Sugerido por Maria Carvalho

A história que vou lhes contar é rigorosamente verídica – como quase todas as que eu conto, sempre com uma invejável precisão, do início ao fim. Passou-se no já longínquo ano de 1989, no mês de novembro, às vésperas daquele que seria o primeiro turno das eleições presidenciais de 1989, a primeira eleição direta para Presidente da República desde 1960.
O fato de ser a primeira eleição direta para Presidente da República desde 1960 gerou, naquele período pré-eleitoral, um tumulto emocional muito grande (havia uma histeria cívica nos lares, nas ruas, nos bares). Foram 22 (isso mesmo, vinte e dois!) candidatos disputando o mais alto cargo do país: pela ordem de votos no primeiro turno, Fernando Collor, Lula, Brizola (que deixou de ir ao segundo turno por 0,63% dos votos…), Covas, Maluf, Afif Domingos, Ulysses Guimarães, Roberto Freire, Aureliano Chaves, Ronaldo Caiado, Affonso Camargo, Enéas, Marronzinho, Paulo Gontijo, Zamir, Lívia Maria, Eudes Mattar, Fernando Gabeira, Celso Brant, Pedreira, Manoel de Oliveira e Armando Corrêa. Ou seja, praticamente uma pelada democrática, 11 pra cada lado e o eleitor-torcedor se estapeando em meio à festa que vivíamos naquele saudoso 89.
Se eu tivesse que contar aos mais novos, muito por alto, sobre a faceta dos eleitores de cada um dos principais candidatos, eu faria assim: os colloridos eram os incautos da vez, donos dos discursos conservadores do tipo eu-pago-meus-impostos ou eu-s0u-um-cidadão-de-bem, os robotizados pela TV Globo, que era amplamente favorável à candidatura de Collor. Os eleitores de Lula eram os que batiam no peito proclamando a nova-esquerda, egressa do operariado de São Paulo, da ala avançada da Igreja Católica; os de Brizola, os radicais, os órfãos de Vargas, com ampla concentração no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Covas tinha em sua fileira os moderados, os que se declaravam sociais-democratas. Maluf, concentrado em São Paulo, tinha eleitores fanáticos, os malufistas, que pouco se importavam com as denúncias, já àquela altura, de malversação do dinheiro público por parte do prefeito biônico de São Paulo – ele rouba mas faz. Afif Domingos, que adotou um discurso patético durante a campanha (uma médium espírita dizia que JK orientava o candidato), tinha mais fiéis do que eleitores – que não chegaram lá juntos com o candidato, como pregava seu slogan. Ulysses Guimarães era o avô do eleitor, e pouco mais de 3 milhões de votos foram dados ao simpático velhinho. Atrás de Ulysses, com 769.123 votos, Roberto Freire (uma das figuras mais abjetas do cenário político brasileiro). E sobre ele – um dos personagens principais da história, vocês vão entender… – um parágrafo.
O Roberto Freire lançou-se candidato pelo velho PCB. Como vice em sua chapa, o médico Sérgio Arouca (na foto, abaixo, Roberto Freire à esquerda e Arouca, barbado). O Partidão, como é também chamado, hoje rachado graças a diversas intervenções perniciosas de Roberto Freire (hoje à frente do PPS), contava com a simpatia de uma parcela muito curiosa do eleitorado. Eram, me permitam a licença poética, os psolistas de hoje. Tinham um orgulho danado de exibir a foice e o martelo nos bottons espalhados pela camisa (bottons foram uma febre daquela eleição) – muitos sequer sabiam o que era o PCB, quem era Karl Marx, quem era o próprio Roberto Freire. O importante, o must, era encher a boca (geralmente mole) e dizer com pose soviética:
– Sou do Partidão!
E esse anúncio – sou do Partidão – era feito como se no palco de um Theatro Municipal, de uma grande arena, de um Coliseu. A fala era melíflua mas trazia, também, uma falsa fúria revolucionária. Olhavam para todos os demais, os eleitores de Roberto Freire, com uma intensa piedade que se transformava, em segundos (todos puxavam papo com todos em 89…), num comício com a intenção de ganhar mais um voto. O eleitor do Roberto Freire só ouvia Taiguara, só respeitava a cor vermelha, tinha praticamente ódio da bandeira verde-e-amarela. E a esquerda – a grosso modo – se dividia entre Lula, Brizola e Freire. Vamos ao que quero lhes contar.
