
“Sim! Está decidido, agora não tem mais volta”, de Serguei Iessiênin
Traduzido por Pablo Polese
Do Passa Palavra
Estou a andar pelas ruas, cabisbaixo, rumo / à taverna mais próxima, para um drink ou dois
Nota do tradutor
Publicado em 1922, este belo poema de Serguei Iessiênin já foi musicalizado por diversos artistas russos (por exemplo, aqui e aqui). Trata-se de um poema conhecido de cor e recitado em cada bar ou praça por praticamente qualquer russo, mas surpreendentemente não tem uma tradução facilmente acessível para o português. E digo “facilmente acessível” porque espero que os leitores do Passa Palavra me indiquem alguma tradução deste famoso poema, pois eu não encontrei nenhuma.
Parecem-me oportunas algumas palavras sobre o autor e o contexto do poema. Na sequência da Revolução de 1917, não obstante o contexto de guerra civil (que duraria até 1921), se deu na Rússia uma fervorosa produção artística, com feitos muito criativos (teatros com participação espontânea de milhares de pessoas/atores, desenvolvimento e surgimento de várias vanguardas artísticas etc.) que revolucionaram o mundo das artes e nos permitiram ter uma pequena amostra dos potenciais que uma transição socialista abriria também neste campo. A amostra acabou sendo limitada por conta dos próprios rumos da revolução russa, mas permitiu ver que, junto à mudança nas relações sociais, vem a mudança na forma de expressão artística do novo mundo nascente.
O Partido bolchevique interessou-se sobremaneira pelo tema da arte, especialmente sobre a vinculação entre arte e propaganda e arte e instrução, por isso criou oNarkompros, o Comissariado do Povo para a Instrução Pública. Carecendo de meios modernos de comunicação, o uso de cartazes e pinturas em todo lugar possível e imaginável, com fins de propagandear os valores da revolução, garantia certa liberdade aos artistas da época. Com Anatoli Lunatcharski a frente do Narkompros, a individualidade e criatividade dos artistas eram encorajadas. O Narkompros estimulava o desenvolvimento de novas tendências artísticas, e houve então toda uma reformulação do sistema oficial de ensino artístico. Bastante democrático, o Narkompros não se colocava nem do lado dos adeptos da implantação imediata de uma cultura proletária, nem daqueles que defendiam a aceitação da cultura burguesa. No entanto o Comissariado devia prestar contas ao governo soviético, e já naquele contexto inicial o governo bolchevique demonstrava uma certa predileção ao atrelamento entre arte e propaganda revolucionária.
Buscando agradar gregos e troianos, ou seja, os adeptos da arte funcional à revolução e os defensores da arte livre, Lunatcharski chegou a propor a eliminação do júri para a aceitação das obras de arte nas exposições, dando lugar às chamadas “Exibições Livres Estatais”. Assim, qualquer cidadão russo poderia expor uma obra que considerasse arte.
Com a instituição da NEP, a Nova Política Econômica que deu um choque de Capitalismo na Rússia pós-revolucionária, a verba repassada para o Narkompros passou a ser cada vez menor, enquanto o órgão era encarregado de cada vez mais funções. O orçamento do Comissariado passou de 11,5%, em 1918, para 15,5%, em 1919; e em seguida para 9,4%, em 1920, e 2,2%, em 1921. Além disso o Partido empenhava-se em estabelecer um controle rígido do Narkompros, tanto quanto do Proletkult.

Segundo Lunatcharski, Lênin guardava muita desconfiança em relação tanto ao Proletkult quanto ao Narkompros, não só porque havia ali um adversário político (Alexandre Bogdanov) que poderia gerar problemas, mas também porque o líder bolchevique não via com bons olhos o afastamento dos operários do aprendizado das ciências e da cultura existentes, as quais, obviamente, eram “burguesas”. Foi nesse contexto que Lênin recomendou a Lunatcharski, em 1920, a vinculação entre Proletkult e Narkompros, o que representaria um maior controle do Partido. Não por acaso os anos seguintes tivemos os cortes de verbas para o Narkompros e o fim da Proletkult, enquanto ganhou expressividade a corrente artística “produtivista”, que associava arte e vida. Tátlin, expoente do Construtivismo russo, defendia, por exemplo, que a verdadeira importância da arte estava no cumprimento de um papel político. Vê-se então as raízes da passagem do construtivismo russo rumo a uma arte funcional, comprometida com uma nova estética (a ser aplicada na indústria, vide Bauhaus) tanto quanto com a propaganda política do regime.
