Enviado por Fiódor Andrade
Do blog da @politicaefoda
JORNALISMO: MORIBUNDO AGONIZANTE
A gente entra na faculdade de jornalismo sonhando em ser Fátima Bernardes. (Pra vocês verem como eu tô velha. A referência é de uma era atrás.) A gente passa uns três semestres com essa ideia, esse romantismo, essa crença de que pra mudar o mundo basta uma capa de jornal. Mais que isso. A gente jura que vai escrever pra capa do jornal ou sentar na bancada ao lado do William Bonner (Ele anda meio gagá no Twitter. Vale conferir.) um dia depois de sair da faculdade.
Mas aí no meio da faculdade cê pira. Se cê é nerd tipo eu, cê pira muito. Primeiro que os professores te aterrorizam todo tempo que cê vai ser fudido de duro, mau humorado, fumador e ainda vai morrer cedo vítima de infarte. Verdade seja dita, o jornalismo tem bem pouca emoção pra matar alguém. Esquece tudo que te contaram sobre coberturas maravilhosas, cheias de emoção e aventura. Sendo jornalista mesmo, começando a trabalhar com reportagem sua emoção vai se dividir entre pesquisas no Google e ligações pra repartições públicas. (Coloquei link pro Google porque, por mais estranho que pareça, repórteres raramente sabem que o Google existe e pra que ele serve.)
Então você, meio aterrorizado e já nem tão confiante que vai ser Fátima Bernardes começa a pensar em assessoria de imprensa (Nunca passou pela minha cabeça!), você pensa até mesmo em fazer concurso público (Já passou pela minha cabeça. Tenho vergonha de admitir.). No final você se forma. Com sorte (Pra quem?) vai ganhar mal numa redação correndo risco de ser demitido semana sim, semana também. Sem sorte (Pra quem?) você consegue um QI, cai no Congresso (Trevas!), num conselho de classe ou numa fucking agência. De publicidade!
Se você é um futuro jornalista, um novo jornalista, um velho jornalista ou só alguém legal, assistaA Montanha dos Sete Abutres. É massa!
Seus sonhos já morreram há séculos, o que você quer mesmo é ter algum dinheiro pra comprar um celular legal, ir numas paradas cult/hipster no Balaio e viajar uma vez por ano pra uma praia ou uma Europa ostentação. O que dá errado nessa linha do tempo cagada que é a nossa vida? A gente não pensa, não discute, não melhora a profissão.
Dos dois que entraram românticos na faculdade e o continuam ao sair, tem o cara que vira defensor da empresa em que trabalha. Há seus benefícios. E há status. Não sejam tolos. O outro, no caso eu, passa os dias pensando que merda é essa que o jornalismo virou ou quando foi que aquela parada tão legal virou todo esse cocô que a gente vê hoje em dia.
Há uma questão fundamental que não ensinam pra gente na faculdade de jornalismo. Desde sempre, e isso vem aumentando, o que vende jornal é publicidade (Eles nos perseguem!) e não matéria. Com as matérias ficando cada dia piores e o consumo sendo cada vez ~mais legal~ a publicidade só nos esmaga cada dia mais e mais. Em tempos de impresso, era vender exemplar. Agora é vender clique. Tudo muda e permanece igual. É a vida. Aceitem.
Daí, atolados da necessidade de atender demandas da publicidade temos aberrações do tipo sangue na capa d’O Globo (Sério, gente. Cês não precisam disso.) e um haitiano tomando banho em um mictório num tuíte da Folha, só pra ficar em exemplos de hoje. Isso sem falar numa matéria safada que circulou principalmente em Brasília falando de bons policiais que ajudaram um coitado que roubava pra comer. Desconfiei desde o princípio, mas a história revelada supera minha imaginação fértil…
Ou seja, descemos a ladeira e descemos feio! A gente não tem análise, mas nossos jornalistas e nossos jornalões se orgulham de ter no expediente pitaqueiros. A gente acha ok a Veja fechar uma sucursal em Brasília e não se importa com Joice Hasselmann fazendo suas caras e bocas afirmando que a revista tem lado, o do leitor. Não exigimos jornalismo, o partidarizamos e não vemos o tamanho do poder que estamos largando nas mãos mais sujas que existem.
Claro que tem toda uma questão monetária por trás disso. Mas em que ponto nós, leitores, não somos responsáveis pelo jornalismo flaflu. A nossa política é flaflu. Somos os maiores flafluzões de todos os tempos! E lemos mal, acreditamos em qualquer porcaria enquanto somos engabelados por mega empresas que objetivam apenas uma coisa: dinheiro.
Eu adulteci (Qualquer dia explico o uso do neo verbo adultecer. Qualquer dia.) ouvindo que o jornalismo era o quarto poder na sociedade. Isso é bonito. Isso tem peso. Mas olha que bosta de quarto poder é esse em que pobres não se sentem representados, repórteres são uns babacas elitistas de merda (Minha TL tá cheia!) e a apuração é um detalhe, que aparece vez ou outra ou nenhuma em matérias que interferem na nossa vida quotidiana. Vamos mal.


Augusto Diniz
21 de maio de 2015 1:59 pmMuito bom
É isso mesmo.
Adriano Picarelli
21 de maio de 2015 2:25 pmViva a diferença!
Que bom que aqui são publicadas (é essa a palavra? ou seria melhor “postadas”?) idéias diferentes. Obrigado pela indicação do filme, acabei de ler a sinopse e parece bem apropriado para o momento.
Adriano Picarelli
21 de maio de 2015 2:28 pmUma pergunta
Ninguém entra na faculdade querendo ser Luis Nassif, Jânio de Freitas, Mário Magalhães, Clóvis Rossi, Ricardo Kotscho…?
Adriano Picarelli
21 de maio de 2015 2:48 pmA montanha dos sete abutres
É possível baixar o filme “A montanha dos sete abutres” a partir do site downloacult, site que, infelizmente, sairá do ar em junho. Há preciosidades nesse site, por exemplo, “ABC da greve”, de Leon HIrszman, sobre as greves no ABC no final dos anos 70. No Youtube tiraram o som do filme por questões de direitos autorais, mas no downloadcult ele está completo. Vale a pena conhecer o downloadcult.
Hcc
21 de maio de 2015 3:16 pmFundo do poço
Como estes jornalistas chegaram ali tão baixo. Não puderam pedir socorro à classe. Os sindicatos e as escolas de jornalismo não os socorreram a tempo? Que desastre!
André W.
21 de maio de 2015 3:26 pmO pior é que os reporteres
O pior é que os reporteres atuais são cognominados “estagiários” e erram fazendo matérias bobas antiéticas com chamadas apelativas. Bons tempos quando os Repórteres erravam com ousadia e profundidade…
Adir Tavares
21 de maio de 2015 9:14 pmHehehe
Vendi muito ‘trabalhos’ nas escadarias dessa coisa da avenida paulista, hoje, são até ‘professores’ de jornalismo; como acreditar nisso?