André Lara Resende sempre foi o teoricamente mais preparado dos economistas do Real. Deve-se a ele não apenas a formulação da transição da hiperinflação para a nova moeda, com a criação da URV, como a condução da própria política monetária e cambial nos primeiros anos do Real.
Foi algo inédito no já tradicional hábito do insider trading nacional, ou seja, o uso de informação privilegiada. O Real foi implantado em meados de 1994. No final do ano, com Fernando Henrique Cardoso eleito presidente, André deixou o governo e, junto com Luiz Carlos Mendonça de Barros, adquiriu a então distribuidora da Pirelli. Trouxeram como sócios alguns grandes operadores do mercado e se teve a situação inédita do insider da distribuidora ser o próprio sócio.
A brava imprensa montou um escândalo sem tamanho quando outro pai do Real, Pérsio Arida, hospedou-se na fazenda do presidente do BBA, Fernão Bracher, um episódio absolutamente irrelevante. Se quisessem trocar informações confidenciais, muito mais prático se reunir em algum escritório em São Paulo. E deixou passar em branco o absurdo do principal condutor da política monetária não trabalhar no governo e ser sócio de uma distribuidora que ganhou rios de dinheiro com suas decisões.
Mas isto é passado.
Nos últimos tempos, a exemplo de Paul Krugman e outros grandes economistas, André se tornou um crítico acerbo do mainstream econômico. O ponto central de questionamento é em relação ao papel da política monetária no combate à inflação – que resultou na teoria das metas inflacionárias, principal responsável pelo aumento exponencial da dívida pública brasileira. Diz ela que se a inflação aumenta, a taxa real de juros (ou seja, a taxa descontada a inflação) tem que aumentar. A cada aumento da inflação, portanto, a taxa de juros aumentava mais que proporcionalmente.
A discussão teórica por trás disso está na maneira como a teoria monetária enxerga o papel da moeda: como meio de troca, unidade de conta e reserva de valor. Por conta dessa visão, um aumento na emissão de moeda provocaria a sua desvalorização, pelo excesso de oferta, resultando em inflação.
André questiona esse princípio com base em tudo o que ocorreu na economia mundial na última década. Juros negativos, expansão enorme da liquidez e a inflação totalmente sob controle. A teoria convencional não conseguiu desenvolver uma explicação lógica para esse paradoxo.
Com base nisso, André passa a minimizar o papel da moeda como unidade de valor. Diz que o governo pode aumentar seus gastos emitindo moedas, sem impactar os preços, desde que haja capacidade ociosa na economia. Enfim, uma constatação banal em cima do que ocorreu nos últimos tempos.
A partir daí, entra no cerne da questão.
O que jogou a economia brasileira em uma semi-estagnação nesses anos todos foram taxas de juros muito acima da taxa de crescimento da economia. Ninguém irá investir em setores cujo retorno seja inferior ao da taxa básica da economia. Se a taxa de crescimento for inferior à taxa de juros, haverá um desestímulo ao investimento.
Ora, o termômetro principal da questão fiscal é a relação dívida/PIB. André minimiza. Primeiro, porque há duas maneiras de reduzir a relação: ou aumentando o PIB, ou reduzindo os juros.
Segundo, porque as taxas de juros sistematicamente acima do crescimento do PIB foram a principal causa da semi-estagnação da economia.
A partir daí, entra na questão central:
- se a redução da taxa de juros não irá impactar a inflação;
- se as taxas têm que crescer abaixo do crescimento esperado do PIB;
- se a questão fiscal depende da redução da relação dívida/PIB,
- o caminho lógico é reduzir os juros para um nível inferior ao da taxa de crescimento esperado.
E aí bateu no tabu da Casa das Garças – o centro ideológico criado por seu companheiro de Real, Edmar Bacha. Bacha foi incumbido de defender os juros elevados. E acabou produzindo para o jornal Valor Econômico, palco das discussões sobre o tema, um artigo curiosíssimo: “Comentários ao texto de André Lara Resende, por Edmar Bacha”. Não fosse seu trabalho acadêmico pré-Real, o artigo publicado seria mais devastador para sua reputação que o currículo Lattes do Ministro da Educação.
Seu primeiro argumento é padrão da precariedade da discussão econômica no Brasil. Cria um rótulo para os argumentos de André (o MMT, modern money theory). Depois, apresenta uma enorme relação de economistas que criticam o MMT. Ao que André respondeu, corretamente, que a discussão deveria ser em torno de argumentos e que ele pensava por conta própria, não precisando apelar para julgamentos de terceiros.
