5 de junho de 2026

The Intercept confirma antigas suspeitas sobre a motivação política por trás da Lava Jato

Moro orientou as investigações do Ministério Público Federal, especialmente nos casos envolvendo o ex-presidente Lula com objetivos notadamente políticos e de autopromoção

Jornal GGN – O trabalho do The Intercept, divulgado a partir deste domingo (9), ajuda a fechar o quebra-cabeças que vem sendo montado pelos meios de comunicação mais independentes do Brasil, desde o início da Lava Jato, de que a operação coordenada no Paraná tinha fortes motivações políticas.

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O portal de notícias pertencente ao jornalista norte-americano Glenn Greenwald, que assina as reportagens ao lado de Victor Pougy, destaca que o trabalho foi realizado em cima de um material coletado por uma fonte anônima, entre 2015 e 2017, abrangendo o conteúdo de chats que totalizam 1.700 páginas.

Leia também: The Intercept revela conversas privadas entre Dallagnol e Sergio Moro

Basicamente, as mensagens vazadas revelam que o ex-juiz da Lava Jato na primeira instância – 13ª Vara Federal de Curitiba -, Sérgio Moro, orientou as investigações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, especialmente nos casos envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o objetivo claro de garantir a sua condenação e o afastamento definitivo do Partidos dos Trabalhadores do cenário político brasileiro.

Em conversas trocadas com o procurador da República e coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, Moro deu conselhos, antecipou decisões e cobrou ações da força-tarefa. As reportagens do The Intercept mostram ainda que Dallagnol tinha dúvidas pessoais quanto ao conteúdo da denúncia contra Lula no caso triplex. O site revela também uma agenda política e ideológica, há muito negada pelos procuradores da Lava Jato e Moro.

Um dos exemplos flagrantes da politização ocorreu 10 dias antes do primeiro turno da eleição de 2018, quando o ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, acatou o pedido da Folha de S.Paulo para entrevistar Lula.

Imediatamente após saber da decisão do dia 28 de setembro de 2018, a equipe de promotores que cuidava do caso de Lula começou a discutir em um grupo que mantinham no Telegram formas de reverter a decisão do STF ou de tornar a entrevista de Lula menos impactante. Durante a discussão, os promotores deixaram claro que o principal objetivo era impedir que a entrevista de Lula, já preso por corrupção e lavagem de dinheiro no caso triplex, pudesse contribuir na eleição de Fernando Haddad (PT).

Moro, por sua vez, em outras mensagens trocadas com Dallagnol deixou explícito o seu objetivo pessoal:

Dallagnol – 22:19:29 – E parabéns pelo imenso apoio público hoje. […] Seus sinais conduzirão multidões, inclusive para reformas de que o Brasil precisa, nos sistemas político e de justiça criminal. […].
Moro – 22:31:53. – Fiz uma manifestação oficial. Parabens a todos nós.
22:48:46 – Ainda desconfio muito de nossa capacidade institucional de limpar o congresso. O melhor seria o congresso se autolimpar mas isso nao está no horizonte. E nao sei se o stf tem força suficiente para processar e condenar tantos e tao poderosos.

“No geral, os documentos retratam uma força-tarefa de promotores aparentemente empenhados em explorar seus poderes legais para fins descaradamente políticos, liderados por seu objetivo de impedir o retorno ao poder do Partido dos Trabalhadores, e especificamente Lula”, aponta trecho da matéria do The Intercept, na versão para o público que fala inglês.

Ao contribuir com as investigações do Ministério Público e Polícia Federal, o juiz Moro infringiu regras do código de condutas da magistratura e do direito constitucional no país. Em regra, o juiz deve ser imparcial, e manter a mesma distância entre o acusado e o acusador durante toda a análise processual.

“As conversas sugerem que o juiz deu acesso privilegiado à acusação e ajudou o Ministério Público a construir casos contra os investigados, o que pode ser usado pela defesa dos acusados na Lava Jato. Esse foi, por exemplo, o argumento da defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao recorrer da condenação e ao denunciar Sergio Moro na Comissão de Direitos Humanos da ONU. “O juiz Moro atuou com pré-julgamento, pois ele foi o juiz de investigação de Lula”, disse o advogado que representou o ex-presidente na ONU, Geoffrey Robertson, na época em que o petista foi condenado em segunda instância. A defesa de Lula vem, sem sucesso, questionando a imparcialidade de Moro no Supremo Tribunal Federal”, pontua trecho da quarta reportagem da versão em português do Intercept.

Durante cinco anos a Lava Jato tornou-se a maior operação para investigar esquemas de corrupção entre políticos e empresas no Brasil. Ao longo desse período, Moro e os procuradores da força-tarefa de Curitiba receberam vários reconhecimentos e prêmios dentro e fora do país. Os arquivos disponibilizados agora pelo site The Intercept esclarecem melhor as reais motivações por parte de atores poderosos.

O site divulgou que novas matérias serão publicadas nos próximos dias apontando a participação de lideranças políticas, últimos presidentes do país e até mesmo líderes internacionais acusados de corrupção. Como medida de segurança, os documentos estão sendo mantidos fora do país.

Ao longo da meia década de atuação, a força-tarefa da Lava Jato deixou transparecer algumas vezes os mesmos problemas apontados agora, de forma mais clarividente, pelo The Intercept. Em novembro 2017, na matéria “Após admitir tom político, Lava Jato diz que tem trabalho ‘técnico e imparcial‘”, por exemplo, o GGN destacou essa tendência ao analisar a carta pública divulgada em conjunto pelas forças-tarefas de Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro.

“É importante que sejam eleitos candidatos com o passado limpo e identificados com a agenda anticorrupção”, escreveram os procuradores na época.

Na mesma ocasião, Dallagnol (coordenador da força-tarefa do Paraná), declarou: “A maior ameaça à Lava Jato é o Congresso nacional. Vide, por exemplo, o que ocorreu entre os parlamentares fluminenses que livraram da prisão políticos investigados e sobre os quais pairam grandes indícios de ilegalidade. Não existe resposta para isso que não seja nas urnas”, manifestou.

Leia também: Algumas considerações sobre o dossiê do The Intercept, por Luís Nassif

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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2 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    10 de junho de 2019 12:36 pm

    Os Coxinhas têm certeza da impunidade do Moro e do Dallagnol. Eles dizem que isso vai terminar em pizza, pois isso é uma prática corriqueira no Brasil. O Judiciário não foi simétrico em relação às duas partes litigantes.

  2. Anônimo

    10 de junho de 2019 12:52 pm

    Chegou a hora de ver qual o comprometimento da sociedade para com a justiça, mas a justiça de verdade!
    Se trouxer consequências, o futuro do Brasil estará melhor resguardado, se não a porta ficará aberta para todo tipo de desvio quer seja do judiciário, forças armadas, potência estrangeira e todo e qualquer espertalhão que se achar no direito de comprar subsidiárias de energia por 50 mil reais…
    Vamos murchar silenciosamente…

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