O Laurão – a quem ainda não tive o prazer de ser apresentado – era, em 1989, praticamente um sósia do Sérgio Arouca. Sujeito absolutamente carismático, carregava com ele, ou mesmo iam atrás dele, uma legião de jovens, amigos de seus filhos, que o tratam, até hoje (conheço alguns), como uma espécie de gênio, de guru, de orixá vivo, de líder. Tomem nota deste dado (um deles, adorador confesso do Laurão, sempre me diz: “Ele é o meu Aldir Blanc”.).
Estamos em 89. Era novembro, fazia um calor dos diabos. E o Laurão resolveu, no final de tarde, tomar a direção de um de seus bares preferidos em Botafogo, o Manolo, na esquina das ruas Marquês de Olinda com Bambina. Troço raro, diga-se. O Laurão é daqueles que tem, em casa, o bunker ideal (à moda de um de meus orixás vivos, justamente o Aldir Blanc, que dificilmente é visto na rua).
Não havia celular em 89, mas o Laurão era (e ainda é) um evento. Eis que minutos depois do primeiro chope, o Laurão, sentado à mesa com dois amigos seus, foi cercado, adulado, festejado (como sempre) por 6, 7, 8 (sei lá quantos) jovens – todos amigos de seus filhos, nenhum deles presente neste dia, faça-se a ressalva. Ocuparam, os tais jovens, uma mesa ao lado
Os jovens, todos (sem exceção), com bottons de seus candidatos: Lula, Brizola e Roberto Freire (este último à frente na preferência da juventude). O Laurão – esqueci de lhes dizer -, eleitor ferrenho de Leonel Brizola.
Vamos à construção mais precisa do cenário: sentado à mesa com dois amigos, camisa aberta, peito à mostra (fazia muito calor), o Laurão bebia tranqüilamente quando percebeu que era observado por uma mesa, também próxima, de quatro pessoas (três mulheres e uma bicha) com bastante admiração (era admiração o que emergia daqueles oito olhos).
À certa altura, uma das mulheres dirigiu-se a ele:
– Com licença… você não é o… o… Arouca?
Laurão deu um gole vigoroso, estalou a língua, sorriu e balançou a cabeça dizendo que sim (era tentador demais viver o que estava por vir…).
A mulher quase ajoelhou-se diante dele que, à moda de um padre modesto, deu uns tapinhas no ombro da fanática pedindo que parasse com aquilo.
Os jovens, os pupilos do velho Lauro, sacaram a piada pronta e estavam atentos a todos os movimentos.
A fanática voltou para sua mesa. Cochichou – sem disfarce – com seus camaradas (comunistas não têm amigos, companheiros… comunistas têm camaradas). As outras duas mulheres arregalaram os olhos, que umedeceram diante da visão do vice-candidato na chapa do PCB. A bicha passou a abanar-se com as mãos, suspirou altíssimo, Laurão fez que não percebera.
É evidente que, às vésperas da primeira eleição direta depois de quase trinta anos de sufoco, o assunto – eleições – era obrigatório, único, não se falava noutra coisa. As pesquisas apontavam, na reta final, para a liderança de Fernando Collor, seguido por Lula e Brizola, pau a pau, voto a voto, na disputa pelo direito de um confronto direto no segundo turno. Roberto Freire tinha traço nas pesquisas, o que em nada arrefecia o furor rubro dos simpatizantes do PCB, dos eleitores de Roberto Freire.
Vamos à mesa da juventude: entre eles estava Jakes, um rapaz que, até hoje, é como lenda – apronta, apronta, apronta. Adepto ferrenho da máxima se tudo der certo, vai dar merda, Jakes exibia, orgulhoso, preso na camisa de malha, um botton do Roberto Freire, o que gerava seguidos olhares lânguidos e lascivos das comunistas da mesa ao lado. Mas Jakes, como Laurão, já tinha sacado a confusão feita pelas mulheres e pela bichinha, e esperava o momento certo para o bote, que viria.
Viria, é claro.
Desde que se percebera confundido com Arouca que Laurão modificara, de leve, a postura. Bebia com a mesma fúria, mas tinha olhos e ouvidos atentos à espera do melhor momento. E ele veio.
À certa altura da noite, uma das comunistas, já bêbada e já com a fala arrastada, puxou A Internacional. Suas duas amigas e mais a bicha a acompanharam. Laurão, já incorporado ao personagem que lhe fora entregue de bandeja, marcava com os pés e esboçava, de leve, um riso de canto de boca.
