5 de junho de 2026

Por que o ódio a Jesus?, por Urariano Mota

Para esses evangélicos, Cristo encarna o próprio anticristo, na medida em que nega o amor universal e se mistura aos perseguidores, na pior companhia e cia.

Por que o ódio a Jesus?

por Urariano Mota

No sábado da semana que passou, fui abordado de modo abusivo, insistente, diante de sinal de trânsito. Um grupo de evangélicas me incomodou com a exigência de eu receber um panfleto da sua igreja. Mas de um modo tão antipático, que me deixou em dúvida se aceitaria o impresso.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Em condições normais, eu não vacilaria. Leitor que sou da Bíblia, tenho curiosidade em saber quais versículos são distribuídos para a doutrinação de pessoas. No entanto, a forma com que me empurravam o folheto, que se tivesse cola ficaria pendurado em minha mão, me fez recusar em silêncio e atravessar a rua. Para quê? Ouvi gritos:

– Jesus te ama!!!

Então respondi, num impulso:

– Eu odeio Jesus!

E já na outra margem, pude ouvir:

– Amém. Aleluia!

Mas tanto o Aleluia quanto o “Jesus te ama” foram ditos com voz de raiva, de quem roga uma praga. Acredito mesmo que se a frase evangélica tivesse poder concreto, faria acionar um motorista louco sobre mim. De tanto amor à minha morte e salvação.

Já depois, ao tomar uma cerveja, o desejo das irmãs fazia eco. Eu me perguntava: será que a maldição vai se cumprir já? E mais grave, me pergunto agora: por que eu, tão religioso na infância, amante das histórias e forma do Velho Testamento, simpatizante da vida de Cristo, como pude falar na rua do bairro onde moro, “ eu odeio Jesus” ?

É claro que nisso há razões subjetivas, que vêm também como uma libertação. Mas não sou louco de me abandonar em público à expressão de pensamentos mais íntimos. Não escrevo literatura em voz alta. A razão é objetiva, social. Ela vem da organização política que o Brasil sofre hoje, em que certas igrejas evangélicas apoiam o fascismo e o atraso de Bolsonaro.

A razão vem do quanto evangélicos infestam o congresso, a mídia, os bairros populares, com a sua pregação de atraso, de raiva contra a ciência e as artes. Se essas igrejas são Jesus, não pode haver paz entre os amantes da humanidade e evangélicos.

Há pouco, num acréscimo às chamadas razões objetivas, recebi a notícia de que milhares de pessoas participaram de ato evangélico em São Paulo. E pude ler:

Nas imediações, um vendedor de camisetas colocou um totem com uma foto em tamanho real de Bolsonaro com a faixa de presidente. Participantes tiraram fotos —alguns faziam gesto de arma com os braços, outros faziam um coração com as mãos.

Declarou um empresário: ‘é importante Bolsonaro vir para esta marcha e mostrar que Deus é quem comanda o governo dele’ ”.

Para esses evangélicos, Cristo encarna o próprio anticristo, na medida em que nega o amor universal e se mistura aos perseguidores, na pior companhia e cia.  Jesus entrou para a direita. Por isso, não perguntem mais por que um homem, qualquer homem de formação cristã, fala: eu odeio Jesus.

*Vermelho http://www.vermelho.org.br/noticia/321454-1

Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

9 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Antonio Carlos Macedo Salgado

    22 de junho de 2019 9:16 am

    O Jesus Cristo desses evangélicos, que pousam para fotos com o gesto dos revólveres nas mãos, de fato, não corresponde àquele de que trata o novo evangelho. Parace haver uma severa desconexão entre esses evangélicos ‘das arminhas’ e a bíblia.

  2. Paul Muadib

    22 de junho de 2019 9:55 am

    Se você é amante das histórias e forma do velho testamento, lamento de informar mas você é adorador de um ser mitológico de péssima personalidade: vingativo, misógino, imoral e sanguinário.

