser humano é o único animal na natureza que precisa ler numa revista quanto tem que beber de água por dia…)
Daniel Klein
14 de agosto de 2015 12:07 pmObesidade, resultado de um instinto
Comer tudo que o estômago comporte, principalmente coisas ricas em calorias, como açúcar e gordura, é um instinto desenvolvido pela evolução biológica, como de resto todos os instintos. Pessoas desprovidas desse instinto não são nossos ascendentes, pois deixaram raros descendentes. Todo o reino animal é compelido pelo instinto. Tendo acesso a alimentos fartos e calóricos, todos os animais tendem a ficar obesos. No mundo contemporâneo, na maioria dos países, alimentos calóricos são muito fartos. Como costumam ser mais baratos, são consumidos principalmente por pessoas pobres, por isso elas são especialmente afetados pela obesidade. O mal afeta tanto países capitalistas quanto comunistas. A ex-URSS era a região do planeta mais afetada pelo sobrepeso e pela obesidade. A única solução para o mal é o desenvolvimento de drogas redutoras do apetite sem sérios efeitos colaterais.
Anarquista Lúcida
15 de agosto de 2015 2:18 amHumanos têm muito poucos instintos
E decididamente nao sao governados principalmente por eles. Essa visao sobre a evoluçao está completamente ultrapassada.