Foi quando, então, a fanática arremessou-se em direção a ele. Agachou-se a seus pés, como uma hippie, ajeitou os cabelos crespos e cheios de lêndeas, e pôs as mãos de Laurão entre as suas. Disse, bêbada e emocionada:
– Sei, camarada Arouca, que não temos chances. Mas vamos à luta! Vamos à luta! Estamos juntos!
Laurão soltou uma gargalhada. Foi seco:
– Abrimos, senhora. Abrimos mão da candidatura.
Os jovens da mesa ao lado se ajeitaram, todos, nas cadeiras (estava chegando o momento do ápice, Laurão proporcionaria um grand finale, eles tinham essa certeza).
A fanática, deixando o comunismo de lado, ajoelhou-se, pôs as mãos em prece, e disse, ganindo:
– Como assim, Sérgio?! Jura? – forjou intimidade.
– Fechamos com Leonel Brizola, já no primeiro turno.
Suas duas amigas e o pederasta se aproximaram em estado de choque. A bichinha, gemendo:
– Isso é sério?
A fanática fez o bis:
– Responde, Arouca. Isso é sério?
Laurão, sem mover músculo, disse:
– Perguntem aos nossos quadros mais jovens… – e apontou o queixo para a mesa dos amigos de seus filhos.
A fanática, como uma rã, saltou e voltou-se para a mesa. Disse, olhando nos olhos do Jakes:
– Ele está brincando, não está?
E Jakes, atuando com perfeição, arrancou o botton da blusa, com ódio insano, e gritou, arremessando a propaganda para o chão:
– Fechamos com o Brizola!
Leo Boechat, que estava à mesa, gritou:
– Brizola! – arrancou também sua estrela do PT e a lançou longe.
Breve pausa: Leo Boechat foi, em 89, uma espécie de eleitor esquizofrênico. Tinha, no vidro traseiro de seu Chevette, que atendia pelo nome de Jonas, adesivos de Lula e de Brizola. Voltemos.
Felipe Vaz, mais animado, depois de também arremessar pra longe sua estrelinha do PT, puxou:
– Lá-lá-lá-lá-lá Brizola! Lá-lá-lá-lá-lá Brizola! O voto no Brizola só pode nos trazer um tempo bem melhor pra se viver!
Foram embora, os quatro – as três e a bichinha – em estado de absoluta desolação.
Chegou àquela esquina, poucos dias depois, a notícia de que a bicha teria se matado com gás e que a fanática, justo a que abordara Laurão, enlouquecera, estando internada num hospital psiquiátrico. Particular, diga-se.
Até.
Fabio SP
17 de maio de 2015 12:29 pm“…de quatro pessoas (três
“…de quatro pessoas (três mulheres e uma bicha) …”
Parei de ler aqui…
Fernando J.
17 de maio de 2015 1:14 pmCronistas do Rio
O Edu Goldenberg conseguiu reproduzir com incrível fidelidade o que foi o clima de “furor cívico” que cercou a eleição de 1989, com 22 candidatos. O Edu e o Luiz Antonio Simas são os melhores cronistas do Rio atualmente, e em terceiro lugar talvez o Joaquim Ferreira dos Santos. ( por óbvio, Aldir e Moacyr Luz estão acima ).
Branca Teresinha
17 de maio de 2015 2:20 pmÓtimo humor carioca
Excelente quadro de uma época gloriosa da vida política brasileira pós-ditadura que nunca mais se repetiria por equívocos da esquerda brasileira e aberta adesão de alguns quadros tradicionais do partidão à direita mais fanática do Brasil.
ana s.
17 de maio de 2015 4:19 pmPodre
Que texto podre! Que desperdício do meu tempo. Esse Edu Goldenberg é sempre constrangedor na sua falta de noção. Sabe aquela pessoa que circunstancialmente está do mesmo lado que vc mas dá uma vergooonha…?
mcn
17 de maio de 2015 8:57 pmNessa eleição o PSDB apoiou
Nessa eleição o PSDB apoiou Lula no 2°turno.
rundfunk hörer
18 de maio de 2015 2:46 pmOpa. Só uma parte.
Apenas uma parte. Se intitulavam “Tucanos do Bico Vermelho”.
raf
18 de maio de 2015 4:28 amBicha, bichinha, pederasta…
Bicha, bichinha, pederasta… Putz! Vamos caprichar mais na seleção de textos, por favor!