Os argumentos técnicos de Bacha estão no pé do seu artigo. Toda a argumentação técnica se resume aos parágrafos abaixo. E aí está o link para que não pensem que estou satirizando o conhecimento de Bacha:
“A taxa de juros relevante para nossa discussão é esta taxa paga pelo Tesouro, e não a taxa de juros que se infere das estatísticas do déficit público. É que esta última taxa incorpora o custo de carregamento dos ativos do governo, como reservas internacionais, empréstimos ao BNDES e outros bancos públicos, além de fundos e programas. Por isso mesmo, nas estatísticas do déficit público, que foi de 7,1% do PIB no ano passado, a conta de juros aparece com um valor de 5,5% do PIB, enquanto que o déficit primário aparece com apenas 1,6% do PIB.
Entretanto, a coisa muda de figura se, como seria correto, passarmos o custo do carregamento dos ativos do governo da conta de juros para o déficit primário, e deixarmos na conta de juros apenas o custo do pagamento da dívida do governo. Com esta mudança, a conta de juros baixaria para 3,7% do PIB enquanto que o déficit primário atingiria 3,4% do PIB – valores praticamente equivalentes entre si. Ou seja, nem só de juros vive nosso déficit.
Nem se peça a ela para estimar o impacto da taxa de juros no nível de atividade e, por consequência, na arrecadação fiscal. Seria complicar demais seu modelito. Mas confira a conclusão que ele tira daí:
Fechados os parênteses, minha conclusão é que, mantidas as condições atuais, devemos continuar a conviver com uma taxa de juros sobre a dívida pública que supera a taxa de crescimento do PIB. Por isso, é importante alcançar um superávit primário nas contas do governo, para evitar que a relação entre a dívida e o PIB, que já é alta para padrões de países emergentes, continue a crescer indefinidamente.
A conclusão nada tem a ver com os argumentos invocados! Está bem, o peso dos juros no déficit é de 3,7% e não de 5,5%. O que isso tem a ver com a conclusão de que “devemos continuar a conviver com uma taxa de juros sobre a dívida pública que supera a taxa de crescimento do PIB”? Rigorosamente, nada.
Mas é em cima desses bordões é que caminha a discussão econômica brasileira. E olhe que Bacha cometeu uma heresia, ao admitir um peso dos juros de 3,7% do PIB sobre a dívida púbica. Alguns seguidores cegos do mercado sustentam que, como a dívida é rolada, o peso é uma pluma.
André Lara Resende escreve sobre a crise da macroeconomia
Comentários ao texto de André Lara Resende por Edmar Bacha
André Lara Resende aponta os juros altos como causa do baixo crescimento
J.Marcelo
27 de março de 2019 8:51 amNassif parece q o ggn tá sem uma linha editorial definida como se tivesse a deriva,essa sensação talvez se deva a agora ter mais temas variados nós acostumamos com aquela linha aguerrida política e crítica ao Judiciário,será q vc não tá perdendo o bonde depois daquela lapada na Lavajato?Depois daquilo muitos prestam mais atenção ao blog aqui,acredito q na área econômica vc faz muita falta sim mas o povão daqui gosta é de “política judiciária” só q aja pescocinho do Nassif pra pôr !
Martin Pereira
27 de março de 2019 12:39 pmEsse assunto para mim é um bla-bla-bla sem fim que só interessa a intelectuais financistas que gostam de debater, trabalhar e dar parecer sobre um tema que não interfere na vida deles, mas ao mesmo tempo é seu (enorme) ganha pão. A Selic é sim o maior sistema de transferência de recursos públicos para o sistema financeiro nacional e internacional desde 1994. Ou antes.
A Selic nunca impediu realmente o consumo financiado no Brasil, muito menos o consumo a vista cujo aumento de ambos seria causa da inflação seguindo a regra vigente. Desde que o povo tenha como pagar ele compra. É a famosa “parcela que cabe no bolso”. O cidadão comum paga sem nem saber o juro embutido no preço.
Ninguém compra pão, carne, leite, arroz, feijão, farinha, paga conta de luz, de água, aluguel no carnê. Até compram, mas é minoria. É tudo a vista. Só se paga juros para comprar roupa, carro, geladeira, fogão, TV ou imóvel. E só deixa mesmo de comprar quando não tem dinheiro porque está endividado ou desempregado, como a maioria está hoje. E mesmo assim, hoje a Selic está a 6,50% em 12 meses enquanto o IPCA está a 3,90% em 12 meses porque não tem demanda. E por que o spread? Porque cada 1 ponto percentual na Selic, são cerca de R$ 38 bilhões na conta do sistema financeiro por ano. Vão abrir mão dessa mamata?
A inflação sobe ou desce devido a velha conta da oferta versus demanda e nos países desenvolvidos, por exemplo, uma das formas de ajudar na redução da inflação é o investimento em P&D para modernizar e baratear o custo da oferta para atender a demanda, minimizando aumento do preço final, enquanto no Brasil 80% do parque industrial é composto por empresas estrangeiras que não tem interesse em investir em barateamento da oferta, somente aumento de preços para aumentar o lucro. Sem falar nos bancos que nunca refletem a Selic em suas taxas de empréstimos e os Governos que não reduzem seus gastos nunca.
