4 de junho de 2026

Costa Cavalcanti não foi o ‘probo’ descrito por Gaspari, por Rosa Freire d’Aguiar

Hoje o Elio Gaspari, comentando os bastidores do tal acordo Brasil-Paraguai, em torno da usina de Itaipu, lembra que ela foi "construída por um ex-oficial do Exército que passou pela vida pública sem nódoa".

Os sem-nódoa

por Rosa Freire d’Aguiar

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Hoje o Elio Gaspari, comentando os bastidores do tal acordo Brasil-Paraguai, em torno da usina de Itaipu, lembra que ela foi “construída por um ex-oficial do Exército que passou pela vida pública sem nódoa”.

Refere-se a José Costa Cavalcanti, que foi ministro de Minas e Energia dos militares, assinou o AI-5 em 68 e tocou Itaipu por vários anos. Segundo Gaspari, “morreu pobre” — subtexto: não se locupletou em Itaipu.

Em sua autobiografia, Celso Furtado, sempre rigoroso, e que não era de falar sem provas, muito menos de sair acusando quem quer que fosse, escreveu sobre sua cassação de direitos em abril de 64:

“Anos depois, chegaria a meu conhecimento, revelação de alta patente do Exército, que coube ao então coronel José Costa Cavalcanti a “iniciativa” de propor minha cassação de direitos. Esse senhor fora secretário de Segurança do governo Cid Sampaio, elegendo-se em seguida deputado federal, o que lhe permitiu dedicar-se à atividade conspiratória, protegido por imunidades parlamentares. Faria em seguida bela carreira na “Revolução”, como membro de um círculo estreito de coronéis que acolitaram o general Golbery do Couto e Silva. Mas, no momento da cassação, era apenas alguém ligado a um ex-governador usineiro, este preocupado em destruir a raiz da “infecção esquerdista” que abalara suas bases eleitorais. É de admitir que o sr. Costa Cavalcanti não tenha sido mais do que um moço de recados dos oligarcas do açúcar.”

Essa nódoa, ao menos, o coronel teve. Morreu com ela.

Quanto à corrupção em Itaipu, vale lembrar o desaparecimento do embaixador José Jobim, em março de 1979. Como contou um dia o Luis Nassif, o embaixador comentara, na recepção de posse do presidente Figueiredo, que preparava um livro com revelações sobre Itaipu. Na semana seguinte, desapareceu. Dois dias depois, descobriram seu corpo pendurado numa árvore em local ermo, no Rio. O texto do Luis Nassif está aqui.

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  1. Nabantino Gonçalves

    7 de agosto de 2019 8:33 pm

    Rosa, parabéns por sua cultura e memória. O que seria de nós brasileiros sem inteligências rigorosas como a sua. Vale também um muito obrigado cívico em uma hora dessas.

  2. Anônimo

    7 de agosto de 2019 9:22 pm

    Na ditadura não tinha militar corrupto, só tinha gente fina.
    Elio Gaspari foi tocar neste assunto, e por qual motivo ? Sempre é muito difícil recuperar a memória sobre o que aconteceu nos anos de chumbo, haja vista os 400 reconhecidos como mortos, quantidade que é capaz de lotar uma sala de cinema num shopping-center – das duas, uma, ou este número é completamente ridículo ou os grupos de tortura eram muito incompetentes, já que eliminaram 400 em 25 anos, média de 16 ao ano.

  3. Rubempré

    8 de agosto de 2019 3:04 am

    Cabe aqui indagar se a falsa afirmação de “sem nódoa” vinda de Gaspari resulta de esquecimento típico da velhice ou vem a propósito, dado que o colunista é autor de festejados volumes sobre a ditadura. Que não tem nódoa agora?

  4. Josa

    8 de agosto de 2019 7:06 am

    Como Andreazza, passando em São Benedito PE , vi um engenho todo asfaltado, achei estranho e perguntei quem tinha tanta grana pra pagar aquilo, ouvi como resposta de Fernando Gusmão (Dinho das candongas)”A dona é uma freira prima de Mário Andreazza”

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