Em todo caso, a imposição do Realismo Socialista a partir dos anos 1930 não foi obra exclusiva de maquiavélicos dirigentes partidários que pretendiam usar a arte como ferramenta de manipulação e de convencimento do povo russo. A receptividade daquelas teorias tinham algum substrato material na própria cultura russa pós-revolucionária e seu modo particular de encarar a revolução e o papel da arte na transição socialista.
Os anos 1920 e 1930 foram muito agitados no âmbito dos debates sobre qual seria a arte revolucionária, o que, claro, veio acompanhado da questão da censura da arte não-revolucionária. Foi então que se deu o debate sobre a criação de uma cultura pelos próprios proletários, o Proletkult, e depois os debates sobre o realismo socialista etc. Embora muito interessante, tudo aquilo desembocaria nas bizarrices do chamado realismo socialista e a censura do Partido não só a certos tipos de arte, mas até mesmo a certos instrumentos como “instrumentos burgueses” etc. Um belo filme que passa pelo tema é o “Balzac e a costureirinha chinesa”.
Sobre as vanguardas russas, vale a pena mencionar o Futurismo, o Construtivismo, o Suprematismo e o Imagismo. O “poeta da revolução” Mayakovsky era expoente do Futurismo russo, enquanto seu amigo, Serguei Iessiênin, integrava a vanguarda do Imagismo, mas a verdade é que a poesia de ambos contém traços de várias correntes e não podem ser facilmente inseridas nas caixinhas das correntes artísticas. Talvez por isso se chamem “correntes”.
Nosso poeta, Iessiênin, era livre, nada de correntes ou caixinhas, portanto. Livre, escolheu a morte. Quem poderá julgá-lo? Suicidou-se num hotel em Leningrado, em dezembro de 1925. Àquela altura, a revolução já mostrara sua face negativa. Iessiênin estava casado com a bailarina Isadora Duncan desde 1921, e também há quatro anos vivia com o poeta Anatoli Marienhof. Iessiênin não nos deixou um bilhete de suicídio, mas afirma-se que deixou um poema de despedida escrito com o próprio sangue, dedicado ao amante. Tal poema teria sido ocultado pelo governo soviético, por interesses políticos, mas não encontrei essa informação em fontes confiáveis. De todo modo, o suicídio de Iessiênin gerou uma comoção nacional.
Teria existido o tal poema de despedida escrito em tinta vermelha? E qual seria seu conteúdo subversivo, para além do próprio destinatário ser outro homem? Confesso que não me dei ao trabalho de pesquisar o grau de perseguição a homossexuais no primeiro quinquênio da revolução russa. Imagino que era alto, afinal passados 100 anos ainda lutamos por essa bandeira. Além disso, ainda que encontrasse dados, não poderia relacionar o suicídio diretamente a isso, e um espírito livre e crítico certamente encontraria motivos de sobra para indignar-se com os rumos da vida naquela sociedade de potencialidades perdidas ano após ano. Alguns explicaram o suicídio rapidamente, culpando a bebedeira típica do “contramestre das noitadas” russas. Mas o amigo Mayakovsky sabia bem quão fétido e pesado era o ar daquela Moscou de 1925, e por isso não culpou o vinho: em seu poema em homenagem ao amigo, disse:
Sim, se você tivesse um patrono no “Posto” [alusão à revista Na Postu, da RAPP – Associação Russa de Escritores Proletários] ganharia um conteúdo bem diverso: todo dia uma quota de cem versos […] Remédio? […] despautério: mais cedo ainda você estaria nessa corda. […] Melhor morrer de vodca que de tédio! […] Você, com todo esse talento para o impossível; hábil como poucos. Por quê? Para quê? Perplexidade. É o vinho! – a crítica esbraveja. Tese: refratário à sociedade. Corolário: muito vinho e cerveja. Sim, se você trocasse a boêmia pela classe; A classe agiria em você, e Ihe daria um norte. E a classe por acaso mata a sede com xarope? […] Talvez, se houvesse tinta no “Inglaterra” [o hotel em que ele se matou] Você não cortaria os pulsos.[…] Os plagiários felizes pedem: bis! Já todo um pelotão em auto-execução. Para que aumentar o rol de suicidas? Antes aumentar a produção de tinta! Agora para sempre tua boca está cerrada. Difícil e inútil excogitar enigmas. O povo, o inventa-línguas, perdeu o canoro contramestre de noitadas. […] Por enquanto há escória de sobra. O tempo é escasso – mãos à obra. Primeiro é preciso transformar a vida, para cantá-la – em seguida. Os tempos estão duros para o artista: Mas, dizei-me, anêmicos e anões, os grandes, onde, em que ocasião, escolheram uma estrada batida? Que o tempo – cuspa balas para trás, e o vento no passado só desfaça um maço de cabelos. Para o júbilo o planeta está imaturo. É preciso arrancar alegria ao futuro. Nesta vida morrer não é difícil. O difícil é a vida e seu ofício.
