A 17ª. Flip em Paraty
por Walnice Nogueira Galvão
Paraty acaba de ser elevada à categoria de Patrimônio da Humanidade, título conferido pela Unesco. A bela cidade colonial, de casario caiado, portas e janelas coloridas, tem ruas calçadas com grandes pedras irregulares, o “pé-de-moleque”. Abrigada numa enseada entre montanhas, ostenta lindas igrejas e o rio Perequê-açu que a atravessa.
A Festa Literária de Paraty realiza-se há muitos anos. Foi criada por Liz Calder, fundadora da Bloomsbury e editora de Harry Potter que, morando na Inglaterra, costumava veranear em sua casa em Paraty. Desde então, ela é a presidente da Flip.
Com o passar do tempo, a Festa foi-se ampliando, tornando-se cada vez mais estimulante e até ultrapassando em parte seus objetivos puramente comerciais – pois se trata de uma feira de editores, destinada a mostrar sua produção. Mas oferece aos fãs a ocasião de conhecer autores novos, ou já famosos, ou vindos de longe. Criou-se uma Flipinha, dirigida às crianças, com atividades próprias à idade e incentivo à aquisição do hábito da leitura. Iniciativa democrática foi a abertura de um segundo auditório com telão, de entrada gratuita, na Praça da Matriz, ao lado do auditório principal para pagantes. Cada uma das tendas comporta mais de 500 pessoas.
Hoje a Flip abraça temas de candente atualidade, como racismo, homofobia, democracia. E as mulheres foram aumentando sua participação, até chegar à metade.
Vários outros eventos culturais concorrem para a trepidação da festa, que atrai 25 mil turistas a cada ano. São danças, eventos de teatro e cinema: Entre outros, foi exibido o filme Deus e o Diabo na terra do sol, inspirado em Os sertões. Comparecem os folguedos populares preservados na região, como o moçambique e a ciranda caiçara com seus violeiros. A Praça Aberta congrega agricultores locais, artesãos, comunidades tradicionais, movimentos sociais e coletivos dos arredores, com foco em agroecologia e em economia solidária. Expõem e vendem seus produtos em tendas montadas à margem do rio.
Há pouco tempo apareceu a Flipei, dos pequenos editores, que em elevado número ocupam o Barco Pirata, decididamente off-Flip. O barco atraca na foz do Perequê-açu e se declara alternativo e contracultural. Desde o início, abrigou os quilombolas, os indígenas, as feministas.
Destaca-se a intervenção firme e renovadora da curadora estreante, Fernanda Diamant. Logo de saída, resolveu transgredir a norma não explícita de que o escritor homenageado deveria ser ficcionista, isto é, romancista, contista, poeta. Não: ela decidiu indicar Euclides da Cunha, um escritor fora dessas categorias. E, assim fazendo, escolheu conscientemente um autor difícil, controverso e atento às mazelas da sociedade brasileira. Foi ele quem denunciou as atrocidades cometidas pelo exército, a cumplicidade da mídia, a indiferença dos poderosos, enfim o genocídio que levou ao extermínio o arraial de Canudos.
Gesto corajoso e seguro de si, fez toda a diferença e atraiu mais – justamente – os diferentes.
Hoje, a Flip abriga 27 projetos agregados, que chama de Casas, em parcerias com outras instituições e setores da sociedade. O Sesc, que mantem um posto avançado em Paraty, é uma delas; o Instituto Moreira Salles é outra.
Na noite da abertura oficial, seguindo-se à conferência sobre Euclides da Cunha, houve uma apresentação do Teatro Oficina, intitulada “Mutação de Apoteose”.
Os frequentadores comentavam que nunca a Flip foi tão diversa e inclusiva. Os cinco autores mais vendidos na Festa foram os africanos Gaël Faye (Burundi), Ayobami Adebaio (Nigéria), e Kalaf Epalonga (Angola), completados pela portuguesa Grada Kilomba e pelo indígena Ailton Krenak. Foram longas as filas para autógrafos e selfies, com horas de espera.
Mas o ponto alto certamente foi a presença-relâmpago de Glenn Greenwald, que fez uma palestra no Barco Pirata, tendo chegado e partido de lancha, para evitar excessiva agitação. Foi saudado por uns poucos descontentes que empunhavam bandeiras nacionais, gritavam slogans e soltavam rojões contra ele. Sensacional.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
Zé Sérgio
26 de julho de 2019 10:30 amEntre as Aberrações Surreais Brasileiras estão o total desconhecimento de grande parte da População do contato com Lugares Excepcionais, mundialmente reconhecidos, como Parati ou Cidades Históricas Mineiras. Municípios que se situam entre as maiores Capitais Nacionais e região mais rica, desenvolvida e densamente povoadas. Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. Não existe incentivo algum para que Jovens, Alunos da Rede Pública de Ensino, conheçam através de Excursões, toda a Espetacular e Única Mata Atlântica da Serra do Mar entre Parati / RJ e Vale do Ribeira / SP. Estamos falando em algo barato e simples de ser feito, com um mínimo de incentivo. A FLIP esta aí, todos anos. Prova de excelência da capacidade brasileira. (Mais raro é a Mostra de Tarsila do Amaral no MASP. Vanguarda e Intelectualidade de uma Mulher na 1.a República. República Paulista. Não somente, mas também ABAPORU / 1928. Que retornará a seu exílio argentino. Intelectualidade Feminina da Semana de Arte Moderna, com suas influências. Uma Mulher que representava a Vanguarda Feminina e sua Nação nos anos de 1900. Quando ainda éramos cabeça, antes de tornarmos em rabo)
GESIKA VIEIRA FAGUNDES
26 de julho de 2019 9:53 pmEsperava um evento mais literatura mas vi muita política inserida, confesso que não gostei. Na maioria das casas que eu fui sempre tinha um discurso político. E eu só queria exalar literária por todos os cantos maasss, confesso que isso me entristeceu, pois era um sonho estar na Flip, sai de lá bastante frustrada.