E aí fica a pergunta que nunca fazem a nós, o povo: você prefere uma inflação de 10% ao ano com pleno emprego, aumento real de salário e taxa baixa de financiamento para consumir mais e gerar mais emprego ou prefere que um conjunto de banqueiros se reúna periodicamente e defina qual será a taxa de remuneração do seu próprio capital e ainda coloquem a culpa dessa taxa no consumo do povo?
#ficaadica …
Joaquim Alves
27 de março de 2019 10:11 pmOu estou confuso ou ele realmente está defendendo a mesma medida que a Dilma e o Mantega tomaram em 2012.
Vera Silva
29 de março de 2019 12:25 pmCaramba!Gostei muito do artigo do seu site. Estarei acompanhando sempre.Grata!!!
Anônimo
29 de março de 2019 9:22 pmAs teorias econômicas tem se dedicado a definir receitas sobre a realidade. Economistas duelam com suas teorias e modelos que melhor satisfazem o tal mercado. A economia em algum tempo na sua história se preocupou com a realidade social e economica , isto é com as contradições e conflitos que colocam em movimento uma sociedade. Mas lá se vão estes tempos. No momento os economistas duelam sobre os modelos que querem impor à sociedade. Estes tais paradigmas economicos que tentam se disfarçar como teorias científicas vem se mostrando danosos desde há muito, mas são muito lucrativos para alguns poucos. As escolas de economia viraram madrassas para formação de crentes no tal de Deus Mercado. E dizem saber controlar as oscilações caóticas e especulativas do tal mercado com receitas como Reforma da Previdência e Ajuste Fiscal. São os mesmos que levaram à crise mundial de 2008, e que após uma dose de Keynesianismo, e revigorados com o dinheiro do estados , voltam a recitar o mesmo mantra. Paulo Guedes não conhece nada da realidade social brasileira, não por incompetência, mas porque ela não lhe interessa. Ele é o economista que continua repetindo o mantra ( que alíás vai enriquece-lo mais ainda) pois afinal ele acredita que a realidade social vai se curvar aos seus designios.
Quando os economistas se submeteram a uma política economica voltada para a sociedade, conseguiram pleno emprego e desenvolvimento neste país, mesmo recitando internamente os mesmos mantras. Mas estavam com saudade de serem chamados Kaisers da economia. E cá estamos com dezenas de milhões de desempregados que nos noticiários são apresentados quase como curiosidade, pois na sequencia ouviremos de novo que o problema é o Ajuste Fiscal da Previdência. Os desempregados não fazem parte da realidade economica de Paulo Guedes. Segundo ele os desempregados devem aprender que só depois da Reforma tudo vai mudar.
Zé Sérgio
30 de março de 2019 9:15 amCensura. Recorrente Censura. Não esconde nada, mas revela muito. Demonstra que a Velha Política, que o Fascismo de Esquerda do Estado Absolutista e seus Lacaios continuam todos aí nestes 89 anos, replicados em mais 40 anos de farsante redemocracia. Um país de muito fácil explicação.
Cibele Nunes
6 de abril de 2019 2:21 pmPouco entendi. Mas afinal se as falcatruas e falta de ética dos governos da direita são coisa do passado, (?), as provocações a que você se refere são presentes ou passadas?
Luiz Droubi
15 de abril de 2019 8:44 pmNem um nem outro: o André Lara Rezende quer trazer os ultimos acontecimentos econômicos dos países desenvolvidos para a realidade brasileira: não funciona, pois são realidades econômicas diferentes. Nos países desenvolvidos, não eh simples capacidade ociosa: eh armadilha da liquidez. Nos países em desenvolvimento isso não existe, nos temos inflação aqui, existe espaço de sobra pra cortar os juros nominais. O fato eh que não precisa de teoria nova nenhuma para se entender o que esta acontecendo: foi montado um modelo econômico em que o BC soh eu responsável pelo controle da inflação. soh isso. Mais nada. Um BC soh pra controlar a inflação e dane-se a economia. Dai sobra pro governante de plantão as culpas pelos seguidos insucessos da economia. Qual a única solução possível, com esta configuração institucional? O uso da política fiscal, com aumento de gastos, juros subsidiados, etc… Mas com Lava-Jato e um MP totalmente imbecilizado, procuradores totalmente irresponsaveis, esse modelo caducou! Não da mais. Além disso, a política monetária eh muito mais horizontal e menos concentrados de riqueza que a politica fiscal, mas ela nunca eh usada por aqui, diferentemente do que ocorre la fora: a primeira política eh sempre a monetária para o estimula da economia. Urge dar autonomia ao BC, mas urge tb dar responsabilidades extras para essa turma, como a promoção do pm e o emprego, como faz o FED.