  3. Lúcio Vieira

    22 de junho de 2019 10:16 am

    Iludidos estão aqueles, religiosos ou não, que acreditem que a paz no mundo virá pelas/das religiões. Basta que se observe que não há uma sequer religião, ou de seus seguidores que preguem a paz para o aqui e agora. Não me recordo de nenhuma exceção, mas o que colocam como a sublimação da busca religiosa é sempre para o aquém e/ou para o além. Nunca é para o aqui e/ou para o agora. Quase sempre para o pós morte, numa outra dimensão, mundo, planeta ou local (céu, jardim de Alá, nirvana, shantidham etc.). Às vezes depois de muitas encarnações.
    Usando de bom senso, o que constata-se são:
    – Se não acredito (que seja para este mundo e em vida) não farei porquê, não buscarei, não oferecerei aos outros e não compartilharei;
    – Se não planto, não colherei; se não dou, não receberei;
    – Se acredito que a paz é de Deus (ou de alguém mais), dependerei sempre da vontade alheia e só restará me submeter a que ela venha a mim e por experiência e história, não parece ser funcional;
    – Se vivemos no mundo da ação/reação e entendo que o oposto da paz ou a falta de paz é a raiva (ódio, ira nervoso etc.) não deve ser de bom senso que alimentando raiva em mim, venha a colher a paz. É preciso primeiro entender e renunciar da raiva e alimentar a mente, palavras e atos com a paz.
    – Pelo observado aumento da dicotomia, agressividade, problemas mentais, psicológicos e do sistema nervoso a tendência é o aumento do viver distanciado da paz;
    – Um mundo verdadeiramente de/em paz, prescindirá de religiões, já que não haverá nele a necessidade de religar-se a algo (que ali, já deva estar religado);
    – Paz é algo ativo e nunca passivo. O ativista é pacificador e o pacifista é passivo, teórico. Foi muito bem colocado como um dito de Cristo que “bem aventurados serão os pacificadores” (e não os pacifistas).
    A falta de paz está permeando estes tempos ácidos. Pegue-se o exemplo do Papa atual. Nos tempos recentes nunca se teve um com atitudes e atividades tão cristãs, inclusivas e de perdão e ao mesmo tempo com tanta oposição, mesmo dentro da própria instituição.

  4. Anônimo

    22 de junho de 2019 10:25 am

    O Anticristo, quando for revelado no mundo, o será com a permissão de Deus. Milhões o seguirão, enganados pelo discurso do Falso Profeta. Bolsonaro, Bispo Macedo, Feliciano Malafaia, etc, são apenas uma pequena amostra do que a religião apóstata e a política são capazes de realizar, juntas.

  5. pedro luiz lorençon

    22 de junho de 2019 11:01 am

    Eles não seguem a ideia do Deus Judeu? Um Deus de ódio, de supremacia, de imposição. Por isto eles apoiam Israel e sua sanha de acabar com os árabes, em especial sírios, libaneses e palestinos.

  6. Anônimo

    22 de junho de 2019 11:41 am

    Bom artigo. Raiva e vergonha é o sentimento comum ao ver tais comportamentos. Não se pode dizer que são atos (pontuais) daqueles, mas um estilo de exercer a religiosidade, que desperta isso. É um antropomorfismo aplicado ao deus que eles criaram e veneram, um deus que promove o orgulho e superioridade por conta da religião que são direcionados a quem não segue, ou o deus do dinheiro ou ainda o deus do ódio. Imagino o que ouviriam caso oferecessem o tal folheto com as imprecações mágicas (“amém, aleluia) a João Batista. E novamente meus parabéns a quem escolheu a foto que ilustra o texto. Não poderia ser melhor…Os pregadores ladeando alguém imitando um tiro de fuzil.

  7. Anônimo

    22 de junho de 2019 12:11 pm

    Os evangélicos são os mais penalizados no país, pois além de pagarem impostos, pagam dízimos!
    E os dízimos sustentam uma classe de políticos, que são pastores que não têm dó de suas ovelhas quando votam em favor dos sistema financeiro, reforma trabalhista e previdenciária!
    A vitória de Crivela no Rio de Janeiro, tira da Globo poder em seu seu estado, digamos “natal” e dá ao Edir Macedo a possibilidade de alcançar a presidência ou de indicar seu presidente!
    Bolsonaro acha que tem apoio dos evangélicos, por enquanto conduzidos pelos pastores políticos, a medida em a situação financeira piorar também para eles com a queda na arrecadação do “dízimo”, ai as coisas mudam…
    Há muito ódio dentro dos evangélicos, por isso votaram com bolsonaro, eles querem que os pecadores ardam no fogo do inferno!
    Isso também é ódio!

  8. Haroldo Cantanhede

    22 de junho de 2019 12:37 pm

    O eleitor de bozo prefere Barrabás.

  9. Carlos Elisio

    22 de junho de 2019 12:43 pm

    Mas o casal que promove estes eventos nao é o mesmo que usa a biblia como carteira? Inclusive, por causa disso, puxaram uma cadeia nos EUA?
    Isso para falar apenas desta seita. Sobre os CEOs de outras, como uma de Niterói por exemplo, pesam suspeitas ainda maiores.

Recomendados para você

Recomendados