(o trecho citado é do poema “A Sierguéi Iessiênin” (1926) traduzido por Haroldo de Campos e publicado em Maiakóvski: Poemas. Perspectiva, 2003.)
Sim! Está decidido, agora não tem mais volta – Serguei Iessiênin (1922)
Sim! Está decidido, agora não tem mais volta
Deixei minha querida terra natal,
as folhas de álamos carregadas pelo vento nunca mais cairão sobre mim,
não sentirei novamente o toque das folhas, nem ouvirei seus sussurros, é verdade.
Nossa antiga casa vai vir abaixo na minha ausência,
e o meu velho cão já há tempos está morto.
Nas frias e tortuosas ruas de Moscou
caminho para a morte, esperando conhecer a misericórdia desse Deus que tem me julgado.
Amo demais essa cidade de olmos,
cheia de prédios decrépitos e casas velhas.
Um sonho asiático de inesquecível beleza
onde repousam templos cobertos de ouro.
À noite, quando a luz da Lua, dissipada,
Brilha por sobre a cidade… diabos! O inferno sabe como queimar!
Estou a andar pelas ruas, cabisbaixo, rumo
à taverna mais próxima, para um drink ou dois.
É um antro sinistro e barulhento esse lugar,
Apesar disso, durante a noite toda, até de madrugada,
leio poemas para as meninas que vão se prostituir,
enquanto me embebedo e elas se divertem prazerosamente com os ladrões.
Meu coração começa a palpitar com mais e mais força,
então choro, finalmente perdendo a compostura,
e falo, meio sem propósito, meio fora de contexto:
“Assim como vocês, eu falhei e me perdi,
mas pra mim já não há caminho de volta”.
Minha antiga casa desmoronou na minha ausência,
meu velho cão já há tempos está morto.
Nas frias e tortuosas ruas de Moscou
estou fadado a morrer, esperando a misericórdia desse Deus que tem me julgado.
Tradução de Pablo Polese

Almeida
12 de março de 2015 6:40 pmSerguei Iessiênin e Isadora Duncan
Serguei Iessiênin e Isadora Duncan no EUA (Сергей Есенин и Айседора Дунк в Америке), casados, em 1922.
[video:https://www.youtube.com/watch?v=otIXnsav_L4%5D
marcos nunes
12 de março de 2015 7:09 pmDe um outro poeta suicida
Para lá vou eu, esgotado /por anos de demência e álcool /corpo bem curtido na memória / que não consigo apagar, apesar /de tudo que sofro, nada além / do que tantos sofrem e, mais que eu /só deixam marcas profundas em seus /documentos de identidade // Para onde vou eu, ciente / e silente em um poema que deve /gritar por mim e nada mais faz /que cócegas em um urso ciumento / diante daquele que se condoeu /um dia, das minhas velhas calças /da minha gravata frouxa, o olhar /feroz sobre o sorriso de quem planeja /arrancar as carnes de uma donzela // Para que eu vou, se insisto /em ficar, no aguardo do que /planejei: um mundo de amores /não cativos, um rio límpido que segue /lentamente, até o mar suave, em seu /verde-azulado repleto de metáforas /e peixes, para que?, finalizo /se nada encontro lá que tanto /daqui difira, então nos pulsos /o corte alivia, e o fluxo rubro /me tranquiliza: é onde estou, /é para sempre.